Boff, o sábio

Leonardo Boff: “A boa vontade que falta no Brasil de hoje”

Amiga  Profª Fátima Lima, Natal, RN
As civilizações se fortalecem na medida em que seus sábios lapidam como pedreiros de picaretas, pás, marretas, cal e cimento em punhos constroem bases profundas na formação das pessoas.
Numa cruzada de crise e de decepções como a que vivemos no Brasil e no mundo, hoje, carecemos ainda mais das obras de arte dos sábios.
Creio que Leonardo Boff é um desses sábios dedicados a abrir espaços em nossa ignorância para lançar fundamentos para nosso pensar e para nosso agir corretos.
Como teólogo Boff desconfia dos misticismos opressores e superficiais dos que correm por aí de Bíblia nas mãos e com horóscopos supersticiosos a dizer quaisquer coisas que lhes vem à mente, como se fossem verdades absolutas.
No campo religioso somos atacados por pessoas despreparadas a proclamar besteiras eivadas de preconceitos, ranços conservadores e chutes que enganam multidões. Os espertalhões metidos a inspirados por Deus  atacam  de todos os lados: por rádios, tvs e templos espalhados como botequins em todos os bairros e até nas matas.
Nosso Leonardo Boff, no entanto, pesquisa, estuda e mergulha fundo nos teólogos, nas culturas e línguas milenares para entender o que e por onde Deus fala.
Como filósofo, Leonardo Boff não se prende a filosofias de almanaque, mas também, como submarino, vai ao fundo dos clássicos e dos modernos para, a partir do aporte filosófico e humanista, entender o ser humano de hoje e nosso mundo à beira do colapso.
Claro, nosso intelectual, felizmente brasileiro respeitado em todo o mundo, também não passa a vida toda deitado e morando dentro dos livros. Boff é um sábio das ruas, dos campos, dos pobres e injustiçados que clamam por justiça e por libertação dignificante.
No texto que posto abaixo encanta-me o seu conhecimento de Kant ao iscar o conceito “boa vontade” naquele filósofo clássico, uma como joia  preciosa, indispensável nas pessoas, material com que devemos contar para enfrentar as borrascas do ódio, da superficialidade e do descrédito, males que tomam conta das pessoas, ameaçando perigosamente o nosso mundo e a desintegração dos laços sociais que nos fazem ser humanos.
Eu apenas discrepo respeitosamente de sua reverência a Dalai Lama, para mim um inimigo e traidor do povo tibetano porque aliado do imperialismo estadunidense.
Posto abaixo o maravilhoso texto do teólogo, filósofo, escritor e conferencista Leonardo Boff.
  • Abraços críticos e fraternos na luta pela justiça e pela paz sociais.

  • Dom Orvandil, OSF: bispo cabano, farrapo e republicano, presidente da Ibrapaz, bispo da Diocese Anglicana Centro Oeste e professor universitário, trabalhando duro sem explorar ninguém.

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A boa vontade que falta no Brasil de hoje

