papa francisco atacado

Jornalista Mauro Lopes: “Contra as versões falsificadas de Francisco, o Papa dos Pobres”

Sempre que um/a lider de igreja assume postrura profética e libertadora sobrecaem sobre sua mente cargas de ódio em forma de injúrias, calúnias e distorções do que há de mais sagrado no ser humano, a sua imegem.

A direita, os alienados e fascistas, que tentam controlar as igrejas, preferem um cristianismo mais “espiritital”, como ignorantemente tentam definir o desejo de liturgias e pastorais de costas para o Jesus de Nazaré e no descompromisso diante das injustiças e opressões que massacram os pobres.

O Papa Francisco vem sendo dinamitado, atacado e injuriado desde o início de sua liderança no mundo.

Os raivosos e fasicistas de todas as cores abominam o Papa Francisco e tramam contra ele todos os dias, desde o início de sua tragetória pastoral em Roma. Por isso, desde cedo Francisco tomou logo a inciativa de morar na Casa Santa Marta no Vaticano e assim se proteger de tentativa de assinato, como fizeram ao Papa João Paulo I.

Numa resenha, longe de ser completa e perfeita, o jornalista Mauro Lopes tenta descrever o Papa Francisco.

Este Papa  interessa não somente ao catolicismo romano mas a todas as pessoas de boa vontade, proféticas e libertadoras de todas as igrejas, religiões e a humanidade inteira.

Leia abaixo a resenha de Mauro Lopes, Jornalista e editor do site Brasil 247 e do blog Caminho pra casa.

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Padre Julio Lancellotti chamou-me a atenção para este texto do excepcional Andrea Grillo, um do teólogos de vanguarda desta primeira metade do século 21. O artigo, ao fazer a crítica de um livro recém-lançado sobre a trajetória intelectual de Francisco, é uma vacina poderosa contra as tentativas de pasteurização e aburguesamento de sua imagem. Há três Papas na praça, apenas um deles é de fato Francisco: o Papa dos Pobres. Episódios recentes das homilias de Francisco contra os golpes e as mídias conservadoras e sobretudo o caso do “terço do Papa” ilustram bem as diferentes projeções da figura de Bergoglio. Este artigo foi publicado originalmente no blog Caminho Pra Casa.

Temos hoje três projeções da figura do Papa Francisco disseminadas mundo adentro, no cristianismo e fora dele. São elas, resumidamente:

1.  O Papa dos Pobres, que recupera a originalidade do cristianismo, o espírito do Vaticano II, que combate a herança desastrosa e conservadora de Wojtyla e Ratzinger e alinha a Igreja aos deserdados, ao degradados, aos perseguidos e injustiçados à turma de Jesus. Recupera o Pacto das Catacumbas que reuniu bispos e padres num compromisso à margem do Vaticano II, de uma Igreja pobre com os pobres. Assim leem o Papa os cristãos vinculados à teologia latino-americana, à teologia liberal norte-americana e europeia e à teologia do ecumenismo e do pluralismo religioso da Ásia, todos perseguidos nos 35 anos anteriores a Francisco.

2. O Papa esquerdista, tirano, com tendências comunistas, amigo dos “vermelhos”, traidor da tradição e da “pureza” da Igreja (na verdade, da Igreja medieval e do projeto restauracionista dos dois papas que o antecederam). Assim enxergam Francisco os tradicionalistas radicais, a direita da Igreja, que desejam uma religião de ritos tridentinos e dupla moral, cujo maior exemplo é a Igreja do Chile. São liderados pelos católicos extremistas dos EUA e Europa e no Brasil têm uma rede de apoio.

3. O Papa “meio a meio”, “nem tanto ao mar nem tanto à terra”, na verdade um continuador de João `Paulo II e Bento XVI, que é moderado, em cima do muro, que dá uma no cravo e outra na ferradura. Um papa “tucano” (isso antes de os tucanos se tornarem adeptos de golpes de Estado). Disseminam esta imagem os “moderados”, cuja representação mais vistosa é a atual direção da CNBB. É a turma do “deixa disso”. Além deles, apropriam-se desta imagem  e os tradicionalistas “espertos”, que querem ir “cozinhando” Francisco até sua morte e a eleição de (esperam) um continuador de João Paulo II e Bento XVI, os “papas de verdade”. Esta turma engole Francisco em público, faz festa nos temas morais em que Francisco busca alguma composição, distribuem “fake news” todo o tempo, inventando um Papa que nunca existiu.

