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Jornalista categorizado pergunta: “Por que só agora tucanos vão em cana?”

Ricardo Melo*

Publicado orginalmente no site Brasil 247.

A volta espetaculosa das ações da Lava Jato pode dar a impressão de que “agora a coisa vai.” De repente, o tucanato vira alvo de prisões, apreensões, investigações, acusações.
Gente séria vê nisso uma coincidência nada casual. Bastou Sérgio Moro sair da vara de Curitiba para liberar as amarras que poupavam o PSDB de qualquer investigação séria. Até então, o único condenado, com décadas de atraso, havia sido um morto (Sérgio Guerra) e Eduardo Azeredo, que já não oferecia perigo a uma mosca.

Pausa: até aquele momento, o alvo sempre foi o PT, Lula em especial. O roteiro estava escrito e não permitia “cacos”. Tratava-se de tirar o maior líder popular da história do Brasil das eleições, as quais ele ganharia com o pé nas costas. Todo o resto não vinha ao caso. O serviço uniu executivo, legislativo, judiciário e o capital abutre –todos embalados com a voz uníssona da grande mídia.

De lá pra cá, a cronologia dos fatos pregou algumas surpresas para esta gente. Os candidatos de sempre do andar de cima experimentaram um vexame sem precedentes nas eleições. Sobrou um ex-capitão (que só virou capitão quando foi expelido para a reserva –era um mero tenente) evidentemente despreparado para qualquer missão pública digna do nome.
Mesmo assim, Bolsonaro só “ganhou as eleições” graças a todos os tipos de fraude, desde a eletrônica até as velhas práticas de roubo escancarado, caixa-dois. Mas é o que tínhamos para hoje, diria a coalizão antiBrasil que guilhotinou Lula e pretendia (e pretende) retroagir o Brasil à época do bispo Sardinha.

Bolsonaro nunca foi bem quisto pelos ricos cheirosos. Não pelas ideais, mas pelos modos. Rústico no tratamento, jamais ligou para cuidados na hora de encher os bolsos dele e da filharada, cuidados que os milionários normalmente tomam na hora de avançar sobre o dinheiro do povo.

Mesmo estes não imaginavam o tamanho da capivara (exposta) que cerca a famiglia. Aliança com milicianos paramilitares, roubo escancarado de recursos públicos com o uso de assessores, candidatos fantasmas usados para desviar verbas eleitorais, um laranjal de fazer inveja à Cutrale, maior produtora de suco da fruta do mundo..

Voltando um pouco no tempo, surgiu o escândalo Queiróz/Flávio Bolsonaro. As evidências das relações promíscuas da famiglia com assassinos e familiares destes são de clareza solar. Já se sabia disto desde antes das eleições, mas o ministério público do Rio atrasou o quanto pôde as apurações. Os motivos nunca ficaram muito nítidos, mas são fáceis de imaginar. Simultaneamente, surgia um gabinete coalhado de militares. Além deles, ministros que, quando não estão encrencados com justiça, habitam um universo paralelo onde circulam fantasmas de Marx, Mao-Tsé-Tung, pés de goiaba, Olavo de Carvalho e, acima de tudo e de todos, o “Deus Trump”.

Era preciso mudar o foco urgentemente. Não bastam generais órfãos das atrocidades da ditadura militar, como Mourão Filho, ora fantasiado de pequinês para quem quiser acreditar. Ou Augusto Heleno, cérebro do Planalto, idólatra de homicídios em massa como comandou no Haiti (aliás, vcs viram como está o Haiti depois da “heroica” missão brasileira?). Isso só para citar dois dos expoentes da facção verde-oliva.

Quem melhor que tucanos para “ressuscitar” o combate à corrupção? O PSDB já cumpriu o seu papel como pilar do impeachment da presidenta Dilma e da sustentação do usurpador Michel Temer. Agora virou uma legenda esfrangalhada, enterrada viva, sem expressão nacional e com uma bancada raquítica no Congresso.

Melhor ainda: todas as roubalheiras de que agora seus cardeais são acusados são conhecidas da PF, do Judiciário e da mídia estufada há décadas. Paulo “2 Geddeis” Preto é figura carimbada até no ministério suíço. José Serra, idem. Geraldo Alckmin, a mesma coisa. Aloysio Nunes Ferreira frequenta os livros de escrivães de polícia há anos. Beto Richa é delinquente contumaz. A lista é imensa. Caso não possua arquivos, basta à PF recorrer ao Google.

Por que só agora então? A sincronia dos fatos ilumina o debate. Nada disso anistia os criminosos que forem identificados dentro de processo legais negados à Lula. Longe disso: antes tarde que nunca. Mas acreditar que finalmente a justiça está sendo feita não passa de ingenuidade. Antes disso, está em marcha uma operação para blindar Bolsonaro dele mesmo exumando crimes suspostamente maiores que os dele ele e sua famiglia. De repente, sumiram do noticiário Queiróz, Marielle Franco e o motorista Anderson, Flávio Bolsonaro etc.

A PF, aliás, é subordinada a Sérgio Moro. Já viu ele dar ponto sem nó? Com a maior cara de pau, amenizou suas críticas ao caixa-dois para arrastar uma parcela do Congresso. Seu guia não está no Planalto, mas na Casa Branca. O objetivo final está à vista de todos: conquistar a ferro e fogo a liquidação da aposentadoria em benefício dos ganhos da banca privada mundial. A propósito, isto sim um estelionato eleitoral, como o próprio tenente e ex-capitão reconheceu ao vivo e em cores. Em 30 anos de Congresso, Bolsonaro sempre votou contra a reforma da previdência.

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*É jornalista, presidiu a EBC e integra o Jornalistas pela Democracia.

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