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NEOLIBERALÓIDES NO GRANDE CASSINO E O REINO DO MAL-ESTAR

O campo progressista mantém compromisso de fundo com políticas voltadas a concretização do bem-estar, malgrado hesitação em desarticular a armadilha da cultura materialista exacerbada, enquanto o neoliberalismo radical aponta para a sacralização do livre mercado. Contudo, as democracias ocidentais desconhecem o que realmente seja a idolatrada liberdade de mercado, pois o livre jogo dos atores econômicos não passa de um fraco e farsesco discurso imposto aos indivíduos para legitimar uma economia realmente controlada por uma oligarquia financista-empresarial.

O livre mercado guarda de seu referencial teórico clássico pouco mais do que a palavra, pois o seu conteúdo foi substancialmente alterado pelo processo conservador-autoritário de neoliberalização. Este teve seu incremento ao redor da década de 1980 enquanto que na periferia ocidental o movimento ocorreu ao final da década, tomando como eixo o Consenso de Washington, concebido e aplicado por uma poderosíssima oligarquia transnacional. Ela fez brilhar em corações e mentes um sedutor horizonte ao transformar em estrela polar a aspiração pela riqueza sem par e luxo inebriante, assim como em seu momento oFührer hipnotizou as massas oferecendo a redenção da nação, mesmo que o preço fosse reduzi-la a uma posição de dura e irracional submissão, disposta a aceitar a barbárie como regra da vida ordinária e pauta para o futuro distante. Hoje, novamente, o pêndulo oscila exercendo função hipnótica enquanto o moedor roda.

A política econômica conservadora neoliberal alavancada naquela década foi descrita por Pierre Dardot e Christian Laval como composta pelas “[…] mais famosas das medidas adotadas foram a grande onda de privatizações de empresas públicas (na maioria das vezes vendidas a preço de banana) e o movimento geral de desregulamentação da economia”.[1] Esta descrição encontra atualidade para a leitura do Brasil mas, evidentemente, esta política neoliberal não encontra justificativa teórica ou empírica. Por este motivo ela precisa ser ancorada em um discurso que possa seduzir os incautos, e isto vem sendo feito de forma espetacular por parte da grande mídia.

Associada aos interesses das grandes holdings e transnacionais a grande mídia cumpre o papel de expandir horizontalmente a narrativa da (supostamente) oceânica realidade da corrupção e do péssimo serviço prestado público, ocultando que a magnífica corrupção e os maus serviços são prestados pela iniciativa privada, corrupção que começa por ela própria que se desmarca da prestação da informação e atua em defesa de seus próprios interesses econômicos e o de seus associados. Esta estratégia é levada adiante como forma de desacreditar coletivamente o Estado e ao apresentá-lo como raiz de todos os males, estratégia para desarticular o seu poder de intervenção pública e, assim, habilmente, desativar o único órgão capaz de operar de forma importante para maximizar e proteger o conjunto das liberdades públicas. Esta é uma razão suficiente para que as ilhas oligárquicas de poder associadas tenham extremo cuidado em promover constantes e ácidos ataques às funções e ações do Estado com o único fim de destruir a última muralha de defesa da esfera das liberdades públicas e, sobretudo, dos trabalhadores.

Dardot e Laval afirmavam que o rumo tomado durante o vendaval neoliberalizante de privatizações ocorreu sob a inspiração de que “A ideia diretriz dessa orientação é que a liberdade que se dá aos atores privados – que conhecem melhor a situação dos negócios e seus próprios interesses – é sempre mais eficaz do que a intervenção direta ou a regulação pública”.[2] Certamente, o discurso neoliberal não considera em nenhum momento o cacife que cada uma das partes (trabalhadores e empregadores) dispõe ao sentar à mesa de negociações, e tal como ocorreu ridícula e asquerosamente no Brasil, a grande mídia presta contínuo apoio com total desfaçatez aos ataques à Justiça do Trabalho, prestando o altíssimo desserviço público ao sustentar que os trabalhadores podem negociar livremente com os empregadores. Não é sob tais referenciais que o neoliberalismo espera realizar a liberdade, e ele tem absoluta ciência de que o seu discurso é absolutamente desconectado de seus reais objetivos.