Vimos essa “disputa” em torno da imagem do Papa nos episódios das homilias recentes de Francisco contra as ditaduras e os golpes de Estado patrocinados pelas mídias conservadoras e, sobretudo, no caso do envio do argentino Juan Grabois a Lula na cadeia, em Curitiba -a visita foi vetada pela PF e ficou conhecida pelo terço que Francisco abençoou e mandou ao ex-presidente.

Foram duas homilias, ambas em celebrações na capela Santa Marta, no Vaticano, onde preside as missas sempre que está em Roma. Em nenhuma delas o Papa citou Lula ou o Brasil (ou sua Argentina), mas é evidente a menção:

Na primeira, em 17 de maio, Francisco condenou o golpe de maneira dura. Sem citar o Brasil ou o nome de Lula diretamente, fez uma descrição perfeita do que acontece no país. O Papa descreveu à perfeição a situação brasileira: “a mídia começa a falar mal das pessoas, dos dirigentes, e com a calúnia e a difamação essas pessoas ficam manchadas”. Depois chega a justiça, “as condena e, no final, se faz um golpe de Estado” (aqui).

Na segunda, ontem (18), um mês depois, Francisco voltou a descrever a situação brasileira à perfeição, sem mencionar o país: “Se concede todo o aparato da comunicação a uma empresa, a uma sociedade que faz calúnia, diz falsidades, enfraquece a vida democrática. Depois vêm os juízes a julgar essas instituições enfraquecidas, essas pessoas destruídas, condenam e assim vai avante uma ditadura. As ditaduras, todas, começaram assim, adulterando a comunicação, para colocar a comunicação nas mãos de uma pessoa sem escrúpulo, de um governo sem escrúpulo” (aqui).

O caso de Juan Grabois ficou bem conhecido no Brasil, com enorme repercussão. O argentino, coordenador dos três Encontros Mundiais dos Movimentos Populares ao lado do cardeal Peter Turkson e consultor do Vaticano, é um dos braços direitos de Francisco, que o enviou até Curitiba, com uma mensagem e um terço (toda a história está aqui).

Nos episódios das homilias e do terço, as três visões sobre Francisco moldaram a reação dos agrupamentos de católicos e dos protagonistas na sociedade. Os que consideram Francisco o Papa dos Pobres alegraram-se com as homilias e o envio de Juan Grabois e cuidaram de divulgá-las ao máximo, com apoio entusiasmado ao Papa; os que consideram Francisco um Papa esquerdista consideraram as homilias “políticas” e tentaram desmoralizar a iniciativa da visita da Lula considerando as notícias sobre o fato como “fake news”; os que  projetam Francisco como um Papa “meio a meio” silenciaram, não se referiram às homilias ou à visita, o que tem sido recorrente -é o caso, por exemplo, da CNBB. No caso dos grupos do catolicismo de direita e moderado, há um aspecto relevante em sua postura: Francisco, como o mais carismático Papa da história, foge a todos os padrões do monarca que obedece às normas e regras rígidas da instituição; Bergoglio passa por fora da estrutura eclesial e age diretamente na relação com seu rebanho, utilizando até um argentino com jeito de motoqueiro em vez de monsenhores sisudos e fantasiados de solenidade.

O artigo de Andrea Grillo, escrito originalmente em seu blog Come Se Non (aqui, em italiano) foi traduzido por Moisés Sbardelotto e publicado em português no fantástico IHU, dos jesuítas do Rio Grande do Sul. A íntegra segue abaixo.

O texto é uma resenha crítica do livro de Massimo Borghesi,  Jorge Mario Bergoglio. Uma biografia intelectual (Petrópolis: Vozes, 2018), que está mobilizando grande atenção nos meios intelectuais católicos e cristãos em geral. Como explica Grillo no início, o artigo é iluminado por sua experiência no  Simpósio IHU sobre “A virada profética do Papa Francisco” que polarizou teólogos e pensadores cristáos de todo o mundo entre 21 e 24 de maio de 2018 no campus da Unisinos, em Porto Alegre.

O artigo de Grillo tem o título de “A virada profética do Papa Francisco: virtudes histórico-filosóficas e vícios sistemáticos de uma biografia intelectual”. É imperdível.

