bozo_sem qualidades

Homens sem qualidades e a ascensão do fascismo (I)

Roberto Bueno*

Artigo originalmente publicado pelo site Brasil 247.

O escritor austríaco Robert Musil (1880-1942) foi um dos mais notáveis e importantes romancistas modernos, autor do célebre “O homem sem qualidades” qualidades (Der Mann ohne Eigenschaften), cujo título aqui tomo por empréstimo, e com quem dialogo no decorrer destas linhas, pois como em seu momento, hoje no Brasil vivemos sob o avanço de regime militar autoritário de viés autoritário e fascista. Aqui proponho a análise cruzada de aspectos desta obra maior de Musil com excerto de outro texto seu intitulado “Ponderações e Reservas de um Homem Lento”.

Nas primeiras linhas de seu O homem sem qualidades, o personagem central encarnado na figura do bem-sucedido matemático Ulrich de pouco mais de 30 anos, Musil destacava a supervalorização da pergunta “onde estou?”, recordando que ela vem de longe, dos nômades mas que, contudo, é questão que não abandona os homens. Este “onde estou?” se mantém e ecoa mais profundo na busca pelo sentido da existência humana, todavia mais quando as piores tempestades do deserto se abatem, fazendo com que a poeira cubra não apenas todo o horizonte médio, mas também os imediatos milímetros que estão logo ali à frente dos nossos olhos impedindo-nos de avançar modestos passos. Então, intenso, ecoa o onde estou?, o onde estamos? Inquietações e desassossego típicos de tempos áridos e obscuros como foram aqueles da Alemanha em 1933 e de outros em que a violência impera no espaço público.

Quando o fascismo alemão chegou ao poder em 1933 havia uma promessa implícita de revigorar a Alemanha, de recompor o Estado derrotado em 1919, de reanimar o espírito do povo e o de seu tempo (Zeitgeist). Este movimento apontou para a via da revolução, como se fosse capaz de promover o renascimento da Alemanha das cinzas e do império da instabilidade que experimentara em decorrência da derrota em 1919. Inesperada, a derrota foi atribuída a traidores alemães, a segmentos civis e políticos avessos ao real espírito alemão, acusação que recaiu diretamente sobre os liberais, social-democratas e à esquerda em geral, que ao alcançar o poder no pós-guerra criou nova ordem, republicana, constituída sob a égide da Constituição de Weimar, regulando a substituição do regime de Guilherme II.

Os conservadores alemães e os apreciadores do antigo regime conservaram o desapreço pela nova ordem e aspiravam derrotá-la. Chegado o ano de 1933 a promessa fascista era de reverter dias reputados insuportavelmente turbulentos como aqueles da República de Weimar, infestados por uma corja de traidores, avessos às melhores tradições alemãs. Para que estas promessas fossem cumpridas era indispensável empregar propaganda eficientíssima, mobilizando a opinião pública. A este respeito analisa Rosenfield que “A propaganda nacionalista e fascista provocara inúmeras mudanças imperceptíveis que se conjugavam numa reviravolta drástica das opiniões, da sensibilidade e dos gestos da vida cotidiana, refletindo os destinos de inúmeras relações sociais, amigáveis ou matrimoniais […]”, e a rigor, aqueles eram tempos em que o peso da propaganda colonizava corpos e mentes de modo extremamente potente, com tamanho impacto que era capaz até mesmo de deslocar percepções de mundo, sem que os atores pudessem atentar precisamente para o passado imediato nem tampouco para o futuro que os donos do poder estavam a apontar.

A promessa de profunda transformação na Alemanha era percebida por segmentos do movimento como objetivo permanente, expectativa que foi mantida até que Hitler ordenou que fossem mortos, incluindo companheiros de viagem como Ernst Rohm, co-fundador e comandante-em-chefe da influente SA (Sturmabteilung), a primeira milícia nazista. A Noite das Facas Longas (legitimada por Carl Schmitt em seu texto Der Führer Schutzt das Recht [O Führer protege o direito]) foi a resposta direta e afirmativa de Hitler de que os interesses econômicos não poderiam ser ameaçados, sinalizando que era preciso estabilizar o sistema para que o regime lograsse encaminhar os seus projetos políticos com o apoio do já beneficiado mundo empresarial. Os discrepantes entusiastas da revolução precisavam ser calados a qualquer preço, e o assassinato de centenas de pessoas foi o meio encontrado, e assim logo a seguir dispor de um conjunto de indivíduos homogeneizado passíveis de controle pela propaganda fascista alemã.