Sob a égide do discurso neoliberal a liberdade não tem a menor perspectiva de realização, malgrado o seu esforço em manter o controle e ampliar as esferas de mando sobre os neoliberalóides. A desativação desta realidade é complexa, e para isto é preciso compreender o alerta de Wilhelm Reich no cenário da crueza da década de 1930 de que a liberdade “Exigiria que a responsabilidade por todos os acontecimentos sociais fosse transferida, das minorias e ilhas da sociedade, para a grande maioria, de cujo trabalho a sociedade depende”.[3] A ideia de liberdade neoliberal sublinhada por Dardot e Laval é incompatível com a compreensão conceitual de liberdade proposta por Reich, pois em nenhum caso o forjador oligárquico do homem neoliberalóide está preocupado com a extinção do monopólio do poder por parte destas “minorias e das ilhas da sociedade” da qual é titular. O neoliberalismo é impróprio para a constituição de um sistema de liberdades mas altamente eficiente para criar uma cortina de fumaça sob a qual os altos poderes transnacionais coordenam o mundo e afundam homens e mulheres ordinários.

Indiscutivelmente as liberdades estão sob duro ataque mas não pelas autoridades políticas visíveis, mas sim pelo mundo financeiro e seus controles digitais que operam decisivamente sobre governos democraticamente eleitos que em caso de fugar-se à servilidade são derrubados. Se é mesmo assim, a quais setores realmente desinteressa que a sociedade detenha o real poder sobre os destinos da legislação? A resposta é óbvia. Isto significa que estes obscuros poderes podem apoiar governantes que se mantenham na condução dos destinos da sociedade mesmo quando isto seja possível apenas através da imposição à força de legislações que não têm qualquer apoio popular. Esta é a única face real do elitismo oligárquico autoritário ao qual o neoliberalismo se presta exemplarmente como o mais fiel e dedicado serviçal.

Os densos e arrasadores ventos neoliberalóides formados no vulcão eruptivo do neoconservadorismo conduziram um processo de reconfiguração política sobre o papel do Estado mas também de ordem cultural em seu apoio. A magia midiática reconfigurou o campo da percepção pública sobre o Estado ao demonizá-lo diariamente com forte exposição de imagens nefastas em praticamente todas as suas áreas de atuação. São veiculados recortes do real que transformam o conjunto das operações do ente estatal em uma única, homogênea e imprestável peça, que de tão perversamente exposta ao público o persuade de que se trata de objeto cuja eliminação é desejável em prol da emersão de uma nova e grande força, a saber, a do mundo empresarial privado, cujas falcatruas e corrupções mil não recebem sequer distante atenção do chamado jornalismo investigativo, cujos repórteres casualmente se desinteressam por empresários que fogem às suas obrigações com o Tesouro e evadem divisas das mais diversas formas. E assim é que a corrupção já está no âmago do denunciante e pretenso bloco de poder que visa eliminar a corrupção do mundo, pois todo o homem brutalmente puro carrega em si a falsidade de propósitos que não pode cumprir exceto quando lança mão do autoritarismo do qual se apresenta como combatente ímpar. O direito violado à luz do dia e nos excelsos tribunais é o espaço ideal para a direita que (se) cultiva (n)a barbárie.

