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Minha 1° análise sobre evolução e criacionismo

Observação: depois de ler este artigo clique no título em azul para ler a segunda parte do debate necessário promovido competentemente pelo Teólogo Protestante e Filósofo Daniel da Costa (veja mini currículo abaixo) no desmascaramento do fundamentalismo no seu afã fascista de destruir a verdade científica: “Mais sobre minha posição em relação ao tal “criacionismo”, uma aberração teológica dos fundamentalistas”

Daniel da Costa*

A ideia de criação é uma teoria? Não. É uma crença que pode ser verbalizada de maneira inteligente, respeitando-se sua fonte primária, e com base nos avanços dos métodos de interpretação da ciência hermenêutica atual; qual seja: a narrativa mítica bíblica (aceita pela tradição judaico, cristã e islâmica) e que consta no livro de Gênesis em duas versões. Uma no capítulo 1, mais antiga, antropomórfica, chamada pelo velho “método crítico” de javista, e outra mais recente, no capítulo 2, chamada sacerdotal.

Ambas as narrativas, diferentes nos detalhes e no contexto (que não serão examinados aqui), não obstante, afirmam, in fine, que o “universo”, da forma como existe, não é somente fruto de uma inteligência divina organizadora (como a maioria dos outros mitos propunham), mas que se tratava de um poder criador ex nihilo, ou seja, de criar a partir do nada. E não somente isso, que também esta obra concluída é, profundamente, em sua “essência mais íntima” de criatura, à imagem e semelhança da essência do próprio Criador que a criou. Ou seja: MUITO BOA!

Assim, quando um teólogo, ou líder religioso, ou crente, ou fiel de qualquer espiritualidade tenta “explicar” processos naturais através puramente de intuições religiosas metafísicas advindas dos mitos, ele está tentando fazer indevidamente “ciência”, e não espiritualidade. (O conceito de “mito” não tem, aqui, nada da carga pejorativa que os teólogos liberais do século XIX lhe emprestaram como “mentira”; pois a palavra grega “mito” quer dizer, para nós, apenas “narrativa”.)

Pois faltará ao teólogo sempre a “base empírica primária” de verificação que é sobre o que se constroem as teorias, segundo os métodos científicos modernos. E sem vice-versa! Já que uma narrativa mítica para se justificar, necessariamente, parte de intuição metafísica (religiosa), e não de base empírica. E só depois tenta compor uma narrativa abrangente “explicativa” que forneça à comunidade destino do mito o sentido para sua vida. Guardemos isso.

É preciso entender, então, os níveis de discurso e de aproximação aos fenômenos que cada um dos ramos da experiência humana, tratados aqui, têm especifica e distintamente: o científico e o mítico.

Assim, a compreensão dos níveis do discurso e seus objetos específicos nos ajuda a esclarecer que há um problema insuperável no domínio das narrativas mítica e científica; em outras palavras: entre os métodos das ciências (assim no plural, pois ninguém hoje em sã consciência defende a tal unidade do método científico cartesiano) e as várias narrativas míticas sobre as origens: entre ambos os discursos há um incontornável desnível. Há sempre uma incomensurabilidade, tanto no nível de aproximação ao objeto quanto no nível de explicação a que estes discursos se proponham a fazer sobre o sentido da existência ou da vida. Assim, como há um desnível na avaliação (uma irredutibilidade metodológica) ou de juízo de valor (de verdade) que uma destas narrativas possa fazer à outra no que se refere ao aspecto importante de validação que cada narrativa tem para cada pessoa que a recebe como “verdade para si”. O discurso científico não tem propriedade para falar do mito em termos de verdade ou falsidade; e nem o discurso mítico, pautado simplesmente na autoridade do narrado, precisa avaliar o discurso cientifico em termos de valores ou de refutação. (Veremos mais baixo que quem quer isso é a ideologia liberal e sua dicotomia estratégica.)   

