congoles_assassinato

Juízo terrível pelo assassinato de Moïse Kabagambe

Com o coração nas mãos – como se isso fosse possível – li a carta abaixo do Pastor Roger Puati sobre o assassinato do jovem congolês Moïse Kabagambe.

Roger Puati é homem de ciências, tanto físicas, matemáticas, sociais quanto poeta e teólogo. É pastor sério de uma igreja protestante reformada do Congo e na Suiça.

Diria que o mérito dele neste texto, como especialista em escravatura, é a rebeldia contra a condição a que o ocidente submeteu os povos africanos, rebaixando-os a condição cruel e irracional da submissão e anulação de suas raízes étnicas e profundamente culturais.

Nesta frase lê-se a justificação da revolta do Pastor Roger contra a escravatura, que perdura até hoje nos disfarces coloridos do capitalismo. “O Sangue de Moïse Kabagambe misturou-se com o de seus ancestrais deportados para suas terras durante quatro séculos. O Sangue de Moïse geme e grita por Justiça pelo passado e pelo presente!”, escreveu o pastor.

Antes, o autor da carta ao mundo, denunciando nosso  racismo brasileiro, escreveu o Pastor que “como tantas outras pessoas, vi as imagens do selvagem assassinato do jovem compatriota Congolês Moïse Kabagambe, 24 anos, também refugiado político no Brasil. A falta de Moïse, que poderia ser meu filho, foi a de exercer seu Direito de reclamar seu salário pelo trabalho rendido”, indigna-se o Pastor intelectual.

É inegável o racismo no Brasil, como o é nos Estados Unidos e em outras terras, quando policiais pisam nos pescoços de negros e atiram nas pessoas pretas por suspeitas somente por causa de suas peles lindas e negras. As estatísticas daqui demonstram vergonhosamente o elevado número de jovens negros mortos nas periferias das grandes cidades.

No caso de Moïse percebe-se que alguns espancadores que o levaram a óbito também são negros. E são trabalhadores.

Ao somar-me à indignação do Pastor e intelectual Roger Puati convido-o a desconstruir um equívoco grave que o leva a nos colocar a tod@s – brasileiros e brasileiras – na mesma panela do juízo fervente da generalização, bem expresso neste parágrafo: “Este crime hediondo contra um jovem Refugiado Congolês, para mim e meus compatriotas, faz ressoar um eco muito particular: a História da condição de Ser Negro no país do samba e do futebol. Como um tal assassinato pode ser cometido no Brasil, país adotado por muitos africanos e afros-descendentes e em particular pelos Congoleses, cuja música, espiritualidade e tradições influenciaram o substrato cultural do Brasil? Jamais um Congolês poderia imaginar tal racismo anti-negros no país de Gilberto Gil, de Abdias do Nascimento, de Edson Arantes do Nascimento, chamado Pelé!.

E, portanto, o Brasil esconde uma face hedionda que vem a ser revelada para o mundo todo: a continuidade do racismo não dissimulado contra meus irmãos Negros”, escreveu o pastor Roger.

Seria mais justo afirmar que no Brasil e, além dele, se esconde “uma face hedionda”, que dificilmente se revela, mas que é cruel com os negros, com as negras, com os pobres, com os indígenas, com as mulheres, com os homens independentes da cor de suas peles pelo fato de serem trabalhadores e trabalhadoras ou, como agora, desempregados e desempregadas, num beco sem saída senão a subvida e a indignidade da fome.

Talvez o inquieto protestante não saiba que no Brasil, principalmente após e por causa do golpe de Estado, o mesmo que o lerdo e vacilante STF levou 6 anos para reconhecer, negros e brancos somos empurrados não apenas para as ruas das amarguras dos assaltos, do tráfego de drogas, das chuvas, das enchentes, dos preconceitos, mas para a contaminação e à morte pela covid 19. Na miséria não há discriminação nem distinção por causa das cores das peles.

