criacioninismo_aberração

Mais sobre minha posição em relação ao tal “criacionismo”, uma aberração teológica dos fundamentalistas

Daniel da Costa*

Continuo defendendo que tratar o tal  “criacionismo” como teoria é um equívoco por parte de quem defende a ciência. Pois está fazendo o jogo do fundamentalismo bíblico que quer chamar sua idiotice pseudo teológica, não autorizada pelos próprios textos bíblicos, de “teoria”; ou colocar sua bobagem criacionista no mesmo nível de um teoria científica.

Não se trata aqui de “superior ou inferior”, mas de entender níveis e categorias diferentes de discurso, de narrativas.

Simplesmente a Bíblia não propõe nenhuma “teoria criacionista”. Dizer o contrário é ridículo. Coisa de pessoas sem formação cultural básica e nem teológico-bíblica. (Defendo que todos os textos sagrados: Bíblia, Antigo e Novo Testamento, Alcorão, os livros sagrados tibetanos, budistas, indianos, literatura dos mitos fundantes da cultura africana etc., deveriam ser estudados, com base em critérios da ciência hermenêutica,  como literatura importante para a formação cultural de qualquer cidadão ou cidadã. Pois, contra as trevas do fundamentalismo, somente as luzes do conhecimento.)

Assim a afirmação básica, subversiva mesmo, de Gênesis, contestava a compreensão geral dominante da época que era assumida como explicação racional justificativa das coisas tais como eram. Esta explicação aceita constava e era assumida em todos os outros mitos das origens do crescente fértil, ao redor de onde o povo de Israel se constituiu. Ou seja, essa narrativa dominante era de que a organização do cosmo, por ser racional, era, portanto, justa em si. Ora, isso justificava, como também “natural”, o status de senhor do mundo (dono de todas as coisas existentes: terras, animais, plantas e seres humanos) reinvidicado pelo  Faraó do Egito, e, daí, o seu sistema escravocrata.

A afirmação de Gênesis é uma afirmação de fé e se apresenta em franca oposição às pretensões totalitárias de Faraó. Gênesis simplesmente convida ao que se dispõe a crer que o mundo é uma “criação” distinta do seu criador. E, assim, este Criador não avaliza intermediário algum terreno “especial” para sua administração. Ou seja, uma afronta clara às reinvindicações de faraó e, desde então, a todo e qualquer déspota, tirano ou ditador da nossa história que tenha vontade  ou  passe  a  se considerar  com prerrogativas  especiais para ser proprietário de tudo à exclusão dos demais.

Mas a afirmação de Gênesis vai além disso, em seu caráter subversivo. Ela diz, contra o escravocrata faraó: “Faraó colocou uma imagem sua em cada um dos limites do seu império, demonstrando até onde vai seus domínios. Pois bem, Eu, o deus Criador do ser humano, coloco minha imagem e semelhança em todos os seres humanos sem exceção ou distinção e os convido, a todos, indistintamente, a tomarem comigo o cuidado de minha criação. Exatamente como um jardineiro faz com um jardim: ele cuida, não destrói … Exatamente como Adam (que quer dizer: Humanidade) era jardineiro no Éden …” É isso o que diz Gênesis.

Gênesis não explica processos, não é uma teoria. Propõe um dado de fé com implicações éticas e de geração de sentido profundo com conteúdo heurístico.

Novamente, Gênesis propõe  um princípio de fé, como vemos, com consequências éticas suficientes para explodir os quadros da hipocrisia burguesa liberal capitalista das sociedades ocidentais. Estas que propõem hoje seu esquema falso de vida e de felicidade que nos levarão para o abismo: o catastrófico esquema de produção-consumo tresloucado, fora das necessidades reais da vida humana, que se mantém hoje em plena destruição do meio ambiente e da vida biológica tal como a conhecemos.

Essa sociedade liberal burguesa, justamente, para manter seu esquema de morte lenta  e eficaz, toma apoio com os fundamentalismos bíblicos que propõem essa aberração, não bíblica, chamada “criacionismo”. E ainda pior: como se fosse uma teoria rival da ciência explicativa.

A função da ciência é “explicar processos” naturais … E a Bíblia não se propõe explicar nada. Mais uma vez, ela apresenta-nos um dado de fé, com consequências éticas profundas para a construção de uma outra comunidade de sentido fora da mentira liberal burguesa capitalista.