Segue a íntegra:

Romano Guardini, em um ensaio juvenil dedicado ao “método sistemático” na liturgia, fez uma afirmação que é preciosa para ler o longo ensaio de Massimo Borghesi, Jorge Mario Bergoglio. Uma biografia intelectual (Petrópolis: Vozes, 2018): “A história nos diz aquilo que foi; a sistemática, aquilo que deve ser”.

No âmbito das perspectivas que se abriram graças ao Simpósio IHU sobre “A virada profética do Papa Francisco” – sobre o qual eu falei no post anterior desta série – considerei apresentar uma série de livros, que pretendo ler na perspectiva aberta pelo congresso brasileiro.

Diria mais: se eu não tivesse estado em Porto Alegre, se não tivesse ouvido os teólogos e os historiadores de meio mundo sobre o tema, não teria me dado conta de como é importante uma compreensão profunda, articulada e equilibrada do pensamento de Francisco e da sua exigência de profecia. Justamente porque eu a vi valorizada, limitada ou negada, sinto a exigência de compreendê-la melhor.

Acrescento aqui o volume de Borghesi, a partir do qual começo a minha apresentação – e ao qual se seguirão os livros de Lafont, Faggioli e Hünermann – que apareceu de modo particularmente importante justamente no Simpósio IHU, porque foi publicado no ano passado em italiano, mas já tem uma tradução em português e, em breve, terá uma tradução em inglês.
Na apresentação que foi feita dele no congresso brasileiro, aparecia claramente a intenção de pedir ao livro a delicadíssima função de “apresentar” e “acompanhar” Francisco nos Estados Unidos, que eclesialmente sentem uma grande dificuldade em receber serena e plenamente o seu magistério. A biografia de Borghesi, portanto, deveria “tranquilizar” e “garantir” o magistério de Francisco.

Achei bastante curiosa essa motivação: entendo sua exigência, mas também compreendo seus grandes riscos. Por esse motivo, quis ler com atenção o texto de Borghesi e aqui apresento uma resenha não completa, mas por pontos salientes.

O esquema, o propósito e a estrutura

A estrutura do livro é composta por sete capítulos, nos quais se quer recuperar, em ordem cronológica, todas as “fontes” do pensamento de Bergoglio: Fessard e Guardini, Methol Ferré e De Certeau, De Lubac e von Balthasar. A escavação nas fontes, especialmente argentinas, que muitas vezes é de primeira mão e, portanto, muito preciosa, traz à tona influências e relações importantes, mesmo que, às vezes, trabalhe sobre “fontes de fontes” de modo não totalmente linear.

Assim, embora trabalhando em relação com muitos “teólogos”, o livro de Borghesi não se apresenta como um projeto de leitura teológica, mas como um desenho histórico e filosófico do perfil de J. M. Bergoglio.

Por isso, a abordagem do autor, como veremos, corre o risco de projetar o próprio método sobre o objeto: ou seja, de propor “o pensamento de Bergoglio (que) chega a se constituir como uma sinfonia de opostos. Uma filosofia que se situa no leito do catolicismo, entendido como coincidentia oppositorum” (p. 23).

Em suma, Borghesi tende a tratar o “pensamento de Bergoglio” como uma filosofia e desloca o seu centro para uma abordagem mística e social, que não parece interessada na reforma da Igreja. Esse me parece ser o limite sistemático de uma abordagem historicamente tão fecunda.

É evidente que Borghesi está interessado em “salvar” o catolicismo de Francisco, e Francisco como “católico”. Mas ele pretender fazer isso em uma suposta “equidistância” entre conservadores e progressistas, com uma generalidade que não consegue ser verdadeiramente fiel a Francisco. Ele reconhece com valor que estamos diante do fato de que o “pensamento místico é um pensamento aberto, que não fecha as frestas” (p. 26), mas tende a esquecer e a remover o fato de que essa “mística” deve nutrir não só o pensamento, mas também a estrutura eclesial, as formas do matrimônio, a formação dos presbíteros, a vocação dos batizados, a relação com o mundo. Sobre isso, Borghesi muitas vezes se torna vago e genérico. Vejamos por quê.

Os limites sistemáticos de uma investigação histórico-filosófica

Agora, posso identificar mais claramente a tensão entre “reconstrução histórica de um pensamento” e apresentação sistemática do próprio pensamento.

Aqui, na minha opinião, emergem os três limites que condicionam o livro mais fortemente e que agora quero apresentar de modo sintético:

a) A abordagem filosófico-antropológica, que é totalmente oportuna e realmente fecunda, também parece ser inevitavelmente unilateral: não considerando a espessura teológica, eclesiológica, institucional das questões, Borghesi perde em profundidade e tende a uma generalidade de julgamento, que impede uma compreensão real das questões em jogo.