O abrasador movimento de proteção de interesses conduzidos pela geronto-oligarquia amalgamou o coletivo de indivíduos, que passou à posição de convicto e contraditório apóstolo de combatente feroz de uma tipologia de Estado cuja básica composição é a da promoção do bem-estar de homens e mulheres, agora persuadidos que a ideologia neoliberal, tal como uma teologia, é superior aos seus mais evidentes e corpóreos interesses. O neoliberalismo intervém para regulamentar e bloquear as vias dos mais agudos processos de controle da sociedade sobre a iniciativa privada através das ações de seu mais forte braço, o Estado. Isto permite implementar a rudeza da competição social em sua versão mais crua, a saber, uma espécie de darwinismo aplicado tanto em matéria econômico-social quanto nas relações humanas, sendo os homens e mulheres entregues à sua própria sorte, persuadidos pela propaganda que os faz adoecer em defesa da cultura do cassino ou do apostador (que o homem racional kantiano-rawlsiano não adotaria na posição original apresentada teoricamente por Rawls), vale dizer, optante pela cultura do risco lotérico de infinitesimal chance de êxito quanto a ocupar posições de alto poderio econômico em detrimento de considerar as altas chances de ocupar posição social de forte depauperamento. Esta é a compreensão de sociedade que o falso neoliberalismo brasileiro está a apresentar à sociedade: um horizonte paradisíaco no qual habita desprezível chance de tornar-se um dos membros do privilegiado clube oligárquico. O preço a pagar para nutrir a (vã) esperança é abrir mão do Estado, rifando o ente que é idôneo para assegurar ao coletivo social níveis intermediários de existência, mas ao desprezar o Estado e assumir a cultura do jogador de cassinos aceita a certeza de que o coletivo será reduzido à pobreza. É nesta realidade que o neoliberalismo pode cumprir a sua função de maximizador da já incrível concentração de renda nas mãos da oligarquia estabelecida.

A cidadania foi parcialmente persuadida pela oligarquia neoliberalóide destupiniquizada, antinacionalista e avessa aos interesses de afirmação e desenvolvimento da soberania e de um projeto econômico nacional de que o grande valor a ser promovido é o do alheamento da administração política nacional. Está em causa uma estratégia que busca persuadir a população de que a política, e o Estado, são o reino do crime, e de que o paraíso supostamente seria encontrado na gestão empresarial. Este paraíso seria presidido por “gestores” (“não políticos”) como João Dória, que encontra a solução para o problema da pobreza publicamente exposta em homens e mulheres que dormem nas calçadas da capital paulistana através da ordem para a retirada de seus cobertores ou, também, aponta a solução para o cruel problema da dependência química ordenando a imposição de jatos de água fria para dispersar a colônia de dependentes formada na conhecida Cracolândia. Os “gestores” privatistas do mundo político também encontram solução do mesmo naipe ao apontar para as benesses da gestão privada de presídios, nos quais todos sabemos que a supina barbárie é toda a regra que há, como tão bem foi possível observar nos primeiros meses deste ano de 2017, mas quando avocam a “gestão” de escolas públicas uma das primeiras medidas que lhes ocorre é restringir a merenda de crianças enquanto na cozinha do Palácio dos Bandeirantes não falta abastecimento, malgrado o seu ocupante seja um milionário. É disto que se trata.

A real perspectiva do movimento de privatizações anunciado na década de 1980 e que agora o Brasil volta a conhecer orientado por sua mescla com uma política de profundo viés autoritário para defender seus exclusivos e excludentes interesses à distância dos preceitos democráticos de participação popular. A oligarquia se impõe através de um conjunto de políticas absolutamente avessas ao interesse público, do qual apenas a última elas tomada pela gerontocracia de Temer foi a extinção da Reserva Nacional de Cobre e Associados (Renca), delimitada ainda pelo Governo militar em 1984. São nada menos do que quatro milhões de hectares até então sob proteção ambiental que o governo ilegítimo, golpista e macabro do tinhoso e nada querido líder quadrilheiro (segundo a Procuradoria-Geral da República / PGR) agora entrega à sanha das mineradoras, sabe-se lá a qual preço. Enquanto isto o hipnotizado cidadão continua a observar como até mesmo reservas auríferas nacionais são entregues, mas até o momento nada disto lhe provoca o natural sentimento de estupor e última indignação conducente à ação. Medidas deste gênero, flagrantemente, não cabem sequer dentro dos limites das versões conhecidas de neoliberalismo, pois tem razão a PGR, isto é banditismo puro. Contudo, não será a acomodada nobreza judicial – entre magistrados e membros do Ministério Público – que recebe vencimentos mensais que oscilam para muito além de R$100 mil que se preocupará em colocar um fim nisto tudo. A cidadania está só até mesmo frente ao pó. As instituições que nunca funcionaram para o povo continuam de costas para ele. Até quando a inércia popular confirmará os atos da bandidagem?