Na sociedade brasileira atual grassa uma onda de ódio, raiva e dilaceração que raramente tivemos em nossa história. Chegamos a um ponto em que a má vontade generalizada impede qualquer convergência em função de uma saída da avassaladora crise que afeta toda a sociedade.
Immanuel Kant (1724-1804), o mais rigoroso pensador da ética no Ocidente moderno, fez uma afirmação de grandes consequências, em sua Fundamentação para uma metafísica dos costumes(1785): “Não é possível se pensar algo que, em qualquer lugar no mundo e mesmo fora dele, possa ser tido irrestritamente como bom senão a boa vontade (der gute Wille)”. Kant reconhece que qualquer projeto ético possui defeitos. Entretanto, todos os projetos possuem algo comum que é sem defeito: a boa vontade. Traduzindo seu difícil linguajar: a boa vontade é o único bem que é somente bom e ao qual não cabe nenhuma restrição. A boa vontade ou é só boa ou não é boa vontade.
Há aqui uma verdade com graves consequências: se a boa vontade não for a atitude prévia a tudo que pensarmos e fizermos, será impossível criar-se uma base comum que a todos envolva. Se malicio tudo, se tudo coloco sob suspeita e se não confio mais em ninguém, então, será impossível construir algo que congregue a todos. Dito positivamente: só contando com a boa vontade de todos posso construir algo bom para todos. Em momento de crise como o nosso, é a boa vontade o fator principal de união de todos para uma resposta viável que supere a crise.
Estas reflexões valem tanto para o mundo globalizado quanto para o Brasil atual. Se não houver boa vontade da grande maioria da humanidade, não vamos encontrar uma saída para a desesperadora crise social que dilacera as sociedades periféricas, nem uma solução para o alarme ecológico que põe em risco o sistema-Terra. Somente na COP 21 de Paris em dezembro de 2015 se chegou a um consenso mínimo no sentido de conter o aquecimento global. Ainda assim as decisões não eram vinculantes. Dependiam da boa vontade dos governos, o que não ocorreu, por exemplo, com o parlamento norte-americano que somente apoiou algumas medidas do Presidente Obama.
No Brasil, se não contarmos com a boa vontade da classe política, em grande parte corrompida e corruptora, nem com a boa vontade dos órgãos jurídicos e policiais jamais superaremos a corrupção que se encontra na estrutura mesma de nossa fraca democracia. Se essa boa vontade não estiver também nos movimentos sociais e na grande maioria dos cidadãos que com razão resistem às mudanças anti-populares, não haverá nada, nem governo, nem alguma liderança carismática, que seja capaz de apontar para alternativas esperançadoras.
A boa vontade é a última tábua de salvação que nos resta. A situação mundial é uma calamidade. Vivemos em permanente estado de guerra civil mundial. Não há ninguém, nem as duas Santidades, o Papa Francisco e o Dalai Lama, nem as elites intelectuais mundiais, nem a tecno-ciência que forneçam uma chave de encaminhamento global. Abstraindo os esotéricos que esperam soluções extra-terrestres, na verdade, dependemos unicamente da boa vontade de nós mesmos.
O Brasil reproduz, em miniatura, a dramaticidade mundial. A chaga social produzida em quinhentos anos de descaso com a coisa do povo significa uma sangria desatada. Nossas elites nunca pensaram uma solução para o Brasil como um todo mas somente para si. Estão mais empenhadas em defender seus privilégios que garantir direitos para todos. Está aqui a razão do golpe parlamentar que foi sustentado pelas elites opulentas que querem continuar com seu nível absurdo de acumulação, especialmente, o sistema financeiro e os bancos cujos lucros são inacreditáveis.
Por isso, os que tiraram a Presidenta Dilma do poder por tramoias político-jurídicas, ousaram modificar a constituição em questões fundamentais para a grande maioria do povo, como a legislação trabalhista e a previdência social, que visam, em último termo, desmontar os benefícios socias de milhões, integrados na sociedade pelos dois governos anteriores e permitir um repasse fabuloso de riqueza às oligarquias endinheiradas, absolutamente descoladas do sofrimento do povo e com seu egoísmo pecaminoso.
Contrariamente ao povo brasileiro que historicamente mostrou imensa boa vontade, estas oligarquias se negam saldar a hipoteca de boa vontade que devem ao país.
Se a boa vontade é assim tão decisiva, então urge suscitá-la em todos. Em momento de risco, no caso do barco-Brasil afundando, todos, até os corruptores se sentem obrigados a ajudar com o que lhes resta de boa vontade. Já não contam as diferenças partidárias, mas o destino comum da nação que não pode cair na categoria de um país falido.
Em todos vigora um capital inestimável de boa vontade que pertence à nossa natureza de seres sociais. Se cada um, de fato, quisesse que o Brasil desse certo, com a boa vontade de todos, ele seguramente daria certo.
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