dificil professor

O esgotamento docente e a flecha da tranquilidade

Edergênio Vieira*

O filósofo Friedrich Nietzsche possui obras clássicas que marcaram e influenciam o chamado pensamento ocidental. Lugar de uma escrita densa e de difícil compreensão, porque Nietzsche é um filósofo poeta, as obras do alemão se inscrevem numa leitura indispensável para os dias atuais. Ler o pensador do martelo é fugir do óbvio e da superficialidade tão presente em plataformas digitais e, onde parafraseando Humberto Eco, os imbecis ganharam voz.

Mas esse exíguo excerto não versará linhas sobre o autor de A Gaia Ciência entre outras. Nietzsche também era adepto de aforismos, que são quaisquer formas de expressão sucinta de um pensamento moral. Do grego “aphorismus”, que significa “definição breve”, “sentença”. Uso um aforismo do alemão para introduzir o fio que move-me a escrever essas linhas: A vida vai ficando cada vez mais dura perto do topo.

Com a devida vênia, caro bigodudo, quero alterar o presente aforismo: A vida do professor vai ficando cada vez mais dura perto de julho.

O que nós, docentes, constatamos na pele, na mente e no corpo, ganhou caráter científico, a partir da divulgação no início deste mês da pesquisa, Políticas Eficazes para Professores: Compreensões do PISA, publicado nesta segunda-feira pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Salas lotadas, carga horária excessiva, jornadas triplas, pouco ou quase nenhum reconhecimento provocam o que o estudo define como esgotamento do professor brasileiro.

A percepção da pesquisa é a narrativa que enfrentamos e observamos recrudescer ao aproximarmos do mês de julho. O peso dos meses pesa, com o perdão da redundância, nos ombros dos docentes, tudo isso fruto da indisciplina tão recorrente em sala de aula, a quantidade enorme de demandas por parte de órgãos de gerenciamento do sistema, que cobram diários, provas, lançamentos de notas, entrega de planos de aulas com mais de 24 páginas por semana… Antes que os incautos digam “mas você estudou para isso…”, “essa foi a profissão que você escolheu”, “você sabia que era assim antes de entrar”, “vocês têm ‘duas férias’ por ano”, e outros impropérios que denotam profundo desconhecimento de causa. É preciso dizer que o sentido educacional se perde nesse processo de esgotamento do docente à medida que a reflexão, tão cara e indispensável ao fazer educador, dá lugar a reclamação e a auto comiseração.

O estudo da OCDE aponta que, tudo aquilo evidenciado acima, provoca a percepção de que ser professor no Brasil é uma péssima escolha profissional. No país, pasmem, mas apenas pouco mais de 10% dos professores acham que a profissão é valorizada pela sociedade. Isto é reflexo de políticas desastrosas de governos de todos os matizes ideológicas, da formação ofertada na universidade, da sociedade e mais ainda de nós mesmos professores que muitas das vezes somos omissos e preferimos o silêncio à criticidade especialmente em momentos como reuniões pedagógicas ou mesmo encontro com prefeitos e secretários de educação, onde o que prevalece são sorrisos e tapinhas nas costas. É preciso divulgar e problematizar estudos como esses que evidenciam que, ou nos empoderamos enquanto categoria, ou morreremos esgotados.

A qualificação profissional foi outro item problematizado pela pesquisa, que coloca o professor brasileiro como um dos menos especializados do mundo. Menos de 15% dos docentes tupiniquins têm especialização em suas áreas de atuação. Aliado a uma formação inicial precária, ao despotismo de gestões, nada democráticas, em que o assédio moral e a opressão reina, temos o prato perfeito para o processo de alienação do professor que, como canta Lulu Santos na bela canção Certas Coisas: “Aceita tudo” calado, Como quem ouve uma sinfonia.”

É preciso reduzir o tamanho da sala de aula e aliviar a carga horária de ensino do professor, ampliando dessa forma o tempo que ele passa preparando aulas, em orientação pedagógica (tutoria) ou atividades de desenvolvimento profissional. E, para isso, uma solução seria aumentar o número de professores, com um maior cuidado na formação inicial. Além disso, formatar classes menores que permitam que o professor se focalize mais nas necessidades individuais dos estudantes. Não precisa inventar a roda, é preciso lembrar acima de tudo que, educação é processo e não produto, portanto nunca estará acabada… E, como diz o filósofo alemão, “Não é possível estar calado e permanecer tranquilo, senão quando se têm flechas no arco; quando não é assim, questiona-se e discute-se.”

 *É professor na Rede Municipal de Ensino de Anápolis.

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