Somos arrastados como brancos e negros por política econômica promovida pelos mesmos que matam no Congo do Pastor Roger. Aqui no Brasil o governo federal é um dos grandes agentes a nos  atacar com roubos e corrupções,  semelhantes aos que nos governos congalês fazem com a pátria negra do nosso Pastor. O que nos roubam e desviam para as contas da casta dominante nacional e para a superdominante internacional move a máquina de matar, principalmente pobres negros, como no caso de Moïse,

Portanto, mais do que racismo, a causa da escravidão começou como modelo ideológico. Primeiro, com a colonização com o objetivo de saquear nossas riquezas. A mão de obra que usaram foi a escrava. Os métodos para essa tirania foram os mais cruéis com a retirada dos jovens africanos de suas culturas, socados aqui da mesma maneira ou pior do que fizeram com o gado, esvaziando-os de suas línguas maternas, suas raízes culturais, tribais  e cúlticas, Expostos a todas as crueldades como  força de trabalho usada por retalhos dominantes em forma do clero, que escravizou africanos, os proprietários de terras, que domesticaram violentamente africanos e indígenas, depois a iniciante indústria de açúcar e seus subprodutos, além de mão de obra nas edificações e engenharias civis como na arte, como se vê nas cidades mais antigas do Brasil.

Em todos os setores os africanos escravizados e cruelmente mal tratados deixaram suas marcas. Portanto, tudo ocorreu em decorrência de interesses econômicos, inicialmente europeus e depois com proprietários brasileiros.

O modelo escravagista deu lugar ao capitalismo, que incorporou técnicas de dominação da experiência do modelo anterior e incorporou  novas, graças às adaptações aos conflitos de classes, com o proletariado se configurando aqui.

A classe trabalhadora, desde o início, sempre se compôs de brancos e negros. Ambos igualmente explorados.

Atualmente o racismo é expressão agressiva do próprio neoliberalismo, que se associou ao fascismo, dando coloração de “pureza racial” no embranquecimento do conflito de classes. Mas quanto à exclusão dos trabalhadores, retirando-lhes todos os direitos, inclusive o de lutar na defesa de seu trabalho, é abrangente a brancos e a negros.

Neste sentido não é aceitável falarmos num Brasil racista e desrespeitoso para com as contribuições milenares afrodescendentes.

Quem pensa assim e mais defende o identitarismo é a burguesia,  com o objetivo de desviar a energia da luta e de dividir o povo brasileiro em várias frentes e demandas por direitos.

Então, ao contrário do que escreveu o pastor Roger Puati, quando se referiu que “,,,o Brasil esconde uma face hedionda que vem a ser revelada para o mundo todo: a continuidade do racismo não dissimulado contra meus irmãos Negros”, na verdade, trata-se da face hedionda que se oculta com a mesma força bruta que fez negros serem capitães do mato para chicotar, amarrar aos troncos e até a matar milhares de irmãos afrodescendentes escravizados é a classe dominante, que desenvolveu os tumores malignos sociais em forma de racismo, machismo, homofobia, discriminações, exclusões, marginalizações e violência inomináveis.

Se racismo houver no Brasil o é por origem nos donos dos meios de produção, entre os quais os negros foram as primeiras peças. O mal de quem discrimina por causa da cor de pele tem que ser descontruído pelo desmonte do próprio capitalismo, inclusive desde já com a luta em forma de mobilização pelos direitos na defesa de quem for agredido e na denúncia dos agressores, sempre apontando para a saída essencial, a libertação dos grilhões capitalistas.

Por outro lado,  o Pastor Roger Puati tem razão no que tange à covardia expressa na passividade diante do crime hediondo praticado contra o irmão congolês e africano Moïse Kabagambe. Como povo brasileiro não temos o direito ao silêncio e à omissão. Por isso merecem apoio os vários grupos que ocuparam as ruas para denunciar essa barbaridade e para pedir justiça.

As palavras de Roger ecoam como instigação que nos faz nos enrubescermos nos motivando a nos levantarmos em protesto contra aquele massacre. “O assassinato de Moïse Kabagambe se inscreve na longa tradição de coisificação dos Negros nas terras brasileiras e na negação de seus Direitos.

Possam vocês Brasileiras e Brasileiros, num sobressalto de consciência, render Justiça á Moïse Kabagambe e mostrar ao mundo que a África, que também constitui vossa identidade e vosso processo civilizatório, merece dignidade e respeito. Que a Justiça prevaleça!”, ecoa o Pastor Puati.

É certo que os membros da poderosa classe dominante, descendente da escravatura que arrastou milhões de negros e de negras para suas produções escravocratas não se pronunciarão, ainda que suas mídias poderosas “noticiem” o massacre sofrido por nosso jovem irmão, mas o fazem na perspectiva burguesa do identitarismo e do discurso vago sobre racismo estrutural.

