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Letramento Crítico Autoreflexivo: Uma Perspectiva Humanística Para As Aulas De Leitura

Gilmara Machado*

Principalmente com o advento da internet, a liberdade de expressão se expandiu rapidamente e, de certa forma, com um tom de preocupação. De forma positiva, aqueles, que antes não tinham voz, ou tinham suas vozes veladas, conseguiram alcançar alguns direitos que antes eram negligenciados ou inexistentes; como também ter uma participação cidadã mais ativa e reivindicatória. Mas, por outro lado, a dimensão ética parece ter-se sucumbido.

Ao observar os discursos que circulam em ambientes heterogêneos como os espaços educacionais e o ciberespaço; é fácil notar que o errado, o ignorante sempre é o outro. Fato esse percebido nos discursos de ódio (racistas, homofóbicos, xenofóbicos, sexistas), os quais presencio diariamente em minha prática pedagógica. Nesse aspecto, a pergunta proferida no seguinte versículo bíblico, “Por que olhas a palha que está no olho do teu irmão e não vês a trave que está no teu?” (Mateus 7;3), nunca foi tão pertinente, visto que o cego sempre é o outro, o problema sempre está no outro.

Uma possível resposta para essa indagação seria a seguinte afirmação de Canclini (2015)[1] “as tradições ainda não se foram e a modernização não terminou de chegar”. Com isso, pode-se dizer que o mundo se dividiu em diferentes planos sobrepostos, os quais estão em constantes conflitos, tensões, negações e rupturas, independentemente de sua dimensão local, geral ou global. Entretanto, a relativização da verdade e o ceticismo também têm contribuído para que a sociedade se torne frágil e refém de quem possui uma “verdade”. Os valores que antes norteavam a sociedade bem ou mal, agora foram suprimidos por ideias pós coloniais, as quais ainda estão em processo de construção, resultando assim em um momento de transição e afetando diretamente a identidade do povo, o qual está em constante procura de um autoconhecimento, uma autoaceitação ou mesmo de uma autoafirmação.

Desse modo, nesse cenário, em que a verdade é relativizada, visto que a verdade para um não é a verdade para o outro; nunca se fez tão necessário o desenvolvimento de um pensamento crítico, sobretudo em contexto educacional. Logo, pensar em formas de Letramento Crítico[2] é pensar no seguinte tripé[3]: texto, autor e leitor. Ou seja, é ultrapassar os limites dos textos (orais e escritos) no que tange tanto a decodificação dos elementos linguísticos internos (composição textual) quanto dos externos (ideologias), os quais não estão desassociados às condições de produção do autor, e às condições de recepção do leitor. 

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A partir desse viés, é perceptível que os estudos sobre Letramento Crítico ainda não se esgotaram, sobretudo no que tange à receptividade do leitor, já que um texto deve ser compreendido a partir de uma autorreflexão da formação histórica e ideológica do próprio leitor. Essa autorreflexão explica, por exemplo, as diferentes leituras que são realizadas de um mesmo texto, mesmo sendo os leitores pertencentes de uma mesma localidade ou grupo. Assim a produção de sentidos que depreenderá do texto está primeiramente associada à formação humana desse sujeito, dentro da história. Por isso que, esse ou irá aceitar ou desprezar certas ideias.

Neste sentido, surge aqui o ponto de preocupação dessa reflexão: as práticas de Letramento Crítico realizadas em contexto educacional têm contribuído para a humanização ou ainda mais de polarização? Ou ainda de relativização e de ceticismo?

Consoante a essa problematização apresentada aqui, a preocupação de formar cidadãos críticos, mas sobretudo éticos em meio a essa heterogeneidade social, cultural, política e ideológica foi tema de uma palestra e posteriormente de um artigo de Menezes de Souza (2011), sob o título “ O professor de inglês e os letramentos no século XXI: métodos ou ética? ”. Neles, o pesquisador mostra a sua preocupação com o ensino e aprendizagem de línguas no mundo do século XXI.  Mundo esse que, segundo o autor, apresenta-se não mais de uma forma linear, mas de uma forma “Rizomática[4]” – cheio de complexidade, de pluralidade, de conflito e sem forma específica – exigindo do professor uma postura diferente na sua prática pedagógica, uma vez que, ainda sob o discurso desse pesquisador (p.280): “Nós estamos lidando com novas formas de fazer sentido, novas formas de vida nesse mundo globalizado e complexo”.

Assim, para se alcançar uma dimensão ética é preciso pensar.

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Numa perspectiva de letramento crítico, que valoriza a diferença de história, de lugar de cada intérprete social, teria como serviço ao educando apresentar e falar nessas normas como pontos de chegada, e envolver o participante no processo conflitante e doloroso do confronto entre interpretações e valores diferentes. (…) O educando deve perceber as consequências que suas interpretações e valores podem ter sobre o outro, que eles e os outros possuem interpretações e valores diferentes: essa é a dimensão ética. (MENEZES E SOUZA, 2011, p.298)

Portanto, pensar em um letramento crítico e por vez humanizado; é desconstruir a ideia de que em um texto há apenas uma verdade ou ainda de que a verdade do autor é única e incontestável, ou seja, mostrar que todo discurso (oral e escrito) poderá produzir vários sentidos, pois não existe uma visão unívoca e que tanto o autor, o texto e o leitor são multifacetados.


[1] CANCLINI, Néstor García. Culturas híbridas: estratégias para entrar e sair da modernidade (trad. Ana Regina Lessa e Heloísa Pezza Cintrão). São Paulo: Edusp, 2015.

[2]Brevemente definido por Motta (2008, p. 36): “O letramento crítico busca engajar o aluno em uma atividade crítica através da linguagem, utilizando como estratégia o questionamento das relações de poder, das representações presentes nos discursos e das implicações que isto pode trazer para o indivíduo em sua vida e comunidade”.

[3]Por condição de produção e condições de recepção, será adotado aqui um mesmo sentido, o qual foi buscado na Análise do Discurso, apresentado por Brandão (2012, p.6): “ (…) como conjunto dos elementos que cerca a produção de um discurso: o contexto histórico-social, os interlocutores, o lugar de ondem falam, a imagem que fazem de si, do outro e do assunto de que estão tratando”.

[4] Alusão que o autor faz à palavra Rizoma, o qual “nada mais é que um tipo de vegetal que não tem forma específica”. Vocábulo este então criando pelos franceses Deusele e Guaratti para representar de forma metafórica a complexidade de ideias e valores que o mundo está submerso.

*Gilmara Machado, graduada em letras, especialista em linguística aplicada, mestranda do programa de pós graduação em educação, linguagens e tecnologias da universidade estadual de goiás, professora, esposa, mãe do João Pedro, Luiz Felipe e do Judá. Atualmente é professora efetiva da rede estadual de ensino de Goiás.

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