Todavia, para nós, personalistas, se pode haver de modo irresistível, por parte dos discursos das ciências racionais, uma queda na mitologia, pode haver tentativas explicativas (com pretensões científicas) a partir de narrativas mitológicas. Essa tentação sempre teremos conosco! (Por exemplo, a partir de certa convenção lógica sobre a estrutura do cosmos, os chineses, indianos, povos da floresta etc. cuidam dos seus enfermos com resultado pragmático efetivo de cura e bem-estar, sem que suas práticas e pressupostos possam ser aferidos exaustivamente pelos instrumentos e critérios de aferição das ciências do Ocidente.) E quem, em sã consciência, pode dizer que os indianos, chineses, e os povos das florestas têm mantido uma medicina ou terapêutica erradas? Ou estão errados em seus “métodos”?

A evolução é uma teoria? Sim e não. Sim, porque cumpre o sentido do fazer científico ocidental que é o de “explicar processos”, e não, como o mito se propõe, narrar sobre as origens. Assim, toda vez que um cientista “explica” um processo, faz ciência, mas quando extrapola em seguida propondo uma narrativa sobre as origens, ou tecendo juízo sobre a “causa primeira” (não causada) que formou a vida biológica e inteligente, este cientista faz mitologia. E nisso, as grandes narrativas das religiões são superiormente melhores. Eu diria imbatíveis. Qualquer dúvida, veja, na história da humanidade, em torno de qual tipo de narrativa tem se constituído comunidades humanas de sentido resistentes ao tempo.

A base da ciência é genética e metodologicamente empírica. Ela elenca estruturas constantes e invariáveis que apoiam suas observações sobre o fenômeno processual observado e extrai, a partir de observação cuidadosa e organizada (registrada nos protocolos), as leis constantes que dão domínio e controle sobre o processo, de tal forma que o mesmo poderá chegar a ser reproduzido em laboratório. Ou ter sua validade teórica atestada “pragmaticamente”, que é o mais comum, como no caso dos fármacos. Em outras palavras: a ciência empírica reúne certas estruturas observadas como constantes do fenômeno dentro de um sistema explicativo sempre cada vez mais abrangente que se chamará “teoria”. Assim, não há só uma teoria da evolução, mas várias hoje em dia.

A intenção do cientista é dar conta de explicação exaustiva e racional do processo e suas causas em um círculo que não extrapole o campo do observado. Disso resultam as leis que regem os processos.

Na parte em que a “ideia de evolução biológica” não é uma teoria, mas um dado de fato constatável principalmente através dos achados fósseis (paleontologia), todavia, se encontra uma pragmática ocidental confirmada pelos efeitos esperados a partir de determinadas ações, nos seres vivos atuais, baseadas na ideia de “evolução biológica” destes seres. Por exemplo, os fármacos, que levando em consideração o caráter evolutivo do organismo humano, apresentam soluções medicamentosas que agem sobre determinadas enfermidades. Estes só podem existir com base na ideia de evolução biológica.

Nesse sentido, os negadores da evolução, ao sentirem dor de cabeça ou precisarem de uma cirurgia, deveriam ser coerentes e não tomar o remédio e nem fazer a cirurgia, já que ambas são resultantes da concepção evolutiva da vida que os negadores querem refutar.

Assim, para mim, nessa conexão, trata-se de capacidade de distinção, sem separação. Ou seja, uma atitude responsável e inteligente diante das narrativas míticas e científicas à disposição. Já que quem aceita o mito, vai querer de alguma forma irresistível “explicar” para gerar sentido para a vida; e que quem se propõe explicar tende a querer “fazer mito” pela vontade de chegar às causas últimas, não causadas (justamente, o Deus ou deuses dos quais os mitos partem).

Assim, só há um caminho para sairmos desta dicotomia narrativa que a ideologia liberal do Ocidente moderno quer tanto manter entre fundamentalistas e racionalistas. Para mim, creio, é pelo caminho de uma educação ampliada. Voltada tanto para o desenvolvimento da “compreensão humana” (no âmbito dos afetos, em que os narradores mitológicos se respeitam e até aprendam uns com os outros) quanto de uma posição ética crítica (racional) diante das possíveis consequências práticas e resultados que a aplicação das teorias cientificas podem gerar para a vida no planeta. Tudo em vista da defesa da dignidade humana, do direito dos animais e do meio ambiente.