Contra a noção de “natureza”, pregada pela ideologia liberal, como reino da selvageria, em que as sociedades humanas (e toda produção cultural) o liberal quer que seja entendida como um mero apêndice, sem descontinuidade, desta “natureza perversa liberal”, cuja ferocidade e crueldade devem então ser controladas por meio das ditas “leis e doutrinas” liberais capitalistas e suas instituições criadas à imagem e semelhança do indivíduo isolado liberal (individualista e sempre em guerra com os demais por poder e dinheiro), frente também a esse engodo liberal histórico, o texto de Gênesis é claro:

IAHVE ELOHIM, O DEUS CRIADOR, É DISTINTO DA NATUREZA CRIADA E, PORTANTO, IMPÕE UMA DESCONTINUIDADE ENTRE CRIADOR E CRIATURA. PORTANTO, O MAL QUE POSSA VIR DO TIPO DE SOCIEDADE (CULTURA) CRIADA PELOS SERES HUMANOS É DE INTEIRA RESPONSABILIDADE DOS PRÓPRIOS SERES HUMANOS QUE A CRIARAM. POIS IAHVE ELOHIM NÃO É SEU AVALISTA E NEM UMA MERA CONTINUIDADE OU CONSEQUÊNCIA LÓGICA DESSE TIPO DE SOCIEDADE PARA QUE SIRVA COMO BASE DE JUSTIFICAÇÃO DE QUALQUER VONTADE DE CONTROLE  DOUTRINÁRIA.

Nessa conexão, para os que odeiam a política,  tenho um recadinho. A invenção da democracia  pelos gregos  no ano 600 a.C, aprofundada pelos cristãos primitivos no ano 100 em seu caminho de democracia inclusiva e participativa, é um bom caminho para se buscar a solução dos nossos problemas sociais complexos de hoje.

Assim, aos defensores da ciência, digo: parem de assumir a narrativa fundamentalista tão querida pela ideologia liberal. Parem de fazer o jogo do maniqueísmo liberal. A Bíblia não propõe nenhuma teoria criaocinista, e, assumir esse tal conceito espúrio e falso chamado  “criacionismo”, como proposta teórica da Bíblia, é uma idiotice …. Além de fazer o jogo liberal com cartas marcadas. (Isso é o que dá a demonização dos estudos teológicos sérios nas igrejas, e a falta da sociedade civil, por meio dos órgãos de imprensa, ouvirem o que a teologia séria e a sabedoria milenar (cristã, judaica, islâmica, budista, africana, indígena etc.) têm a dizer sobre todos os assuntos que interessam a todos: economia, violência, política pública etc.) 

A Bíblia propõe um dado de fé com consequências éticas e sentido de comunidade de destino  profundos. Mas isso, para quem crê.

Nenhum dos polos do maniqueísmo liberal, o dos ditos “racionalistas científicos” VERSUS “fundamentalistas religiosos”, ou seja, em nenhum destes polos há realmente ciência ou fé. Nenhum destes dois querem realmente fazer ciência séria ou teologia séria.  São apenas duas faces de uma mesma moeda ideológica que serve à manutenção da hipocrisia liberal. Enquanto a minoria da rapina sequestra, surrupia o orçamento público, criando mais injustiça, mais violência e mais destruição.

Quem tem ouvidos, ouça!

*Bacharel, licenciado, mestre e doutor em filosofia pela USP; bacharel em teologia pela Faculdade Teológica Batista de SP; pedagogo licenciado pela FALC; autor de artigos de filosofia em veículos especializados e livros coletânea; autor do livro *O cristianismo ateu de Pierre Thevenaz* (no prelo); tradutor de mais de trinta livros nas áreas de filosofia, ciências da religião, ciências humanas e teologia; músico profissional (guitarrista) e jornalista. Colunista do Cartas Proféticas.

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Um comentário

  1. […] Observação: depois de ler este artigo clique no título em azul para ler a segunda parte do debate necessário promovido competentemente pelo Teólogo Protestante e Filósofo Daniel da Costa (veja mini currículo abaixo) no desmascaramento do fundamentalismo no seu afã fascista de destruir a verdade científica: “Mais sobre minha posição em relação ao tal “criacionismo”, uma aberração teológica dos… […]

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