Tão certo quanto a covardia da casta burguesa dominante é a do governo federal, no momento exercido pelo fascismo, essencialmente inimigo da classe trabalhadora e revestido de todos os males cancerígenos sociais, inclusive o do racismo, não se manifestou oficialmente nem o fará.

A casta capitalista e seu governo golpista são a face oculta do racismo, do desemprego, do machismo, da legebtqia+fobia e tudo o mais, sempre ativos em coisas como a que matou Moïse Kabagambe e não o povo brasileiro, constituído de mais 99% de trabalhadores, entre eles milhões de negras e de negros.

Leia abaixo a íntegra da carta ao mundo pelo Pator Roger Puati.

Abraços proféticos e revolucionários,

Dom Orvandil.

*****************************************

Senhoras e Senhores,

Cidadãs e Cidadãos do Mundo,

Amigas e Amigos da Paz e da Justiça,

Meu nome é Roger Puati, exilado político Congolês e Pastor da Igreja Protestante Reformada, Suíça – EERV – vivendo desde há 35 anos na Suíça.

Como tantas outras pessoas, vi as imagens do selvagem assassinato do jovem compatriota Congolês Moïse Kabagambe, 24 anos, também refugiado político no Brasil. A falta de Moïse, que poderia ser meu filho, foi a de exercer seu Direito de reclamar seu salário pelo trabalho rendido.

Este crime hediondo contra um jovem Refugiado Congolês, para mim e meus compatriotas, faz ressoar um eco muito particular: a História da condição de Ser Negro no país do samba e do futebol. Como um tal assassinato pode ser cometido no Brasil, país adotado por muitos africanos e afros-descendentes e em particular pelos Congoleses, cuja música, espiritualidade e tradições influenciaram o substrato cultural do Brasil? Jamais um Congolês poderia imaginar tal racismo anti-negros no país de Gilberto Gil, de Abdias do Nascimento, de Edson Arantes do Nascimento, chamado Pelé!

E, portanto, o Brasil esconde uma face hedionda que vem a ser revelada para o mundo todo: a continuidade do racismo não dissimulado contra meus irmãos Negros.

De longe nos chegam notícias de humilhações contra as cidadãs e cidadãos brasileiros de pele Negra. Como acreditar e crer quando a alegria e o bom humor caracterizam o Povo Brasileiro? Portanto, os fatos dilaceram o espírito e o corpo da maioria da Nação.

Ó Brasil, terra da Escravidão!

Ó Brasil, terra do Suor!

Ó Brasil, terra do Chicote!

Ó Brasil, terra do Pelourinho!

Ó Brasil, terra dos gemidos, regada de lágrimas e de sangue!

 Ó Brasil, amnésico!

Não foi você Brasil quem desembarcava nas costas do Reino do Congo?

Não foi você Brasil que capturava Congoleses altivos nas suas terras?

Não foi você Brasil que acorrentava Congoleses livres para reduzi-los a escravidão?

Diga-me Ó Brasil, qual região do seu território não beneficiou do trabalho dos Negros?

Diga-me Ó Brasil, qual terreiro não foi regado com o suor, as lágrimas e o sangue dos Negros da África?

Foi Pernambuco, Bahia de Todos os Santos, Belo Horizonte, Rio de Janeiro? São Paulo?

Ó Brasil, Cristão e Racista!

Você reza e contempla a Cruz de seu Profeta, mãos juntas, as nádegas cerradas.

Quem pode acreditar na sua religião e na sua devoção feita de desprezo para com a Humanidade?

Ó Brasil, você acredita que sua religiosidade pode aliviar a dureza da sua realidade?

Não, Ó Brasil, não! Sua devoção é hipocrisia e não convence mais ninguém.

O Sangue de Moïse Kabagambe misturou-se com o de seus ancestrais deportados para suas terras durante quatro séculos. O Sangue de Moïse geme e grita por Justiça pelo passado e pelo presente!

Ó Brasil, o Cristão e Desvairado !

Quando Inglaterra abolia oficialmente a Escravidão em 1833, a França em 1848, você carimbava singularmente a História, ficando o último país Escravocrata até…1888 e criando uma população de despossuídos!

O Assassinato de Moïse Kabagambe se inscreve na longa tradição de coisificação dos Negros nas terras brasileiras e na negação de seus Direitos.

Possam vocês Brasileiras e Brasileiros, num sobressalto de consciência, render Justiça á Moïse Kabagambe e mostrar ao mundo que a África, que também constitui vossa identidade e vosso processo civilizatório, merece dignidade e respeito. Que a Justiça prevaleça!

