meritocracia1

Neofascismo financeiro e meritocracia

A retórica em matéria econômica no Brasil é apresentada como neoliberalismo quando, em verdade, já ultrapassou estas fronteiras, pois a sua pauta real apresenta conteúdo distinto e agravado. A retórica neoliberal se apresenta como força libertadora das incidências supostamente malfazejas das políticas públicas populares aplicadas pelo campo político progressista. O neofascismo financeiro se apresenta como força constitutiva de novas relações sociais e econômicas em que o mérito é utilizado como máscara e força anímica para captar a simpatia coletiva de que por esta exclusiva via meritocrática é que os destinos dos indivíduos serão conduzidos, sendo esquecida por completo a dimensão coletiva, devidamente obliteradas as suas vias de acesso.

A verdadeira face do neoliberalismo contemporâneo é este macabro neofascismo financeiro, cuja funcionalidade depende do mascaramento de aspectos essenciais de sua configuração, e um deles é o darwinismo social. Contudo, ele contém falsificações, pois não há uma competição ajustada aos padrões naturais, senão que as suas instituições privilegiam alguns indivíduos e os colocam em uma posição praticamente inevitável de vencedores. Mesmo a retórica legitimadora do neoliberalismo é alta e duramente falha, pois os bloqueios, prejuízos seletivos e favorecimentos interessados são dirigidos e muito intensos. Estas condições atualmente postas para a competição social em nenhum caso permitem, senão episódica e acidentalmente, que do processo competitivo resulte vencedor o mais apto, senão o mais favorecido.

A grande falsificação da retórica meritocrática do neofascismo financeiro reside em que os indivíduos não recebem os mesmos equipamentos para empreender a luta social pela sobrevivência. Sem embargo, são levados a crer que o mérito e a justiça não passam mesmo disto, ou seja, que os indivíduos devem estar dispostos a superar todas as adversidades socialmente impostas assim como as vantagens criadas diretamente em favor dos privilegiados assim como todos os abertos obstáculos impostos pela sociedade aos menos favorecidos. É este odireito, mas não é direito.

A disputa é essencialmente desigual e injusta já desde o ponto de partida, mas o sistema insiste na retórica meritocrática como instrumento de sedução dos incautos. Exitosos economicamente, ricos, mas nem sempre constituídos na melhor face humana, os privilegiados querem persuadir a todos de que para lograr a garantia da lisura e da justiça na disputa em sociedade seria suficiente o só fato de alinhar indivíduos para a competição no ponto de partida. Não é. Quando o sistema oligárquico desconsidera as reais condições dos “competidores”, por exemplo, no que tange às suas condições de saúde, alimentação, treinamento, etc., então, está a comprometer todo o sistema de competição que propõe, e aí se configura uma espécie maldita de darwinismo social. A profunda iniquidade de um sistema político e suas bases econômicas reside na aceitação de ofensas aos mais básicos princípios de equidade em sociedade em que a vergonha aliada ao pudor sejam considerados valores éticos. O que é possível dizer do real mérito daqueles que triunfam em tão evidentes condições de desigualdade de meios para a competição? O óbvio: quem triunfa nestas circunstâncias não tem méritos, mas vence devido a uma dupla ordem de intervenções que obstaculiza a ascensão de alguns enquanto maximiza as condições de favorecimento de outros. De um jogo em que as condições são absolutamente díspares se pode dizer tudo, menos que exista mérito nos vencedores, de quem se pode dizer que são habitantes mórbidos inconscientes de um deserto de humanidade e de ideias.

O neofascismo financeiro no Brasil reconhece a sua fonte de alimentação e tóxica erupção periódica no paulicentrismo oligárquico rançoso barbarizante. Esta força vem conduzindo a vida pública e confirma a adequação de uma estrutura de competição em que alguns dispõem de grande parte dos recursos materiais para a competição, enquanto outros, de pouquíssimos ou mesmo nenhum, modelo segundo o qual a virtude está em que estes últimos homens e mulheres façam espelhamento em figuras milionárias supostamente bafejadas pela boa fortuna da aplicação de seu mérito e esforço. Sob esta fraude ergue-se uma nova onda neofascista-financeira que apoia que famílias milionárias posicionem aos seus filhos mil passos adiante de seus “competidores”, e que sobre elas não incida a devida e justa tributação progressiva.

O discurso meritocrático é falacioso, mas de extrema utilidade para persuadir aqueles que, porventura, já se encontrem sob a lógica da deficiente interpretação do protestantismo. É capturado e tornado um eficiente meio para que a nova versão neoliberal ancore coletivamente a crença de que é não apenas possível como urgente libertar homens e mulheres, e para isto seria urgente substituir o Estado social – mesmo sendo ele tímido e conservador desde a sua aspiração pacificadora da volúpia libertária do povo – pelas falsas benesses populares atingíveis através do livre jogo de forças entre a banca, as empresas, as indústrias e os indivíduos componentes do povo, que são levados a comportar-se como pessoas jurídicas e não como o que realmente são, a saber, trabalhadores(as).

Os indivíduos são persuadidos pelo neofascismo financeiro de que devem flexibilizar as suas vidas no altar da liberdade, que encontra seu habitat no pantanoso território demarcado pela oligarquia arcaico-escravista. O neofascismo financeiro que se apresenta publicamente como neoliberalismo carrega em seu âmago uma versão pentecostalista cujo mediador com a virtude neste mundo é o capital, egoísta em seu elogio e promessa de prosperidade, em seus fundamentos é rude, e em suas práticas é essencialmente desumano assim como em seus resultados.

