cadernos

Hei alunos: rasguem os cadernos!

Edergênio Vieira*

Durante a Diáspora africana no início do XVIII, negros, provenientes da Nigéria e de outras regiões, eram levados ao sul do Benim até o famoso mercado de escravos de Uidá. As viagens eram realizadas ao cair do Sol, não apenas como estratégia de sobrevivência ao calor, mas também para que não memorizassem os caminhos e fugissem. Nesse percurso muitos morriam de fome, sede, cansaço e doenças – como a saudade. Em Uidá, os escravos eram conduzidos ao espaço dos leilões, em praça pública, onde eram vendidos aos traficantes europeus. Os que não eram vendidos acabavam  negociados pelos mercadores locais ou conduzidos a entrepostos. No trajeto do mercado ao porto, os cativos paravam em torno da “Árvore do Esquecimento”: os homens deviam passar nove vezes, e as mulheres, sete. Por quê? Para que, no trajeto à América, esquecessem-se de sua terra, de suas origens, de sua história, de sua identidade. Cada volta representava a morte das memórias que cada um traz dentro desde o útero.

A memória é um elemento fundamental na constituição de um povo. Por meio dela guardamos vivos em nosso cognitivo fatos, acontecimentos e lembranças indispensáveis a nossa vida. Ter uma boa memória, aqui não há juízo de valor nas lembranças, pois há memórias que são tristes que jamais esqueceremos, mas que não saem da nossa cabeça, exatamente porque o expediente da boa memória esta presente em muitos de nós. Falo então da memória decorada, acumulada. A escola brasileira sempre elegeu como sinônimo de bom aluno, dentre outros fatores como a disciplina, a passividade e a obediência à boa memória. Bom aluno sempre foi aquele que trazia tudo fixado, memorizado. Um bom exemplo de profissional também era aquele que tinha tudo gravado para dizer em sala. O professor era cópia de uma cópia, e o aluno cópia da cópia que era o professor. Ainda hoje a tradição da escola brasileira mesmo diante dos inúmeros avanços tecnológicos é copista e memorialística. O professor passa no quadro e o aluno copia para aplicar na prova e esquece na mesma velocidade que o texto some da tela do computador quando selecionamos tudo e apertamos a tecla delete. Ao fim de um ano letivo os alunos vivem um verdadeiro ritual de expurgo ao copia e cola, patrocinado por esse modelo de ensino que não ensina as pessoas a pensar: O caderno rasgado, despedaçado na porta da escola. As mãos dos alunos regozijam-se em um catártico costume de inutilizar tudo aquilo que eles foram obrigados a copiar o ano todo. Mas do que a sujeira das folhas de papel na porta de escola que é ruim sem dúvida nenhuma, temos um claro recado dos alunos em dizer: esse conhecimento que querem me passar não serve.

É uma nova árvore do esquecimento. É preciso que eles esqueçam para que possam suportar o próximo ano os mesmos ensinamentos enfadonhos que marcaram a jornada anterior. A escola tem sim o dever de ensinar o conhecimento clássico, aquele acumulado ao longo dos anos por conta da sabedoria popular, mística e cientifica. Contudo ao mesmo tempo as escolas (essas masmorras medievais de ensino) deveriam estabelecer links com novas questões que fazem parte desse tempo: o uso das redes sociais de forma ética, a degradação do planeta ocasionado por conta de um modelo de desenvolvimento concentrador de riquezas, a emancipação política e social dos filhos da classe proletária, a humanização das relações sociais num tempo de hipertrofia do afeto e da solidariedade humana com os próprios humanos e com os outros animais, plantas, arvores, rios e mares.

Os problemas da educação brasileira são bem mais complexos do que grupos ultraconservadores tentam passar. Os movimentos que buscam calar a voz do professor em sala de aula são os principais defensores desse ensino copista, memorialístico e desconectado da realidade. É impossível obtermos resultados diferentes cometendo os mesmos erros.  Por volta do ano de 1845, Marx começava a formular sua crítica à filosofia alemã, tanto ao idealismo quanto ao materialismo contemplativo. Analisando as ideias do jovem hegeliano Ludwig Feuerbach, Marx formula ideias centrais a partir das quais ele evoluiria sua crítica. Um excerto clássico e que ilustra bem esse texto foi retirado do livro Ideologia Alemã: Os filósofos têm apenas interpretado o mundo de maneiras diferentes; a questão, porém, é transforma-lo.

Mais do que interpretar o que a escola tem feito com os alunos e com os professores é lutar para transformá-la. Pois  “A finalidade de nossa escola é ensinar a repensar o pensamento, a ‘dessaber’ o sabido e a duvidar de sua própria dúvida; esta é a única maneira de começar a acreditar em alguma coisa” (Juan de Mairena).

*É professor da rede municipal de ensino de Anápolis, poeta e colunista do Cartas Proféticas.

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