Viva a Justiça, o Direito e a Paz !

Viva a Fraternidade Universal !

Lausanne, 3 de fevereiro de 2022

Roger Puati, Pastor

Cidadão Congolês em Suíça

Falante e autor de « Christianisme et Traite des Noirs », ediçoěs Saint-Augustin, 2007

Membro do Conselho Presidencial de Consciência Congolêsa pela Paz-KoPAX

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Um juízo terrível pelo assassinato de Moïse Kabagambe

Com o coração nas mãos – como se isso fosse possível – li a carta abaixo do Pastor Roger Puati sobre o assassinato do jovem congolês Moïse Kabagambe.

Roger Puati é homem de ciências, tanto físicas, matemáticas, sociais quanto poeta e teólogo. É pastor sério de uma igreja protestante reformada do Congo e na Suiça.

Diria que o mérito dele neste texto, como especialista em escravatura, é a rebeldia contra a condição a que o ocidente submeteu os povos africanos, rebaixando-os a condição cruel e irracional da submissão e anulação de suas raízes étnicas e profundamente culturais.

Nesta frase lê-se a justificação da revolta do Pastor Roger contra a escravatura, que perdura até hoje nos disfarces coloridos do capitalismo. “O Sangue de Moïse Kabagambe misturou-se com o de seus ancestrais deportados para suas terras durante quatro séculos. O Sangue de Moïse geme e grita por Justiça pelo passado e pelo presente!”, escreveu o pastor.

Antes, o autor da carta ao mundo, denunciando nosso  racismo brasileiro, escreveu o Pastor que “como tantas outras pessoas, vi as imagens do selvagem assassinato do jovem compatriota Congolês Moïse Kabagambe, 24 anos, também refugiado político no Brasil. A falta de Moïse, que poderia ser meu filho, foi a de exercer seu Direito de reclamar seu salário pelo trabalho rendido”, indigna-se o Pastor intelectual.

É inegável o racismo no Brasil, como o é nos Estados Unidos e em outras terras, quando policiais pisam nos pescoços de negros e atiram nas pessoas pretas por suspeitas somente por causa de suas peles lindas e negras. As estatísticas daqui demonstram vergonhosamente o elevado número de jovens negros mortos nas periferias das grandes cidades.

No caso de Moïse percebe-se que alguns espancadores que o levaram a óbito também são negros. E são trabalhadores.

Ao somar-me à indignação do Pastor e intelectual Roger Puati convido-o a desconstruir um equívoco grave que o leva a nos colocar a tod@s – brasileiros e brasileiras – na mesma panela do juízo fervente da generalização, bem expresso neste parágrafo: “Este crime hediondo contra um jovem Refugiado Congolês, para mim e meus compatriotas, faz ressoar um eco muito particular: a História da condição de Ser Negro no país do samba e do futebol. Como um tal assassinato pode ser cometido no Brasil, país adotado por muitos africanos e afros-descendentes e em particular pelos Congoleses, cuja música, espiritualidade e tradições influenciaram o substrato cultural do Brasil? Jamais um Congolês poderia imaginar tal racismo anti-negros no país de Gilberto Gil, de Abdias do Nascimento, de Edson Arantes do Nascimento, chamado Pelé!.

E, portanto, o Brasil esconde uma face hedionda que vem a ser revelada para o mundo todo: a continuidade do racismo não dissimulado contra meus irmãos Negros”, escreveu o pastor Roger.

Seria mais justo afirmar que no Brasil e, além dele, se esconde “uma face hedionda”, que dificilmente se revela, mas que é cruel com os negros, com as negras, com os pobres, com os indígenas, com as mulheres, com os homens independentes da cor de suas peles pelo fato de serem trabalhadores e trabalhadoras ou, como agora, desempregados e desempregadas, num beco sem saída senão a subvida e a indignidade da fome.

Talvez o inquieto protestante não saiba que no Brasil, principalmente após e por causa do golpe de Estado, o mesmo que o lerdo e vacilante STF levou 6 anos para reconhecer, negros e brancos somos empurrados não apenas para as ruas das amarguras dos assaltos, do tráfego de drogas, das chuvas, das enchentes, dos preconceitos, mas para a contaminação e à morte pela covid 19. Na miséria não há discriminação nem distinção por causa das cores das peles.