Era esperado como efeito da massiva intervenção publicitária ideológica-cultural que a opinião pública não percebesse que a realidade atroz continuava a mover-se por trás do cenário habilmente manipulado pelo Ministério da Propaganda de Goebbels e, assim, evitar reações e manter a vida cotidiana sem maiores sobressaltos, mesmo quando tantos pacificamente estivessem a correr das cinzas de suas vidas para as suas próprias cinzas. Ao fascismo convém atomizar e isolar os indivíduos, cortar-lhes os laços, e evitar conexões que facilitem reações coletivas, mantendo apenas a conexão individual verticalmente com o Führer, pois assim como diz Zu Asche zu Staub, “Suas palavras pintam quadros / Mas ninguém pode vê-los / Sua alma está chorando por liberdade / Mas só eu posso entendê-los”, e o único que pode compreender o cenário não estará disposto a conceder nada.

Corriam os dias em que o instinto de sobrevivência coabitava com o medo, um sedutor convite para que diversas personalidades buscassem espaços confortáveis aderindo ao novo regime e assim o fortaleceram quando os dias da vitória se fizeram perceptíveis, algo explicável na literatura de Musil ao destacar a natureza plástica do caráter humano, disposto a aderir ao que quer que seja, aos poderosos ou ao regime que for. A literatura musiliana sugere que o caráter humano entendido em sua acepção conceitual de moralidade imperativa kantiana não é exatamente um bem distribuído universalmente em quantias generosas.

O flexível caráter humano encontrou espaço na literatura de Musil já no primeiro capítulo de seu “O homem sem qualidades” ao desenvolver sugestiva narrativa a partir da foto de um acidente de trânsito. Musil descrevia que “A dama sentiu-se mais aliviada, e agradeceu com o olhar. Devia ter ouvido antes aquela expressão, mas não sabia o que era, nem queria saber; bastava-lhe que aquilo explicasse o terrível acidente, reduzindo-o a um problema técnico, que já não a interessava diretamente. Ouviram a sirene estridente da ambulância e todos ficaram satisfeitos com a rapidez de sua chegada”. É notável como as sociedades modernas – a exemplo da Alemanha da época – são capazes de mobilizar recursos para o cumprimento altamente eficiente de determinados fins cuja valia nem sempre é socialmente estabelecida como valiosa. À época o Estado alemão da época já era bem constituído e estava em condições de prestar eficiente socorro aos acidentados no trânsito, aos atropelados pelo progresso na encarnação dos veículos automotores, expandidos nas ruas bem cuidadas das metrópoles europeias, fazendo chegar até ali outro veículo automotor preparado e bem equipado com socorro médico especializado para salvar vidas.

Aquela sociedade alemã descrita por Musil dispunha de recursos técnicos altamente eficientes, mas à parte aplicá-los para salvar vidas poderia mobilizá-los para trafegar percurso inverso, a saber, para fazer perecer e matar milhões de pessoas. Mas a conduta da dama musiliana na posição de testemunha ocular permitiu que se sentisse “mais aliviada, e agradeceu com o olhar”, tamanha fora aquela presteza técnico-civilizacional no socorro ao atropelado. Anos após, sem embargo, a mesma dama poderia permanecer com o seu olhar granítico a testemunhar como a eficiência das instituições sociais mobilizadoras da tecnologia moderna poderia impor a morte a milhões de pessoas, ou seja, o extermínio e não a salvação, substituindo os homens de branco que colocavam corpos feridos nas macas para embarcá-los nas ambulâncias por outros homens, estes fardados, colocando indivíduos em caminhões para submetê-los a gás mortal. A cena poderia merecer a atenção e admiração da testemunha feminina musiliana, aliviada com o desfecho do acidente de rua, levando o mal-estar para além do horizonte que os seus olhos poderiam alcançar, arrastando a barbárie para além das fronteiras que a sua capacidade cognitiva estaria disposta a perscrutar, posição idêntica a assumida por tantos milhões de alemães.