Por exemplo, como personalista, não concordo que a evolução seja a do mais adaptado. Isso é resquício de ideologia burguesa em Darwin, que corre para o conformismo social e conservadorismo típicos da era vitoriana. (Como bem soube extrair Herbert Spencer etc.) A evolução, para mim, é do “menos adaptado”. Daquele organismo que decidiu sair da proteção e segurança garantidas em sua carapaça de molusco e enfrentar o mar aberto em pele nua. Até chegar a nós, homo sapiens sapiens. Em outras palavras (mitológicas): Deus não é burguês! Como diria Henri Bergson.

Mas interessa à ideologia liberal que essa questão entre ciência e religião permaneça colocada na forma de dicotomia, na forma disjuntiva, na base da refutação, da competição: do melhor ou pior, do verdadeiro ou falso. Mas isso é uma mistificação liberal.

É por esse meio, para manter seu status quo de injustiça, que a ideologia liberal mobiliza, do fundamentalismo religioso, seu moralismo rígido, obtuso e violento; e do racionalismo científico, seu relativismo dissolvente, arrogante e pronto à indiferença pequeno burguesa tranquila, diante dos fatos injustos constantes nas sociedades liberais capitalistas. Mas sempre com o tal “mito” criado pela modernidade burguesa da boa consciência científica “neutra e objetiva”!

Lembremos aqui de como uma boa parte dos diretores de órgãos de fomento à pesquisa no Brasil criticavam asperamente a presidenta Dilma Rousseff, dizendo que ela privilegiava muito a formação básica e não dava a atenção merecida à pesquisa científica de ponta. Mesmo recebendo apoio e verba do governo federal dos governos do PT que nunca tinham recebido antes. Enquanto a presidenta Dilma Rousseff estava apenas tentando cumprir a C.F. e fazer justiça, incluindo os jovens filhos de trabalhadores na universidade. Agora dou risada, ao pensar que esses cientistas “objetivos e neutros” são obrigados a ouvir, da gang de celerados neo-fascistas que tomaram de assalto o poder, que a terra é plana, que homossexualidade se cura na porrada e com oração, que Newton, Darwin e Einstein eram burros etc.

Assim, a estratégia da ideologia liberal é manter o “problema” entre a narrativa da religião e a da ciência sempre na forma de uma “dicotomia”, de uma disjunção mantida na base da refutação. Pois isso serve como diversionismo social, em uma sociedade despolitizada e analfabeta funcional como a nossa, por exemplo. Como também serve, tanto para os picaretas e embusteiros religiosos fundamentalistas quanto para os racionalistas obtusos, venderem bastante livro e novelas que ligam nada a coisa alguma para os medianos da classe média. Distração estratégica, enquanto a rapina liberal dos banqueiros, das quadrilhas donas dos meios de comunicação (a começar pela quadrilha Marinho), do empresariado oportunista e traidor da nação, dos rentistas nacionais e internacionais neoliberais, dos militares traidores da soberania nacional, da parte do judiciário calhorda etc. continuem tranquilos e sem incômodo a saquear o orçamento público, com o papo furado liberal do tal estado mínimo, sempre para o povo, e máximo para essa canalha.

*Bacharel, licenciado, mestre e doutor em filosofia pela USP; bacharel em teologia pela Faculdade Teológica Batista de SP; pedagogo licenciado pela FALC; autor de artigos de filosofia em veículos especializados e livros coletânea; autor do livro *O cristianismo ateu de Pierre Thevenaz* (no prelo); tradutor de mais de trinta livros nas áreas de filosofia, ciências da religião, ciências humanas e teologia; músico profissional (guitarrista) e jornalista. Colunista do Cartas Proféticas.

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