sem qualidade

Homens sem qualidades e a ascensão do fascismo (II)

Roberto Bueno*

Em seu texto “Ponderações e Reservas de um Homem Lento”, Robert Musil apresenta um cenário de instituições sociais que atestam a sua excelência em face de seu admirável desempenho. Louvável mas, sem embargo, dispõe de uma face que lhes permite operar de modo a entorpecer gravemente as condições para a mais apurada percepção e reação ao mal, e que afastam de nossas vistas a configuração da carne explorada ou o mau odor da carne moída. Melhor que as instituições sociais continuem a colocar os homens em macas confiáveis como na literatura de Musil, mas é preciso desconfiar dos homens fardados que enfiem gente em veículos obscuros e que, sob a indiferença geral, não levem estes indivíduos para qualquer espaço de cuidados médicos, senão o contrário. Aos olhos da massa tudo pode parecer tão limpo e asséptico, tão confiável e certo, tão seguro e ordinário, que a estratégia do mal e sua aliada de sempre, a crueldade, ganhe tempo suficiente para empenhar-se em sua função, até que finalmente o mundo desabe ante o desconcerto dos omissos e refratários à ação.

Os dias difíceis fortemente seduzem a amplos segmentos humanos que se afastem da posição de testemunho, que se omitam e vislumbrem a vantagem do resguardar-se, como se o mal se contivesse, como se a saciedade fosse uma típica característica. Afastar-se das situações de risco e articular positiva reação apenas alimenta as forças que deslocam o poder de seu núcleo popular. Este distanciamento fomenta a inconsciência dos atores envolvidos, não racionalizando os fatos, restringindo as esferas de problematização, desprezando as tantas situações de sofrimento. É notável que há uma dissociação entre o olhar objetiva e propositalmente desatento, fugidio ao real, e os homens da literatura de Musil, que insistem em identificar que o real é o percebido, ou seja, que no mundo empírico homens “Afastaram-se quase com a justa impressão de que acontecera um fato dentro da ordem e legalidade”, mesmo quando isto não passasse de uma visão superficial em dias marcados justamente por fatos que transbordavam de ilegalidades flagrantemente.

O olhar distante do plano do real pode sugerir que há uma fortaleza inexpugnável em suas articulações. Conformar-se com que o presente esteja cristalizado por forças inabordáveis é uma das estratégias de que os indivíduos podem lançar mão para ocultar-se na omissão em dias difíceis mas, antes, certamente, é visão que interessa à plutocracia fazer proliferar. A resignação opera como uma força granítica em favor da manutenção de estruturas de regimes políticos autoritários, quer se apresentem sob armas ou discreta, mas não menos mortalmente, sob a lógica das finanças. A conformidade é realmente a energia de que esta força autoritária precisa para cristalizar-se e concretizar o mal em escala infinita. A irresignação, ainda mesmo em modestíssima dosagem, incita os primeiros passos reativos, que por modestos que sejam, descortinam trilha insuspeita de omissão frente ao regime estabelecido, senão que pode servir como estopim para o rompimento da cristalização do poder. Quanto as possibilidades das modestas reações convergimos com a literatura de Musil ao afirmar que “[…] sim, o heróico parece minúsculo como um grão de areia colocado sobre uma montanha com extraordinária ilusão”, sim, ele parece, mas mesmo sob estas ações minúsculas, desde certa perspectiva percebida como isolada, subjaz importante potencial para despertar o furacão da ousadia de inumeráveis indivíduos, que eleva o patamar da pulsação, e da força reativa, então capaz de subverter regimes autoritários.

Nos tempos em que a cultura de época favorece o fascismo os dias são tão cinzentos quanto o ar da moralidade (ir)respirável, a consagrar um ambiente extremamente rarefeito, multiplicando-se as questões e apreensões sem resposta e sinergias bloqueadas, perplexidades sem interlocutores, horizonte de expectativas suspensas, inseguranças, medos reais mesclados e potencializados pelos fictícios a conviver com a imposição da violência. Musil compreendeu a dinâmica de seu tempo sob a nova ordem fascista ao descrever que “[…] naquele tempo havia centenas de indagações irrespondidas desse tipo, da maior importância. Pairavam no ar, ardiam sob os pés. O tempo corria”. Ardiam os dias e noites, mas todavia mais intensamente em face dos bloqueios coletivos que atomizavam a multidão. Superlativa a velocidade que precisa ser imposta aos dias em que os homens não devem dispor de acesso ao pensar, indispensável acelerar a máquina da vida ordinária para que o ordinário da vida não seja percebido em sua real inteireza. A armadilha está posta.