Somos arrastados como brancos e negros por política econômica promovida pelos mesmos que matam no Congo do Pastor Roger. Aqui no Brasil o governo federal é um dos grandes agentes a nos  atacar com roubos e corrupções,  semelhantes aos que nos governos congalês fazem com a pátria negra do nosso Pastor. O que nos roubam e desviam para as contas da casta dominante nacional e para a superdominante internacional move a máquina de matar, principalmente pobres negros, como no caso de Moïse,

Portanto, mais do que racismo, a causa da escravidão começou como modelo ideológico. Primeiro, com a colonização com o objetivo de saquear nossas riquezas. A mão de obra que usaram foi a escrava. Os métodos para essa tirania foram os mais cruéis com a retirada dos jovens africanos de suas culturas, socados aqui da mesma maneira ou pior do que fizeram com o gado, esvaziando-os de suas línguas maternas, suas raízes culturais, tribais  e cúlticas, Expostos a todas as crueldades como  força de trabalho usada por retalhos dominantes em forma do clero, que escravizou africanos, os proprietários de terras, que domesticaram violentamente africanos e indígenas, depois a iniciante indústria de açúcar e seus subprodutos, além de mão de obra nas edificações e engenharias civis como na arte, como se vê nas cidades mais antigas do Brasil.

Em todos os setores os africanos escravizados e cruelmente mal tratados deixaram suas marcas. Portanto, tudo ocorreu em decorrência de interesses econômicos, inicialmente europeus e depois com proprietários brasileiros.

O modelo escravagista deu lugar ao capitalismo, que incorporou técnicas de dominação da experiência do modelo anterior e incorporou  novas, graças às adaptações aos conflitos de classes, com o proletariado se configurando aqui.

A classe trabalhadora, desde o início, sempre se compôs de brancos e negros. Ambos igualmente explorados.

Atualmente o racismo é expressão agressiva do próprio neoliberalismo, que se associou ao fascismo, dando coloração de “pureza racial” no embranquecimento do conflito de classes. Mas quanto à exclusão dos trabalhadores, retirando-lhes todos os direitos, inclusive o de lutar na defesa de seu trabalho, é abrangente a brancos e a negros.

Neste sentido não é aceitável falarmos num Brasil racista e desrespeitoso para com as contribuições milenares afrodescendentes.

Quem pensa assim e mais defende o identitarismo é a burguesia,  com o objetivo de desviar a energia da luta e de dividir o povo brasileiro em várias frentes e demandas por direitos.

Então, ao contrário do que escreveu o pastor Roger Puati, quando se referiu que “,,,o Brasil esconde uma face hedionda que vem a ser revelada para o mundo todo: a continuidade do racismo não dissimulado contra meus irmãos Negros”, na verdade, trata-se da face hedionda que se oculta com a mesma força bruta que fez negros serem capitães do mato para chicotar, amarrar aos troncos e até a matar milhares de irmãos afrodescendentes escravizados é a classe dominante, que desenvolveu os tumores malignos sociais em forma de racismo, machismo, homofobia, discriminações, exclusões, marginalizações e violência inomináveis.

Se racismo houver no Brasil o é por origem nos donos dos meios de produção, entre os quais os negros foram as primeiras peças. O mal de quem discrimina por causa da cor de pele tem que ser descontruído pelo desmonte do próprio capitalismo, inclusive desde já com a luta em forma de mobilização pelos direitos na defesa de quem for agredido e na denúncia dos agressores, sempre apontando para a saída essencial, a libertação dos grilhões capitalistas.

Por outro lado,  o Pastor Roger Puati tem razão no que tange à covardia expressa na passividade diante do crime hediondo praticado contra o irmão congolês e africano Moïse Kabagambe. Como povo brasileiro não temos o direito ao silêncio e à omissão. Por isso merecem apoio os vários grupos que ocuparam as ruas para denunciar essa barbaridade e para pedir justiça.

As palavras de Roger ecoam como instigação que nos faz nos enrubescermos nos motivando a nos levantarmos em protesto contra aquele massacre. “O assassinato de Moïse Kabagambe se inscreve na longa tradição de coisificação dos Negros nas terras brasileiras e na negação de seus Direitos.

Possam vocês Brasileiras e Brasileiros, num sobressalto de consciência, render Justiça á Moïse Kabagambe e mostrar ao mundo que a África, que também constitui vossa identidade e vosso processo civilizatório, merece dignidade e respeito. Que a Justiça prevaleça!”, ecoa o Pastor Puati.

