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No suicídio de jovem gay se desmascara o discurso falso sobre família perfeita

Aproximam-se as festas de final de ano. A agenda dos festejos é, geralmente, eivada da ideologia dominante. Ali o fingimento corre solto, em muitos casos, solidificado pela hipocrisia que encobre imoralidades e até crimes empacotados entre os presentes do natal burguês e comercial.

Nada mais entediante do que as listas e revelações dos tais amigos secretos, que ocultam ódios, mentiras e máscaras.  Os chavões como “o/a meu/minha amigo/a secreto/a é uma pessoa muito especial” é a senha do que isso nada diz, por um lado e, por outro, esconde raiva, análise não feitas, recalques  brutais, idealizações  homenageando, com tons de santidade,  pessoas cheias de defeitos e até de caráter. “O meu pai – sempre o meu pai e nãos os de outros irmãos e irmãs – me ensinou a…”, daí vem a ladainha como máscara de elogios de homens machistas, truculentos, abusadores, violentos, injustos, preconceituosos, alienados por se deixarem humilhar por patrões; covardes por não defenderem seus próprios direitos, se permitindo explorar e miserabilizar com toda a família explorada,  e egoístas. Homens incapazes de fazer afago nos filhos, de se aproximarem para ouvi-los, de entendê-los, de respeitarem suas vocações e até suas orientações sexuais.

A ladainha sobre as mulheres se reveste de romantismo de tons criminosos. Quando dizem a “minha mãe – sempre minha indidualisticamente –  é a melhor mãe do mundo, ela é a melhor avó, a melhor, a melhor e a melhor …”, num discurso viciado e cansativamente, repetitivo, sem reflexão, que funciona como biombo que a retira ilusoriamente da vida . No entanto, estas mulheres carregam em suas almas massacres machistas, desconsiderações dos filhos, desrespeito das famílias, ameaças pelos companheiros, alienação política, marginalização dos direitos etc. Mas agora no natal são chamada s de a “minha … muito especial …”

Então a desgraça da idealização funciona para os dois lados: para um, como acobertamento da barbárie ao nível da desumanidade; para o outro, como ignorância e como total ausência da consciência da realidade.

Tanto os atores das festas de fim de ano, especialistas em homenagens  de natal com o enfadonho “amigos secretos”, como os que se rendem a fazer  o discurso falso de consideração pela família.

A ideologia – rica em mentiras e fingimentos – mascara que o ser humano não começa nem termina na família. Esta, coitada, é a desamparadamente  vítima da sociedade burguesa. Muitas das barbaridades que ocorrem em seu seio, escondidas da sociedade, são causadas pelo abandono por parte do Estado,  ocupado pelos negócios dos poderosos, nada fazendo pelas pessoas e pelas famílias, que afundam na violência, na vergonha, na culpa e nas mentiras.

A defesa da  tal família tradicional de bem, muito decantada no regime miliciano de criminosos que nos desgovernam, na verdade,  é cortina de fumaça sob a qual se alojam incomunicabilidades, falta de diálogo profundo, honesto e libertador para todos os seus sujeitos.  

Esse modelo é o mesmo da tradição de escravagistas que estupravam mulheres negras e desprezavam ao desespero as tais esposas brancas, feitas madames de festejos e santas de altar, tidas como paradigmas dos bons costumes e dos bons modos. Na lida com os escravos e com as outras mulheres pobres, todavia,  agiam como verdadeiras tiranas vestidas de botas mentais para torturar e minimizar as trabalhadoras, suas pages.  

A louvada família tradicional, preconceituosa, racista, abusadora física e psicologicamente, grosseira, respondona, sem capacidade de articulação de um mínimo de conversa e de relação afetiva e de respeito é trazida do túmulo como referência do atual regime miliciano e fundamentalista.

Tanto lá na escravatura como agora,  as igrejas são fatores determinantes na “construção” dessa família de crosta grossa e tosca, mas de alma miserável.

Padres, bispos e pastores até ganham dinheiro mentindo que a família é abençoada por Deus,  com muito amor.

Alienados ou de má fé jamais são honestos em reconhecer que as famílias não causam nada na sociedade, mas que são produtos e ressonância do conflito de classes.