Esta aceleração poderia não ser realmente compreendida, mas Musil chama a atenção dos incrédulos para que já naqueles dias era mesmo assim. A imposição de singular celeridade em tempos de evolução autoritária embora necessária, sem embargo, é insuficiente para os propósitos do regime, pois é preciso que à distorção de percepção no tempo seja somada a distorção de percepção de rumo, e por isto também adequada é a descrição daqueles tempos feita por Musil no sentido de que “Apenas não se sabia para onde corria. Nem se podia distinguir direito o que estava em cima ou embaixo, o que ia para diante ou para trás”. O que está em curso em regimes autoritários é o esforço continuado e progressivo por desconectar o pensamento da dimensão do real, evitando que as opções reativas sejam desenhadas e os rumos sejam divisáveis e, por conseguinte, que as reações sejam tais como as descritas por Musil, ou seja, sem saber para onde se está a correr. Era uma tarefa daqueles dias da Alemanha, assim como dos demais fascismos, a imposição da perda da capacidade de perceber o tempo e de perceber-se nele, o espaço e a localização de cada qual dentro dele, e como se fosse pouco.

A interdição ou entorpecimento das vias de acesso da cultura através do controle dos organismos por parte do fascismo impõe perdas ao tecido social e inviabiliza a aplicação das melhores capacidades cognitivas da população à esfera política. Isto é estratégico para o fascismo, que estruturou sua estratégia de forma similar à descrita por Musil de que “[…] não poderia ser diferente: um movimento que se apresenta com tanto vigor quanto o atual não poderia fazer outra coisa a não ser exigir que tudo e todos se assimilem e se subordinem a ele por completo”. É certo, o fascismo pretende a assimilação completa, subserviência como regra e a submissão irrestrita, restando facilitada a tarefa na medida em que o fascismo obtivesse êxito em que os indivíduos já não mais entendessem a si e aos demais em seu espaço-mundo. Contudo, resta por questionar como seria possível seduzir a massa de indivíduos para ocupar esta posição por longo tempo.

Quem, quais atores e estratégias poderiam mobilizar forças suficientes para persuadir que a submissão é melhor opção do que a autonomia e a independência propostas pelo Iluminismo? De algum modo Musil em sua literatura aponta o casal Fischel como um paradigma revelador das artimanhas do fascismo para sobrepor-se às trilhas da autonomia ao sugerir pistas para responder à questão no âmbito do fascismo alemão: “O destino deste casal dependia de uma sedimentação fosca, tenaz e desordenada de ideias que não eram deles [dos esposos], mas pertenciam à opinião pública e mudaram com ela, sem que conseguissem evitá-lo”. A penetração na mente popular, a sua ocupação, e sua colonização segundo a mais dura das versões, é indispensável para que o fascismo realize as suas altas perspectivas de poder. A esta altura observa-se quão relevante é para o êxito do regime o fenômeno da propaganda, de sorte a modelar a opinião pública que sirva de apoio para políticas inaceitáveis em sua horrenda crueza. Sistemas de poder fascistas visam o domínio sem limites, a invasão às últimas consequências dos recônditos da alma humana através dos mais sofisticados meios disponíveis em cada época, e como diz Musil, “[…] não poderia ser diferente: um movimento que se apresenta com tanto vigor quanto o atual não poderia fazer outra coisa a não ser exigir que tudo e todos se assimilem e se subordinem a ele por completo”. A submissão dos corpos através da força do Estado e do espírito através da propaganda massiva e da pressão cultural, é assim que o poder fascista encaminha concretamente o seu propósito de completa subordinação humana.

A desordenação das ideias dos indivíduos, o turvamento das articulações coletivas e o conseguinte obscurecimento dos tempos não é casual, mas um processo conectado a uma estratégia de desprezo e objetiva renúncia à inteligência, e esta é uma via de asseguramento da estratégia de poder do fascismo. O fascismo precisa desarmar a inteligência, pois é fator cultural capaz de articular dura resistência aos seus projetos de poder corrosivos do mundo da vida. Neste aspecto Musil escrevia durante os difíceis dias de 1933 que “Com uma prontidão sem par para o sacrifício, a Alemanha renunciou, em poucas semanas, a pesquisadores e eruditos entre os quais não há poucos que sejam insubstituíveis – [pelo menos] quando se leva em consideração os critérios que orientaram a vida espiritual durante séculos; e nenhum debate dessas condições de vida pode permanecer indiferente ao que aconteceu”. O fascismo é mesmo assim, um inimigo da inteligência na medida em que precisa desarmar a razão como via de consolidação de sua irracionalidade. Seus passos apontam para a transformação de uma população inteira em rebanho, e esta é a estratégia-mor para desarticular a racionalidade cuja base é mesmo a intelectualidade e a erudição que lhe ameaçam.

