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Morre mais um pastor atingido pelo coronavirus: a falência moral das igrejas

Por Dom Orvandil.

A América Latina sofre mais uma vez com a morte de um dos nossos irmãos no Chile.

Durante uma atividade conciliar intensa, o pastor (bispo) Mario Salfate, que tinha apenas 67  anos e vivia intensamente seu ministério, foi hospitalizado às pressas com sintomas graves de contaminação por coronavirus no dia  23 de março,  no Hospital de Los Andes.

No dia 14, terça feira, Mario Salfate morreu.

Salfate era líder da corporação da Igreja Metodista Pentecostal do Chile. Era muito respeitado no país e no mundo, não somente na sua denominação mas por todas a igrejas.

A morte do pastor ocorreu num contexto dentro do qual atuam colegas dele, bispos, coronéis de igrejas, muitas de alta intensidade mercadológica, tomados pelo fanatismo e superstição.

Ainda nesta semana postei análise da notícia da morte do pastor estadunidense Gerald Glenn, dono de uma igreja “evangélica” fundada por ele, que era elogiado por parlamentares graças sua generosidade e disposição a consolar os aflitos.

Porém, da mesma forma superficial e irresponsável com que Glenn enfrentou a pandemia, servindo de mau exemplo ao pregar que “eu acredito firmemente que Deus é maior que esse temido vírus” (leia mais), muitos outros no Chile professam machisticamente a falsa coragem de quererem pregar em templos, lares e praças, metidos a serem  tomados por super fé, achando-se melhores do que os outros seres humanos. Isso produziu uma crise no seio da Igreja Metodista Pentecostal do Chile, com os metidos a corajosos cheios de fé de um lado e os sensatos, de outro.

Acompanhei o racha que se deu na Igreja Metodista no Chile, entre os tradicionais protestantes racionalistas e os “petencas” – como jocosamente se referiam os que permaneceram fies às raízes do metodismo aos adesistas pentecostais, que saíram da igreja original, causando ressentimentos por causa da divisão plena de calúnias e difamações.

Historicamente o metodismo vacila entre o povo e os poderosos. Esta igreja nasceu do movimento criado pelos irmãos Carlos e John Wesley na Inglaterra afundada na crise do capitalismo do pós revolução industrial. As multidões de trabalhadores jogados na pobreza, na miséria e no alcoolismo, que os marginalizava,  abandonados nas sarjetas das ruas de Londres e de outros pólos industriais,  foram alvo das chamadas “classes metodistas”.

Como as comunidades eclesiais no Brasil,  esses grupos uniram, curaram, educaram e projetaram na sociedade milhares de trabalhadores, muitos futuros militantes das internacionais socialistas.

A partir desse movimento Johan Wesley foi um dos que levantou mundialmente a bandeira da libertação dos escravos, criticando agudamente o mercado de seres humanos, promovido  principalmente pelos monopólios ingleses, membros da Igreja da Inglaterra.

Porém, a igreja Metodista, que veio para o Brasil e para a América Latina a serviço do expansionismo imperialista dos Estados Unidos, com apoio das sempre reacionárias, e sustentáculos de golpes de Estado em todo o Continente, as maçonarias, durante as ditaduras militares  sangrentas no Brasil, no Uruguai, na Argentina, no Chile e na Bolívia, bispos e pastores metodistas se tornaram espiões e responsáveis pelas prisões, torturas, assassinatos e  desaparecimentos de muitos de seus membros.

A partir da década 60 no Brasil, no entanto, boa parte da Igreja Metodista, com alguns dos seus melhores bispos e pastores, participou da luta frontal contra a ditadura imperialista-militar. Daí nasceram documentos importantes com densidades teológica e política relevantes, tais como o Credo Social e o Plano para a Vida e a Missão da Igreja, com esta denominação integrando o movimento ecumênico brasileiro e mundial, num eloqüente esforço de unidade popular, mantenedora de grandes universidades e escolas de qualidade em todos os níveis, espalhadas por todo o país.

Lamentavelmente, esta igreja recaiu, desta vez resvalando para um pentecostalismo vulgar, pobre teologicamente e vil politicamente.  

Graças a essa opção marginal, traiçoeira a tudo que foi construído, essa denominação decidiu em seus concílios gerais sair de todos os envolvimentos ecumênicos de caráter progressista de interesse à luta por justiça social, como defende seu Credo Social. Com isso também matou e sepultou todas as suas instituições educacionais

Hoje essa igreja não conta com nenhum bispo, pastor e pastora de expressão e compromissados com os trabalhadores, com os pobres e com a Pátria.

O caminho geral desse pentecostalismo ou neopentecostalismo, é o de ser irresponsável socialmente e com a pátria, pelo menos do ponto de vista progressista e constitucional, como preceitua a Constituição de 1988.

Alienado, o pentecostalismo metodista é parte da borrasca golpista dos que se aliam à direita. Rasos bíblica, teológica e politicamente, os metodistas endoçam a superstição – que se opõe à fé – em busca de privilégios, dinheiro e molezas para seus pastores, como as outras igrejolas neoliberais do mercado dito religioso.

É nesse horizonte que atuam pastores metidos a corajosos, de facão sem cabo, lá no Chile. Jogam com o método roleta russa: se morrerem serão “canonizados” como santos, como os casos   de Gerald Glenn – embora não seja metodista é da mesma linha picareta – e  Mario Salfate. Se não adoecerem serão coroados como milagreiros poderosos do “Senhor” – o senhor do mercado, claro.

Entre essa turma degradada moralmente há abusadores sexuais, misóginos, racistas e patrões exploradores dos trabalhadores.

Enfim, juntando essa turma toda das igrejas neoliberais e neopetencas e petencas, vê-se ruidosa e gigatesca falência moral.

Um companheiro de lutas da Igreja Assembleia de Deus aqui de Goiânia me contou que o pastor dele prega muito mais sobre o miliciano e fascista Jair Bolsonaro do que sobre Jesus, o Cristo, com quem ele moralmente não tem nenhum compromisso.

A crise orgânica do capital destroçará tudo o que trai a justiça econômica e social. Não tardará para que este sistema entre em colapso e seja totalmente destruído pelo povo,  revoltado com tanta desumanidade.

De modo que essas igrejas, falidas moralmente, não sobreviverão.

Não consigo adivinhar se esses lobos vestidos de ovelhas enfrentarão a fúria prevista pelo padre francês Jean Meslier,  que disse que  “o homem só será livre quando o último rei for enforcado nas tripas do último padre”.

Jean Meslier se referia a esses mistificadores mentirosos e enganadores do povo, impedindo-o de fazer a revolução.

Aqui a turma de pastores, bispos, padres e coronéis donos de igrejas do mercado são potenciais mortos moralmente.

Quando tudo terminar , eles restarão sós, investigados, presos e talvez enforcados pelas tripas cheias do dinheiro que roubam do povo e com a traição aos trabalhadores e os pobres, que ajudam a enganar e alienar, fazendo o serviço sujo de entrega deles aos lobos vorazes do capitalismo.

Quem viver, verá!

Acesse e recomende: Dicas para convivências no deserto do isolamento social (1)

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Um comentário

  1. "Morre mais um pastor atingido pelo coronavirus: a falência moral das igrejas". Ajude-nos a alavancar fortemente o Cartas Proféticas compartilhando somente a chamada e o link desta postagem: http://cartasprofeticas.org/morre-mais-um-pastor-atingido-pelo-coronavirus-a-falencia-moral-das-igrejas/

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