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O Brasil odeia os professores

Edergênio Vieira*

Imagine dividir a sua atividade profissional com outra que sequer tem relação com a sua formação? Imagine ter um trabalho onde você tem que pagar para trabalhar? Imagine noites mais dormidas, trabalhos em finais de semana, estresses, baixa remuneração, frustações profissionais tudo isso numa única profissão. Agora pare de imaginar, afinal o quadro apresentado acima é o retrato da realidade docente em dezenas de lares brasileiros, em que as pessoas escolheram serem professores. De pedreiro a Uber, de catadores de latinha a agentes de saúde. Os profissionais do magistério brasileiro fazem verdadeiros malabarismos para sobreviver com o salário de professor. A última edição da revista Nova Escola (nº 318) evidência essas realidades que atestam que o Brasil trata mal seus professores, sobretudo aqueles que atuam na educação básica.

O ano letivo vai começar, centenas de professores voltaram para suas rotinas. Muitos se desdobraram em três turnos nessas escolas, para terem uma renda mínima que lhes permitam sobreviver apenas da profissão. Mas nem todos… No Brasil 29% dos professores complementam a renda com uma atividade extra. O país paga mal seus professores. E o quadro futuro não aponta para sinais de mudanças.

O discurso propalado pelo novo presidente da república e de seus “especialistas” é de que o professor brasileiro é mal intencionado e inimigo da educação. Para o Governo Federal os docentes brasileiros vão à escola para ensinar “marxismo cultural”, “ideologia de gênero” e “gramscianismo” aos estudantes. Atuo na educação como professor há mais de 8 anos, e posso assegurar-lhes que nas mais de 10 escolas em que eu atuei, jamais ouvir sequer falar dessas temáticas. A maioria dos professores brasileiros desconhecem esses temas e não possuem leitura suficiente para se imiscuir nesses assuntos.

O que observamos na verdade é que faltam diretrizes, políticas públicas de fato na educação brasileira, por parte de todos os governos, independente da matriz ideológica. No caso em questão o governo se comporta como Dom Quixote de La Mancha, luta contra moinhos de ventos e fala para todos que são dragões. Camufla a falta de competência e entendimento sobre o assunto numa verborragia tacanha e ignóbil que evidência a falta de compromisso com a educação e os professores brasileiros.

Pagar um salário digno aos docentes é uma maneira de dizer: a educação é prioridade. Um poema belíssimo, da poetisa portuguesa Sophia de Mello, chamado “O rei de Ítaca” nos ajuda a refletir sobre a situação do professor brasileiro:

“A civilização em que estamos é tão errada que

Nela o pensamento se desligou da mão,

Ulisses rei de Ítaca carpinteirou seu barco,

E gabava-se também de saber conduzir

Num campo a direito o sulco do arado.”

A autora nos faz pensar sobre o nosso salário de professores, o ordenado que o Brasil nos paga. À medida que a civilização ocidental separou o pensamento da mão, o país separou a educação do professor. É como se nos dissesse: faremos educação escolar, todavia sem se preocupar com o docente. O resultado é estarrecedor. Junta-se aos baixos salários, a má formação a nível de graduação, bem como condições precárias de ensino, falta de incentivo a carreira e a formação continuada e agora a cereja do bolo, o patrulhamento ideológico. Isso precisa mudar, e a mudança só virá com a consciência de classe. A classe docente padece com o processo de divisão social do trabalho, que fragmenta nossa formação e nos tira a compreensão do todo. Falta unidade e identidade de classe ao professorado brasileiro. União deve ser a palavra de ordem, pois com união e consciência de classe, que se adquira nas lutas, nas formações continuadas, nas leituras críticas da realidade que nos cercam, nós poderemos romper com a letargia e passividade de muitos diante dos inúmeros desafios. Pois “quem não se movimenta, não sente as correntes que o prendem” Rosa Luxemburgo.

*É professor da rede municipal de ensino de Anápolis e colunista do Cartas Proféticas.

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