É notável como os regimes autoritários precisam recorrer a forças desconstitutivas e entorpecedoras da racionalidade para dar azo à aspiração pelo domínio e implementação da hegemonia, fenômeno realisticamente desenhado por Musil ao sublinhar que “[…] não deixa de ser uma boa provação para o espírito o fato de que agora foi decretada uma legislação de exceção que não o julga segundo as suas próprias leis, mas segundo a lei do movimento [revolucionário]”. O Estado de exceção é este abrupto corte civilizacional, ruptura com o tempo histórico em que, segundo a gramática de Musil, o espírito passa a não ser julgado segundo as suas próprias leis, senão que passa a sê-lo enquanto objeto da pura arbitrariedade do movimento fascista. Este é um corte indispensável para que o fascismo possa aglutinar forças e concretizar o seu ambicionado cenário de domínio total.

A análise dos difíceis tempos em que o fascismo emerge e, logo, de sua ascensão ao poder, é observável através da literatura de Musil ao narrar que “Há manias, delírios, ideias compulsivas. Há comunidades loucas compostas de componentes perfeitamente sãos”. É fato que o fascismo brota como que ex nihilo, do nada, mas apenas aparentemente. Há base, que é a cultura da época que alimenta os atores sociais, muitos dos quais até a véspera poderiam ser reputados perfeitamente sãos mas que, amanhecido o dia, observam-se renatas personalidades, como se se tratasse de um passe de mágica (mal feita), em que importantes segmentos inicialmente isolados passam a compartilhar valores exóticos tanto quanto suicidas guias de uma comunidade delirante em suas opções mais profundas. Musil reforça a perspectiva da doença coletiva fomentada pelo fascismo, algo que, sem embargo, não pressupõe o adoecimento de seus componentes individuais, e nesta expectativa de que os indivíduos não tenham irremediavelmente adoecido é que subsistem argumentos e expectativas eficientes de que o tecido social possa recompor-se ainda mesmo quando os dias sejam demasiado turbulentos.

O fascismo e as suas versões contemporâneas mantêm valores em comum não apenas refratários à ideia do conceito universal do humano, mas chegando a posicioná-los como genuínos inimigos, tal como aparece na literatura musiliana ao destacar que a “Humanidade, tanto quanto cosmopolitismo e internacionalidade, liberdade e objetividade, são agora valores que tornam suspeitos aqueles que as possuem […]”, ou seja, trata-se de que o universalismo humanista e o conjunto do que hoje conhecemos sob a gramática dos direitos humanos passam a ser alvo de ataque. Neste novo tempo os indivíduos que sustentam estes valores serão classificados pelo regime para além da mera suspeição, ocupando a condição de inimigos do regime fascista. Sob as condições de emersão do fascismo quem “[…] defende uma dessas ideias torna-se suspeito de simpatizar com as outras, pois mostra assim que não captou a indivisibilidade da transfiguração (Verwandlung – transmutação)”, exato movimento que o regime fascista tenta impor. Estes indivíduos não são tratados apenas como divergentes ou dissonantes, mas como inimigos do regime enquanto perigosos combatentes da homogeneidade que o regime fascista tem em vista implementar, e esta oposição é identificada como suficiente para que o regime os insira em uma listagem de perseguidos, a quem não se deverá reconhecer os direitos fundamentais.