As massas são levadas a ansiar pela prosperidade cuja residência supostamente estaria na prática do livre mercado em que cada um dos homens e mulheres, mendaz estado nirvânico obtido sempre e quando todos se empenhassem aos radicalismos propostos por sua lógica de competição. A sanidade do juízo é substituída pela euforia de uma razão perdida quando homens e mulheres são persuadidos de que devem entrar em disputa em um mercado que lhes propõe condições de disputa similares as de uma zebra em face do leão, e que sequer devem ser reunidas em grupos para enfrentar o leão, mas negociar e dialogar com ele de forma “livre”, chegando a livre e equilibrado acordo. Alguém pode duvidar seriamente de que não seja esta a posição dos trabalhadores e, mesmo, dos microempresários, em face das grandes transnacionais? Tudo o que recobre a imanência do real é a ideologia neofascista-financeira.

Não estamos vivendo tempos em que triunfe sequer uma versão consequente do neoliberalismo, mas sim um irresponsável e fratricida neoliberalismo fascistóide de caráter financista, que insiste em títulos-esfinge, discursos místicos, imagens arrebatadoras e promessas paradisíacas a incautos de natureza mórbido-cristalizada que substituíram a fé religiosa pela inabalável crença no mercado. São indivíduos que não reagem sequer a imposição das variáveis recauchutadas da escravidão, que, em verdade, é a sua face mais verdadeira e cruel. Sejam quais forem os abusos, o neofascismo financeiro conta com esta cristalização do humano, crente de que não é um trabalhador(a), mas alguma variante de empresário que deve aligeirar-se na defesa dos sagrados valores deste turbo-capitalismo ensandecido a cujas benesses prometidas poderá alcançar no amanhã prometido, mas prometeico.

O que realmente está em causa é um cenário de ensombrecimento do real por parte desta altíssima força ideológica aqui denominada de neofascismo financeiro promotor da eliminação simbólico-legal das forças políticas populares. O problema de fundo para o neofascismo financeiro é que muito lentamente as mentes percebem a dimensão do engano ao vislumbrar trechos do real através das brechas na muralha ideológica por ele construída. Perseverando na exploração destas múltiplas ranhuras, elas podem transformar-se em fissuras e a massa tomar em suas mãos a chave de acesso ao real que lhe descortine o horizonte para a ação. Por ora, os indivíduos permanecem neste mundo ensombrecido, e habitando na escura caverna de costas para a saída acreditam que as sombras refletidas ao fundo articuladas pelas forças eletromagnéticas coordenadas pelo neofascismo financeiro é que são os homens reais. Não são, e sabê-lo será o primeiro e necessário passo para a (re)ação contra o embuste.

Sob este cenário de puro engano que visa cooptar apoios ao neofascismo financeiro que vai mantendo entre nós o Estado de exceção e sorrateiramente ampliando as suas competências, promovendo o trânsito de um momento política para outro, misto, em que se pretende subordinar o fazer político à mera tecnicidade das decisões econômicas, circunstâncias em que esta esfera é quem dá as cartas em meio ao profundo apequenamento dos homens e mulheres componentes das casas legislativas. Esta passagem precisa ser realizada com discrição, à distância dos olhares crítico-invasivos de grande parte da população. Este modelo contém a força suficiente para deslocar de sua posição central aos valores democráticos em prol da hipervalorização da função maximizadora de lucros, revelando ser um dos importantes vasos comunicantes entre o neoliberalismo e o neofascismo financeiro contemporâneo, ponto concretizador do radical desprezo dos seres humanos que operam à base do sistema produtivo.

O desencanto social e político global, a falta de horizontes e a desesperança coletiva tão presente nos países ocidentais se debita consideravelmente ao oculto governo financeiro que gere as últimas e íntimas dimensões das vidas humanas sem ser alvo de qualquer controle – recôndito em que age a famosa mão invisível da oligarquia – e este foi o justo motivo para que em seus primórdios o liberalismo burguês alçasse espadas contra os governos absolutos. A reabilitação, organização e reenergização da política por parte da população é o passo.

Roberto Bueno. Professor Universitário.

Colabore com o Cartas Proféticas que analisa as notícias, busca os nexos com o todo, com as causas e os efeitos e critica  propositivamente.

Compartilhar:



3 Comentários

  1. Não há o que discutir em torno do discurso fácil da meritocracia, senão o de uma justificativa que tenta mascarar uma riqueza sem lastro real e verdadeiro no mérito, mas amparada em traços aristocráticos de origem familiar, raça e principalmente, elevado padrão financeiro. A classe média incauta pode comprar essa ideia, porque acaba se beneficiando em certa medida de suas posições em relação aos pobres, mas os pobres que são levados por esse "canto de sereia", correm o risco de morrerem frustrados com suas vidas e pior: culpando a si mesmos por essa triste situação.

  2. Bravo .... Roberto Bueno 👏👏👏👏👏👏👏👏🇭🇰🇭🇰🇭🇰

  3. 👏👏👏👏👏👏👏👏🇭🇰🇭🇰🇭🇰

Responder

Seu email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *.
Os comentários expressam a opinião de seus autores e por ela são responsáveis e não a do Cartas Proféticas.