Considere-se, por exemplo, a intenção expressada no início do volume com estas palavras: o autor quer “superar o lugar-comum da oposição de Francisco a Bento XVI, promovido pelos conservadores. Na realidade, estamos diante de uma diversidade de estilos e de ênfases, não de conteúdos” (p. 21).

Para expressar esse julgamento, precisamente dessa forma, Borghesi deve suspender totalmente uma pergunta “sistemática” sobre Francisco e Bento XVI. Se nos limitarmos a uma investigação puramente filosófica e antropológica, talvez até possamos concordar com Borghesi. Mas, se entrarmos na articulação sistemática dos conteúdos teológicos, sem nos limitarmos às fórmulas do catecismo, então deveremos observar necessariamente que as maiores diferenças estão justamente no plano do conteúdo. Não para chegar à “contraposição conservadora”, mas para compreender a “descontinuidade reformadora”, que, em Borghesi, evapora totalmente. A descontinuidade não é “concessão às lógicas antitéticas”, mas sim experiência objetiva a ser elaborada.

b) Alinhado com esse primeiro limite, um segundo, que é uma consequência dele, torna-se igualmente importante: para Francisco, o Concílio Vaticano II foi o horizonte de formação e de compreensão da experiência eclesial, religiosa e ministerial.

No livro de Borghesi, o tema é confiado a algumas reflexões de grande valor propostas por Methol Ferré, que, porém, dizem respeito – como é óbvio, dado o autor – a uma compreensão “teórica” e “filosófica” do Concílio Vaticano II, especialmente em relação ao protestantismo e ao Iluminismo.

As consequências dessa “releitura da Igreja em relação à modernidade”, porém, são deslocadas, de modo filosoficamente interessante, mas teologicamente muito arbitrário, para as dependências de M. Ferré em relação ao filósofo italiano A. Del Noce. E esse movimento leva, nas páginas seguintes, a uma releitura do Vaticano II em termos de “ressurgimento católico”, que inevitavelmente conduz, não sem forçações bastante relevantes, a uma exaltação do Papa Ratzinger, pela qual, ainda citando Methol Ferré, “com Ratzinger, pode-se desdobrar uma nova modernidade católica, como desenvolvimento daquela modernidade que teve sua manifestação mais totalizante no Concílio Vaticano II” (p. 191).

c) Por último e quase como síntese desses dois primeiros aspectos – ou seja, da leitura “não teológica” e da consideração “não eclesiológica” do Vaticano II – deriva um terceiro limite, ainda mais grave em certos aspectos.

Refiro-me à dependência que Borghesi demonstra em muitas páginas de uma “apologética ciellina” [referente ao Movimento Comunhão e Libertação] – ou seja, de uma consideração exagerada da influência do Comunhão e Libertação sobre Francisco e sobre a história do pós-Concílio – que alcança ápices de explicitação quase embaraçosos.

Gostaria de me limitar a citar duas passagens, que se encontram no último capítulo, dedicado a “Cristianismo e mundo contemporâneo”. Na primeira parte do capítulo, em que se discute a Amoris laetitia, a leitura redutiva que é proposta do texto, para salvá-lo das acusações dos conservadores, se apoia em uma leitura não teológica, mas institucional e diplomática, oferecida por Rocco Buttiglione (p. 256ss).

Em outra ocasião, ao lado da avaliação positiva do texto de Buttiglione, eu já havia observado que defender Francisco “só porque e como” ele repete João Paulo II, sem sair desse esquema, é uma estratégia minimalista que não permite compreender o “gesto profético” de Francisco, que relê de modo original a relação entre doutrina, moral, direito e pastoral, superando um modelo europeu do século XIX.

Mas esse é apenas um pequeno sinal. No mesmo capítulo, de fato, algumas páginas mais à frente, lemos uma “defesa de Bergoglio” que me parece muito próxima de uma desfiguração. Inicia-se recordando que Bergoglio havia lido livros e escrito prefácios a livros de L. Giussani [fundador do Movimento Comunhão e Libertação]. Tudo bem. Depois, acrescenta-se, já forçando a mão, que, “no seu diálogo com o Pe. Giussani, Bergoglio foca-se em uma série de categorias que retornarão constantemente no seu ensinamento” (p. 278), corroborando uma espécie de paralelismo entre Giussani e von Balthasar (sic!).