O asseguramento de direitos básicos aponta para a consagração de um perfil antropológico Iluminista que foi alvo de diretos ataques, e sob este cenário Musil escrevia que “[…] tudo isto se apresentava aos olhos de milhões de pessoas fervorosamente confiantes de terem depositado nisso mesmo suas inalienáveis convicções; e tudo isso foi abolido de um só golpe, sem que as mesmas pessoas tivessem movido um dedo sequer!”, e é verdadeiramente desafiador avançar na compreensão de que os direitos inalienáveis de milhões sejam capturados sem insistente resistência por parte dos ofendidos existencialmente. A literatura de Musil deu um passo além ao propor esclarecedora imagem textual das vias do fascismo, e assim o fez ao escrever que milhões de pessoas na Alemanha “Juraram que sacrificariam suas vidas pelos seus princípios, e mal mexeram um dedo! Sentiram que alguém lhes roubava o espírito, mas, de repente, reconheceram que seu corpo era mais importante”. Os pactos políticos e constitucionais a partir dos quais são colocados em prática um expressivo número de princípios e regras sobre a boa sociedade podem ser ordinariamente atacados de forma visceral, mas o que precisa suscitar interesse é articular as condições gerais de reação. É delicada a questão de como mobilizar espíritos para defender corpos, o seu inclusive, quando as mentes foram treinadas e bem adaptadas para manter-se em suas vidas atomizadas sob a égide do egoísmo suicida. Nesta circunstância o fascismo encontra terreno fértil para avançar livremente e operar em favor da plutocracia de cada época.

Certamente há homens que podem tardar a perceber o rumo dos dias e o do seu tempo. Certamente há homens realmente lentos neste processo, e os há muito lentos, e outros ainda extremamente lentos, tão lentos que as suas vidas podem ser colocadas em xeque e, ainda mesmo de que (re)ajam, perecem. Estes são os homens que, malgrado apreciadores de seus direitos, tão lentos são em suas reações, terminam por colocar em risco não apenas a si mesmos como também o coletivo com o qual compartilham o seu espaço existencial. O homem perece tanto por sua omissão como por sua ação extemporânea, e assim abre espaço para que também outros muitos sucumbam.

Em diversos momentos históricos os homens sucumbem em grandeza exponencial, e sob este cenário de fundo há os controladores que estouram o champagne. Estes são os personagens desconectados do sentido e do interesse massivo da população, mas que serão varridos para as mais obscuras páginas da história com nenhuma outra glória exceto a temporalidade e os motivos materiais que lhes permitam estourar efêmeros champagnes em festividades em que a obscuridade do ébrio que convencer de sua lucidez a um conjunto expressivo de atores imersos no mesmo cenário de rechaço à cultura e erudição. Nesta festividade bailam ensandecidas as muitas “[…] manias, delírios, ideias compulsivas”animando o aprofundamento da via fascista para a constituição de um vasto rebanho comunitário de loucos composto por indivíduos perfeitamente sãos.

Estes foram os tempos vividos por Franz Blei, outro intelectual vienês que ao festejar o seu aniversário de 60 anos na Alemanha já antecipava o fracasso de suas atividades intelectuais, quer como crítico, quer como editor, assim como também naqueles dias o magnífico Musil haveria de escrever e não compartilhar publicamente parte de seus escritos, pois avançava o totalitarismo alemão através das mãos de Hitler que a tudo e a todos exclui do direito e do mundo quando se apresentem na condição de dissidentes. A censura, a hostilidade e toda sorte de instrumentos coercitivos foram colocados em curso, e assim as figuras mais obscuras podem promover as condições para os piores e mais horrendos tempos, dias que parecem eternos, mas apenas até que o dia amanheça e o sol nasça outra vez.

Enquanto o dia não amanhece e as esperanças restam embotadas nos piores e mais deteriorados territórios a expectativa de muitos sob este efeito entorpecedor é a de que “A gente pode fazer o que quiser”, tal como disse o homem sem qualidades musiliano em voz baixa para si mesmo, logo emendando, ao dar de ombros, que “[…] isso não tem a menor importância nesse emaranhado de forças!” O homem sem qualidades descrê na capacidade de ação e intervenção determinante de seu futuro. É certo que, como sugere Musil, as pessoas podem fazer o que quiserem, mas não sem consequências efetivas como quer o homem sem qualidades, senão que tem força para impactar decisivamente para desentranhar o emaranhado de forças fascistas. A descrença na intervenção direta no processo político é um dos aspectos frágeis dos homens sem qualidades estimulados pelas hostes fascistas. Mas há muitos outros homens e mulheres com qualidades admiráveis que com passo inicial poderão contar com a massa de fragilidades descompensadas dos homens sem qualidades enfrentados em suas profundas contradições internas que transmutam-se em virtudes contrassistêmicas, tão intensas são as suas debilidades. A gente realmente pode fazer o que quiser, e o futuro está aberto, como sempre esteve e como nunca querem nos permitir ver, e agir no plano empírico fará toda a diferença neste emaranhado fascista de forças. (fim)

*Professor universitário, escritor e colunista do Cartas Proféticas. .

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