O que ocorre dentro das famílias vem de longe das raízes da dominação, mesmo que o massacre mude de nome e de tintura.

No capitalismo o discurso de amor e de respeito  é pura demagogia. Como não ser se o melhor do mundo é sempre roubado dos trabalhadores para os brancos e ricos, da tal família tradicional,  portanto,  da elite dominante e vampiresca? Como contar com amor em casa com desemprego, com fome, com nudez, com debilidade na saúde, sem educação, sem estudos, sem leitura na busca da formação para compreender a complexidade da vida?

O que dói é que os pobres, por causa da injustiça econômica, repetem a barbárie e a falsidade da família tradicional, repito, hipócrita, mentirosa, desonesta e abusadora burguesa.

Enquanto não se eliminar o fosso, mudando o modelo de sociedade, desta burguesa, individualista, bolha de isolamentos e de privilégios, a ilusão de a família é a origem de tudo e templo de formação de bens continuará,  mesmo que toda a carga de desgraças continuem a acontecer, a família jamais será modelo de amor e de respeito.

Yago Oliveira, ao escrever na sua conta no Facebook, há quase dois anos,  toda a sua dor pelas contradições violentas da longa história da família dele, já no título estampa que era feita de sujeira, grita de dor  pedindo espaço para o direito de ser gay.

Tudo no texto indica que sofria gigantescos preconceitos em forma de perseguição brutal.

Vinham de gente tida como de bem: avós, tios, pais, mães e até de pastores evangélicos.

Com 18 anos  Yago certamente mais chamava a atenção para as contradições com o objetivo de ser socorrido e acolhido com solidariedade, principalmente relevando que ninguém teria o direito de julgá-lo em face de tudo o que todos fizeram em termos muito desumanos, isso desde os mais pregressos troncos do grupo da família dele.

Pois,  de forma arrepiante, certamente sofreu onda muito maior de ódio e de vingança de parte da sua família de bem.

E se suicidou!

Leia abaixo o grito de Yago Oliveira, um jovem profeta, cujo alarme é eterno na denúncia da barbárie que se aninha e explode nas família tradicionais de bem, muitas delas fundamentalistas e adeptas do fascismo em forma bolsonarista.

Sei que roupa suja se lava em lava, mas vamos lá

*Meu avô paterno, se casou com a minha avó quando eo la tinha 12 anos de idade e ele 30, ela se urinou com medo na primeira noite que dormiu com ele.

*Minha avó traiu o meu avô e eles se separaram, minha avó largou todos os filhos pelas casas das irmãs e não criou nenhum deles, assim como meu avô que começou a tratar os filhos do primeiro casamento como estranhos sem  cumprimentar quando passava por eles na rua.*O irmão do meu avô teve uma filha esquizofrênica, a qual como ele mesmo disse uma vez “deu fim”, ninguém nunca soube o que aconteceu com ela.

*O meu tio que é pastor evangélico teve seis filhos, com três mulheres diferentes, dos seis ele só criou dois, pagava 50 reais de pensão para a primeira esposa criar os seus outros filhos e achava um absurdo esta quantia e vivia atrasando a pensão.

*Esse mesmo tio que é pastor fugiu da Paraíba perseguido por um membro da igreja, após esse membro descobrir que sua esposa estava tendo um caso com ele.*Um outro tio abusava sexualmente da minha tia.

*A minha tia dizia que tínhamos que chamar a empregada doméstica de “Maria” porque empregada doméstica não tem direito a nome, como ela mesmo disse uma vez.

*Minha avó deu de presente para o meu primo um diploma do ensino médio falsificado, depois dele ter reprovado milhares de vezes na quinta série e todos concordarem que meu primo era um caso perdido.

*Outra tia minha enterrou viva uma ninhada de oito cachorros que sua cadela deu porque simplismente os cachorros nasceram tudo fêmea.

*Para o meu pai todo negro é marginal, todo serviço mal feito foi feito por negro e todas essas coisas racistas que já conhecemos…

Mas segundo todos esses que eu citei anteriormente a vergonha da família sou eu, pelo simples fato que sou gay, afinal como eles dizem, ser gay é pecado, mas ser racista, corrupto, assassino, estuprador, pedófilo e não criar os filhos tá de boa, o importante é você não ser gay.

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