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Não precisamos de ciência para nos “salvar”, precisamos de ciência para reconhecermos nossa medida real como seres humanos imperfeitos

Daniel da Costa*

O conhecimento é sempre necessário a nós humanos, pois não nascemos ou possuímos uma estrutura instintiva (como os animais) que nos garanta a sobrevivência dinamizada puramente através de nossa constituição física e orgânica. (Os animais desde muito cedo se tornam autônomos em suas atividades de sobrevivência; nós humanos precisamos uns dos outros até a morte. Quando, em uma situação extrema, e no mínimo de respeito à dignidade de cada pessoa, a sociedade tem que dar conta de arranjar um caixão para nos enterrar, se formos indigentes.)

Assim, somos seres relacionais e interdependentes. Desde o nascimento à morte, precisamos uns dos outros. E criamos as condições de garantia de nossa existência individual graças a uma “cooperação” social incontornável e latente, através do mundo do trabalho, que constrói os objetos físicos e culturais (espirituais) que nos garantem a formação humana e que o individualismo burguês liberal, desde pelo menos o século XVIII, a todo custo, quer ocultar através de suas bobagens sobre meritocracia, competição selvagem etc.  

Assim, os animais não precisam fazer ciência, e, para nós, ela é um dos componentes do que chamamos de “cultura”. Todavia, o fazer desta “ciência” (no singular) é fruto de intencionalidade tipicamente humana que, portanto, nunca é descomprometida. Nunca é neutra ou descolada da realidade cultural que nos constitui a cada um como pessoa.

Todo fazer científico é misturado, e não tem nada de pureza. Inclusive, a tentativa de se dizer ciência no singular (reduzindo o conhecimento humano ao fazer científico teórico de laboratório, quantitativo) é demonstração de que se está comprometido com certos valores próprios da sociedade burguesa moderna e seu esquema típico de dominação desde 1500.

Hoje, a fenomenologia e a hermenêutica, o existencialismo e o personalismo, e mesmo o marxismo e todas as “ciências” com consciência histórica mínima têm esclarecido que quem determina a ciência é: 1. a estrutura dos objetos, à qual não temos acesso senão de modo sempre enviesado, perspectivado; 2. a ação de um sujeito, sempre situado culturalmente, com seus valores e visão de mundo; e 3. um terceiro dado que é nossa interpretação do objeto, que se dá através de nossa linguagem, nossa comunicação, que é, por sua vez, produto determinado pela cultura.

Daí não existe ciência, mas sim “ciências”, no plural. Pois cada objeto de análise determinará um método de aproximação específico. Assim, um paradigma não é portanto determinado apenas pela ciência, como quer Thomas Kuhn. Um paradigma, grosso modo, é a representação de um complexo cultural constituído pela ciência, pela visão religiosa, pela moral, pela ética, pela arte, pela filosofia etc. de um povo. E não estas sendo determinadas pelo paradigma da ciência, no singular, como quer Kuhn.

Assim, se reduzirmos a noção ampla de paradigma à “paradigma científico”, teremos uma redução do significado da noção de paradigma ao custo de reduzirmos os demais fazeres humanos à chamada “teoria do conhecimento”; fazeres humanos que possuem objetos e métodos específicos e distintos.

Reduziremos, inclusive, o fazer filosófico. Esta impostura, seguida por todos os epistemólogos desde Kant, e defendida com unhas e dentes por epistemólogos de ideologia liberal, tais como Popper e Kuhn, deve ser denunciada e explicitada como impostura racionalista que é (não obstante os esforços do estadunidense Thomas Khun).

Sou filósofo e, por enquanto, não há quem me convença desta tentativa de reducionismo tipicamente liberal burguesa da filosofia à epistemologia, e, numa sequencia expositiva no mínimo sorrateira, da epistemologia à teoria do conhecimento científico, como se fosse uma passagem “natural”.

Este típico reducionismo, esta passagem malandra, como vimos antes, é claramente marcada pelo empirismo grotesco anglo saxão e estadunidense e seus métodos fajutos de reducionismo da realidade humana complexa ao seu esquema de controle que ainda vigem e controlam as mentes de muitos estudiosos.

Já é hora de explicitarmos esta impostura liberal e ideológica centenária que contamina a ação de conhecimento que é própria da vida humana como espécie e não redutível. Já é hora de denunciarmos este mofo putrefato do cadáver positivista e sua pseudo religião e mitologia da ciência, que insiste em permanecer nos assombrando desde o século XIX como capaz de nos “salvar”. E que, neste afã de se colocar como “salvação da humanidade”, numa espécie de sobra de pseudo religião ou mitologia, produziu Auschwitz em meados de 1950.

E hoje, com muito dinheiro investido, e reuniões em salas de luxo regadas a vinho francês, pela rapina das famílias poderosas do roubo do petróleo, das universidades de medicina (que organizam a morte lenta das pessoas consumidoras da indústria alimentícia e farmacêutica, que estas famílias também dominam), enfim, as famílias endinheiradas deste mundo que se consideram “deuses”, a ciência (singular, de laboratório) produziu o atual Corona Vírus.

Alguma dúvida?

* Bacharel, licenciado, mestre e doutor em filosofia pela USP; bacharel em teologia pela Faculdade Teológica Batista de SP; pedagogo licenciado pela FALC; autor de artigos de filosofia em veículos especializados e livros coletânea; autor do livro *O cristianismo ateu de Pierre Thevenaz* (no prelo); tradutor de mais de trinta livros nas áreas de filosofia, ciências da religião, ciências humanas e teologia; músico profissional (guitarrista) e jornalista. Colunista do Cartas Proféticas.

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2 Comentários

  1. Numa conjuntura de hegemonia fundamentalista e do charlatanismo é muito importante lermos este artigo do nosso colunista Filósofo, Teólogo e Militante Dr Daniel da Costa. Ajude-nos a alavancar o Cartas Proféticas compartilhando somente link e a chamada desta postagem: http://cartasprofeticas.org/nao-precisamos-de-ciencia-para-nos-salvar-precisamos-de-ciencia-para-reconhecermos-nossa-medida-real-como-seres-humanos-imperfeitos/

  2. […] Cartas Proféticas, Filósofo, Teólogo, Músico, Jornalista, Pedagogo e ativista, Daniel da Costa escreveu sobre o valor da ciência como forma organizada, empírica e pesquisadora, para além das opiniões […]

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