Mas a “quadratura do círculo” é construída por Borghesi em duas páginas posteriores, que são reveladoras de um método de pesquisa com um controle sistemático frágil demais, que se torna presa fácil para uma leitura ideológica e distorcida, científica e eclesial não aceitável. Cito todo o trecho, do qual proponho, depois, uma interpretação adequada:

“No arco de tempo que vai do fim dos anos 1990 ao início dos anos 2000, Bergoglioidentifica as categorias que reencontraremos no centro do documento final (…) de Aparecida, em 2007. A ideia de fundo é dada por uma fórmula que Bergoglioencontra exemplarmente descrita na Deus caritas est de Bento XVI: ‘Ao início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo’. É a fórmula relatada na Introdução do documento conclusivo de Aparecida. Tem um sabor decisivamente ‘giussaniano’” (p. 280).

A pretensão de encontrar um “ponto de continuidade fundamental” entre Francisco e Bento em uma frase que derivaria de Luigi Giussani é uma afirmação que demonstra muito claramente tanto as intenções apologéticas da biografia, quanto a fragilidade dos argumentos teológicos e científicos que a sustentam.

Como é possível não reconhecer que aquela frase, naquele contexto, deriva para Bento, e depois para Francisco, de uma longa e complexa tradição, de reflexão teológica e de argumentação sistemática, em relação à qual L. Giussani, quando considerado com objetividade teológica, deve ser reconhecido simplesmente como externo, senão alheio?

Querer, a todo o custo, remeter Francisco a Bento, e ambos a Giussani, é um modo de interpretar gravemente ruim dois papas e de alimentar genealogias totalmente conjecturais, com o único propósito de “acalmar os ânimos”, de “tranquilizar os duvidosos” e de corroborar uma leitura tão continuísta a ponto de entender equivocadamente a “revolução cultural” e a “mudança de paradigma” solicitados por Francisco.

Um Francisco emburguesado e pasteurizado: perfil ou caricatura?

No fim, embora com uma interessante recuperação de dados biográficos e teóricos, que permanecerão como um objetivo ganho para a pesquisa posterior, o leitor não pode deixar de ficar um pouco decepcionado com o esquema sistemático da obra de Borghesi, que tenta corroborar um continuísmo entre papas e uma subordinação do teológico ao antropológico que não coincide com a realidade efetiva do Papa Francisco. É uma “hipótese sobre Francisco” que não resiste a um exame rigoroso por dois motivos:

– É um Francisco “imborghesito” [emburguesado] – permitam-me o trocadilho – não só por ser submetido a uma releitura de Borghesi unilateral demais, mas também por ser depurado de todas as instâncias críticas em nível teológico e eclesiológico. Torna-se totalmente compatível com aquela autorreferencialidade eclesial que o próprio Francisco, ao contrário, quer superar e remover, mediante a reforma da Igreja.

– É um Francisco “pasteurizado”, cujo perfil de pastor, referido apenas a um perfil místico e espiritual, fica privado da instância profética, institucional, reformadora, crítica. Com um Francisco tão pasteurizado, não se faz queijo algum! Pode-se apenas beber um leite certamente saboroso, mas com a certeza de “não adoecer”, permanecendo católicos e ministros exatamente como antes!

No fim, o perfil intelectual elaborado no texto, mesmo com toda a sua riqueza de dados, corre o risco de se parecer, pelo menos parcialmente, com uma caricatura. Não gostaria que, para salvaguardar a ordem pública eclesial e renunciando à profecia, fôssemos forçados a pensar não em pessoas reais, mas em versões de conveniência ou em reduções ao passado.

Guardini sabia muito bem que o relato dos dados do passado é condição para sínteses sistemáticas saudáveis; mas ele também sabia que uma visão sistemática adequada é, por sua vez, condição para “ver os dados” na sua plenitude e complexidade.

A impressão é que Massimo Borghesi, no seu louvável compromisso de reconstrução histórica e filosófica, mas condicionado por uma sistemática teológica unilateral demais e frágil demais, encontrou apenas aqueles dados que eram funcionais para a sua teoria. E isso comprometeu, infelizmente, a construção do perfil do homem, do padre, do jesuíta, do arcebispo e do papa Jorge Mario Bergoglio. Cuja profecia e cuja originalidade, infelizmente, parecem permanecer, em grande parte, fora dessa biografia.

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