Perdemos muitas expressões no cotidiano, perdemos muitos significados e também desatendemos muitos pedidos de socorro das gentes e dos tempos, mas nem sempre os perdemos por negligência, senão por, virtualmente, não os termos compreendido. Ao interlocutor da dama musiliana bastaria ter dedicado algo mais de atenção, e talvez tempo, para observar aquela expressão humana em face feminina, mesmo que o observador não soubesse exatamente o que era, sendo imperdoável mesmo apenas o não querer saber. A literatura de Musil destaca que para a sua dama bastava apenas o ordinário para explicar o terrível acidente, e se possível fosse reduzir a termos mínimos, então, explicar o acidente como se nada mais fosse do que um mero problema técnico, e melhor que fosse mesmo assim, um evento da natureza inevitável, um assombro incontornável, um sofrimento e desconforto passageiros.

Para a dama musiliana nada disto interessava diretamente, e bastaria com ouvir a sirene estridente da ambulância, o signo auditivo necessário para distensionar a percepção das testemunhas de um acidente que alterava o cotidiano, sinal que logo permitiria que todos voltassem a ficar satisfeitos com a rapidez da presteza de chegada do socorro. Exposta a raiz do mal aos olhos de todos, atitude reflexa de muitos é desviar o olhar, fugidios à sua crueza, e a dama musiliana talvez não tivesse melhor constituição anímica para algo distinto, e assim, sem que lhe merecesse sequer pestanejar, desviaria suas atenções daquele momento do atropelamento e seus desdobramentos, pois ela “não sabia o que era, nem queria saber”, assim como tantos não quiseram saber quem eram aquelas famílias colocadas à força em caminhões, nem para onde eram levados os judeus, e tampouco qual o que exatamente ocorria nos campos de concentração. São muitos os olhares dispostos a esquivar-se do real, desviar das esquinas da história em que a solidariedade requer coragem, em que a vida impõe ousadia, ainda que sob risco pessoal. A dama musiliana talvez pudesse experimentar um incômodo similar em sua busca de razões-véu tão simples quanto simplórias, mas logo sucedido pelo alívio, pois, no fundo, “bastava-lhe que aquilo explicasse o terrível acidente, reduzindo-o a um problema técnico, que já não a interessava diretamente”. De fato, a dama e tantos milhões de alemães queriam esquecer, e não introjetar, informações tão incômodas para o cotidiano, que traziam a barbárie para a mesa de jantar e que lhes exigiria reação.

A admiração pela potencialidade e pelos notáveis progressos na abertura do século XX aparece na literatura musiliana através da descrição de quão admiráveis eram as instituições sociais, que eram capazes de colocar acidentados rapidamente nas macas de carros a ponto de salvar as suas vidas, valendo-se para tanto de “Homens com uma espécie de uniforme cuidaram dele, e o interior do veículo, que se divisava rapidamente, parecia limpo e ordenado como um quarto de hospital. Afastaram-se quase com a justa impressão de que acontecera um fato dentro da ordem e legalidade”, tudo tão asséptico e aparentemente tão adequado e bem acabado que impunha a percepção de que o mundo corria para o seu melhor futuro possível através destas figuras autorizadas por uniformes tão respeitáveis. Correria o mundo para o seu melhor futuro possível sob a condução e cuidado dos homens fardados? (segue).

O Cartas Proféticas precisa de sua contribuição.  Clique e faça sua preciosa colaboração doando o valor que lhe paracer mais justo e possível.  Neste link você encontra a conta para fazer seu depósito solidário. Muito obrigado e abraços.  

*Pós-Doutor em Direito. Mestre em Filosofia. Autor, dentre outros, de “Democracia sequestrada: oligarquia transnacional, pós-neoliberalismo e mídia” e “Uma interpretação conservadora-revolucionária de Carl Schmitt. O potencial totalitário em gestação: Weimar e o nacional-socialismo”.

Deixe uma resposta