A terceirização das funções da política visa degolá-lo e delegá-lo para o conglomerado de empresas privadas. Isto aponta para uma sociedade em que os benefícios financeiros destes grupos serão o único critério para a tomada de decisões e nada mais, neutralizando assim qualquer noção de interesse público. A nefasta geronto-oligarquia temerária intervém no cenário político sob a aura do signo do autoritarismo típico das famílias senhoriais dos primórdios da colonização brasileira, e é assim que observamos a passagem de um Brasil em que o mandonismo era da nobreza rural para outra etapa em que o mandonismo é típico da nobreza financista-togada. Demofóbica e demoníaca, a oligarquia reverberava a sua visão de organização de mundo e da política quando já era entrado o século XX e, portanto, durante toda a República Velha, e malgrado os seus estrondos e profundos danos ecoassem, a lamentar, eles todavia seguem a se fazer sentir nos dias de hoje. Os insanos conduzem os cândidos incautos ao precipício sob o som tonitruante do hipnótico flautim do pato amarelo que ribomba em todos os lares através das antenas de TV. Mas até quando?

E quando o lúdico dá indicativos de perecer e as esperanças se apresentam como improváveis em um horizonte curto e nebuloso, é então que ele finca ainda mais forte em nosso imaginário, desejoso de realizá-lo em face ao desafio que mobiliza e força os limites do real para além do que as ilhas de poder estabelecidas destacadas por Dardot e Laval estão em qualquer momento dispostas a conceder. Já não há concessões possíveis, já não é razoável esperar a boa-fé de quem alimenta um maremoto de ilusões fraudulentas. É preciso evitar este cenário para que brequemos o triunfo neoliberalóide e o triunfo de seu reino de profundo mal-estar para a população.

O que hoje está em causa é conter a mágica narrativa neoliberal sobre as falsas benesses totais do mundo empresarial, que em verdade nenhum interesse tem além da realização a qualquer custo de seus lucros sobre os impenitentes cidadãos. Sopram o som do flautim na direção de incautos ouvidos de cristãos-reformistas para quem a riqueza material é cativante e também seu único sinal de valor nesta terra. Do que se trata é de outro rumo, o de extrair o poder dos auto-erigidos à condição de falsos profetas, que se aproveitam da crença para apropriar-se da vida alheia. A tarefa histórica, à contragosto, quiçá, mas por necessidade imperiosa em nome da boa e modesta vida é reagir. Oremos sob ação firme e contínua para sobreviver como o fez a última das flores do Lácio, sob a expectativa de sermos belo esplendor e nunca sepultura, e se dela não finalmente o destino não aparta-nos, então, que a lápide contenha a memória da honra da vida vivida, o que nunca assiste a quem temer.

Roberto Bueno. Professor universitário. E-mail: rbueno_@hotmail.com

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3 Comentários

  1. Parabéns pelo BLOG CARTAS PROFÉTICAS, um blog completo , estou recomendando para meus amigos

  2. […] celebrando a entrevista do Dr. Aluisio Pampolha Bevilaqua, unida ao texto do Dr. Roberto Bueno e ao artigo do Engenheiro João de Paiva […]

  3. As marcas da classe dominante em época de crise de acumulação capitalista estão ai. Agora o papel da midia é tentar convencer a todos neste mar de desemprego, miseria e perda de direitos, que a economia está voltando a vender e como consequencia milagrosa, a familia, núcleo central e inviolável da sociedade burguesa, está vendo a sua receita e padrão de vida voltar a subir. Roberto está coberto de razão. Estamos a cada dia que passa sendo bombardeados com ilusões ideológicas neoliberaloides que, infelizmente, deturpam a realidade da forma mas escandalosamente possível. Mas, mais escandaloso é perceber como o senso comum aceita este tipo de ilusões midiáticas como fatos irremediavelmente verdadeiros. O proprio Locke, pai do liberalismo veria isto com espanto, diante de tanta perda de capacidade racional resultante da pessima educação que recebemos, para poder enxergar o caminho da liberdade sem uma sociedade de nobres privilegiados, amantes e seguidores da corrupção encalacrada, há muitos séculos, nas relações entre o Estado e o poder economico burguês. Coisa muito bem apreendida por Temer e seus seguidores.

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