É certo que os membros da poderosa classe dominante, descendente da escravatura que arrastou milhões de negros e de negras para suas produções escravocratas não se pronunciarão, ainda que suas mídias poderosas “noticiem” o massacre sofrido por nosso jovem irmão, mas o fazem na perspectiva burguesa do identitarismo e do discurso vago sobre racismo estrutural.

Tão certo quanto a covardia da casta burguesa dominante é a do governo federal, no momento exercido pelo fascismo, essencialmente inimigo da classe trabalhadora e revestido de todos os males cancerígenos sociais, inclusive o do racismo, não se manifestou oficialmente nem o fará.

A casta capitalista e seu governo golpista são a face oculta do racismo, do desemprego, do machismo, da legebtqia+fobia e tudo o mais, sempre ativos em coisas como a que matou Moïse Kabagambe e não o povo brasileiro, constituído de mais 99% de trabalhadores, entre eles milhões de negras e de negros.

Leia abaixo a íntegra da carta ao mundo pelo Pator Roger Puati.

Abraços proféticos e revolucionários,

Dom Orvandil.

Senhoras e Senhores,

Cidadãs e Cidadãos do Mundo,

Amigas e Amigos da Paz e da Justiça,

Meu nome é Roger Puati, exilado político Congolês e Pastor da Igreja Protestante Reformada, Suíça – EERV – vivendo desde há 35 anos na Suíça.

Como tantas outras pessoas, vi as imagens do selvagem assassinato do jovem compatriota Congolês Moïse Kabagambe, 24 anos, também refugiado político no Brasil. A falta de Moïse, que poderia ser meu filho, foi a de exercer seu Direito de reclamar seu salário pelo trabalho rendido.

Este crime hediondo contra um jovem Refugiado Congolês, para mim e meus compatriotas, faz ressoar um eco muito particular: a História da condição de Ser Negro no país do samba e do futebol. Como um tal assassinato pode ser cometido no Brasil, país adotado por muitos africanos e afros-descendentes e em particular pelos Congoleses, cuja música, espiritualidade e tradições influenciaram o substrato cultural do Brasil? Jamais um Congolês poderia imaginar tal racismo anti-negros no país de Gilberto Gil, de Abdias do Nascimento, de Edson Arantes do Nascimento, chamado Pelé!

E, portanto, o Brasil esconde uma face hedionda que vem a ser revelada para o mundo todo: a continuidade do racismo não dissimulado contra meus irmãos Negros.

De longe nos chegam notícias de humilhações contra as cidadãs e cidadãos brasileiros de pele Negra. Como acreditar e crer quando a alegria e o bom humor caracterizam o Povo Brasileiro? Portanto, os fatos dilaceram o espírito e o corpo da maioria da Nação.

Ó Brasil, terra da Escravidão!

Ó Brasil, terra do Suor!

Ó Brasil, terra do Chicote!

Ó Brasil, terra do Pelourinho!

Ó Brasil, terra dos gemidos, regada de lágrimas e de sangue!

 Ó Brasil, amnésico!

Não foi você Brasil quem desembarcava nas costas do Reino do Congo?

Não foi você Brasil que capturava Congoleses altivos nas suas terras?

Não foi você Brasil que acorrentava Congoleses livres para reduzi-los a escravidão?

Diga-me Ó Brasil, qual região do seu território não beneficiou do trabalho dos Negros?

Diga-me Ó Brasil, qual terreiro não foi regado com o suor, as lágrimas e o sangue dos Negros da África?

Foi Pernambuco, Bahia de Todos os Santos, Belo Horizonte, Rio de Janeiro? São Paulo?

Ó Brasil, Cristão e Racista!

Você reza e contempla a Cruz de seu Profeta, mãos juntas, as nádegas cerradas.

Quem pode acreditar na sua religião e na sua devoção feita de desprezo para com a Humanidade?

Ó Brasil, você acredita que sua religiosidade pode aliviar a dureza da sua realidade?

Não, Ó Brasil, não! Sua devoção é hipocrisia e não convence mais ninguém.

O Sangue de Moïse Kabagambe misturou-se com o de seus ancestrais deportados para suas terras durante quatro séculos. O Sangue de Moïse geme e grita por Justiça pelo passado e pelo presente!

Ó Brasil, o Cristão e Desvairado !

Quando Inglaterra abolia oficialmente a Escravidão em 1833, a França em 1848, você carimbava singularmente a História, ficando o último país Escravocrata até…1888 e criando uma população de despossuídos!

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