Povo julga

O juízo final chegou e derruba máscaras

Amiga Tania Rezende, Goiânia, GO

Relendo a alegoria de Mateus 25, 31-46, escrita numa linguagem cataclismática, percebo que o autor desse evangelho descreve o Juízo Final como separação “impiedosa” e dolorosa, sob critério de julgamento imposto que aos justos e injustos, os solidários com os pobres e oprimidos,  para um lado e os que esnobaram ou foram alheios aos sofrimentos, para o lado do inferno e do ranger de dentes eterno e sem piedade.

A maioria dos comentaristas e estudiosos analisa que essa situação tão acre e dura retratou-se no evangelho por influência da invasão de Jerusalém pelas tropas militares romanas, no ano 70 de nossa era, que derrubaram o templo de Salomão com as patas de poderosos cavalos de guerra, incendiando-o e matando mais de 70 sacerdotes que resistiam ao domínio do império de Roma. Para esse capítulo matiano deu-se um verdadeiro fim daquele mundo. A partir daqueles eventos o mundo não foi mais o mesmo.

Hoje em nosso mundo e no Brasil parece vivermos situação semelhante. Os meios termos, as máscaras, as poses de bons meninos e boas meninas não funcionam mais. Traços de neutralidade e muristas – posição falsa e mesquinha, como escrevi aqui – se esboroam ao ar, impulsionados  pelos choques fortes diante da realidade sem disfarces.

Até há pouco tempo a política de conciliação e de boa vizinhança, a mesma chamada de “todo mundo ganha”, parecia reinar sobre todos, numa falsa paz, dando a impressão de que os problemas todos se resolveram.

Hoje vivemos clima de confronto, de quase guerra, de separação brutal entre ovelhas e cabritos. Os que pareciam nossos amigos na verdade escondiam seu ódio e repulsa sob máscara e cinismo . Os que pareciam retraídos e quietos se mostram posicionados contra o golpe e os mafiosos que nos assaltam e traem.

São tempos duros, todavia criativos. A honestidade e os bons sentimentos pedem passagem, mas também racionalidade e prudência.

Os derrotados de antes ocupam espaços, mas sua vitória é de Pirro, e seus ídolos não param sobre os pés de barro. Os derrotados de agora lutam pela retomada do poder, ainda que este, antes, fosse mais usado perifericamente do que realmente, apoiando-se no alarido das denúncias e juízos marginais ao judiciário, ocupado por gangues burguesas.

O juízo final inflige a separação conflitiva entre ovelhas e cabritos sem reserva privilegiada de espaços, como ocorreu durante a ditadura imperialista-civil-militar, mal conceituada pelo seriado da Globo denominado “Os dias eram assim”.

Desde o Congresso Nacional, as redes sociais – menos a mídia que mascara e seleciona a realidade insuflando os “inocentes” e manipulados com suas mentiras – as igrejas, as famílias, os bares, as ruas, tudo, é tomado pelo juízo final, que aciona conflitos, por um lado sublinhados pelo ódio, pelo o outro,  de paixões, umas com traços de verdade,  outras por ouvir dizer.

O clima apocalítico reinante no Brasil e no planeta é de término de um sistema e o conflito aponta para o fim de certo mundo.

O fato é que os “meios termos” no discurso e nas atitudes desaparecem cada vez mais. Todos somos chamados a tomar posição, mesmo empurrados pelo sabor de juízo final.

Sem dúvidas, um dos lados vencerá. A vitória será a do que reunir mais pessoas sobre a verdade representativa da realidade e sobre a justeza de posições.

O lado vitorioso, diferentemente da alegoria evangélica, o será contendo conceitos negociados e sintetizados com as percepções dos que os dois polos pensam.

Seremos convocados a negociar. A negociação, porém, se definirá sólida na medida em que contemplar os desejos, as necessidades e clamores profundos da maioria injustiçada.

As bases desse juízo não se centram nem no judiciário nem no parlamento nem nos executivos nem nos aparelhos tradicionais como igrejas, famílias, mídia, empresas e sindicatos.

Os alicerces para o entendimento nesse juízo final se dará nas ruas, na mobilização popular. O “paraíso” se efetivará se a maioria popular, econômica e política convergir para unidade a partir da salvação nacional, mandando os cabritos imperialistas e seus lacaios colaboradores para as chamas do inferno.

Nesse momento podemos e devemos ser acalorados no debate, mas buscarmos o diálogo construtivo e indicativo desses alicerces convergentes.

No Brasil somos todos irmãos, sem a falsa e mentirosa divisão entre “classe média” e classe trabalhadora. Nessa perspectiva, não há divisões de essência.

As pequenas divergências são apenas emocionais e de caráter psicológico, sem nenhum peso significativo.

Calar diante dos palavreados vazios e secundários é sinal de sabedoria. Sabermos estudar, ler e nos prepararmos para o grande momento de decisão, que não tardará – dia 28 de abril será uma das grades demonstrações deste juízo final, dia 03 de maio, também – é sinal de humildade e de inteligência.

A única atitude inaceitável é a feita de covardia, de alienação, de omissão e de ódio.

No juízo final somos peneirados, os que são justos na eliminação de discriminações, de opressões e de injustiças vencerão!

O peneiramento não se dará sobre romantismos nem sobre desejos individuais. Dar-se-á a partir da luta que liberta e resgata a dignidade dos que sempre foram excluídos e preteridos pelos poderosos e seus ajudantes.

Clique aqui para acessar e se inscrever no Canal CRP no You Tube.  E aqui para curtir nossa página no Facebook.  Também acesse essa página para conhecer nossos serviços e para colaborar.

  • Abraços críticos e fraternos na luta pela justiça e pela paz sociais.
  • Dom Orvandil, OSF: bispo cabano, farrapo e republicano, presidente da Ibrapaz, bispo da  Diocese Anglicana Centro Oeste e professor universitário, trabalhando duro sem explorar ninguém.
Compartilhar:



Responder

Seu email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *.
Os comentários expressam a opinião de seus autores e por ela são responsáveis e não a do Cartas Proféticas.