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O Lugar da Cultura Popular em Anápolis

Edergênio Vieira*

“Quem é incapaz de construir hipóteses jamais será cientista.“ —  Antonio Gramsci

A reprodutibilidade técnica como bem advertiu Benjamin, causaria um profundo mal-estar na humanidade, e na obra de arte. Benjamin tentou advertir que a falta de elementos de valorização ritualística de forma tradicional, provocaria na arte, uma perda da sua “aura”, ligada ao hic et nunc, tirado por meio da reprodutibilidade técnica, aquilo que o artista cria, atenderia não mais ao momento e sim com vistas a perda de sua unicidade. Esta é uma perspectiva materialista de arte, desenvolvida por aquele que contribui imensamente ao mundo científico por meio da escola de Frankfurt. 

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Quando falamos de arte obviamente pensamos em cultura. Cultura é sem dúvidas um dos conceitos mais ininteligíveis que exista. Ainda assim me aventuro tal como Homero, no intuito de pensar um olhar progressista, de esquerda à cultura popular anapolina. Quais são os elementos necessários para se pensar e debater cultura popular em Anápolis? Como garantir um lugar à cultura não hegemônica, em disputa com a erudita?

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Vou sustentar meu discurso na definição paradigmática de Boaventura de Souza Santos e seu eco-socialismo, e também em Marx, Chauí e Gramsci. Uma cultura que reconhece o valor das culturas europeias, em suas múltiplas representações, e também uma cultura do Sul, dos Incas, dos Nativos, da África, da Índia, enfim de toda a história da humanidade, assim é em linhas gerais o eco-socialismo.

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A palavra cultura vem do Latim Colere, tendo relação com cultivar. Então, cultura era usada para se referir as relações com os animais, rios, às árvores e às plantas. Daí a nossa palavra “agricultura” com o sentido de cultivar algo. Cultura também era a palavra que se utilizava para se referir ao culto aos deuses. Então, cultura era também alimentar o espírito por meio de rituais simbólicos, tendo como elemento de conexão o semiótico, expresso sobretudo no signo linguístico como bem conceituou Saussure. 

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A antropologia, infelizmente,  se guiou por um caminho equivocado, porque essa optou por recortes que deram a ideia de que haveria civilizações mais avançadas que outras, configurando assim tipos de culturas. Então o “nível de desenvolvimento” de uma civilização a colocaria num pedestal de cultura avançada em oposição a culturas bárbaras ou primitivas. Esse recorte de cultura, a partir do século XVIII,  permitiu a percepção dos seres humanos como seres históricos, definidos em consonância com aquelas premissas. Então, a cultura reconhecida será cultura europeia, sendo que o que não for eurocêntrico será primitivo. Essas transposições nascem antes do advento do capitalismo, e se concretiza nesse. Uma dicotomia que separaria a cultura (erudita) letrada, assentada no modelo europeu de uma cultura que só existiria a partir de noções como Estado, sociedades alfabéticas, instituições sociais como universidades e escolas. Em oposição a cultura (primitiva) popular que não possuía  organizações sociais sistematizadas, uma valorização por parte desses povos de cultura oral, transmitida entre as gerações, sociedades ágrafas, mistificadas e ritualísticas  em contraposição ao positivismo europeu. 

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É preciso ampliar o nosso conceito de cultura para além disso e pensar cultura como uma criação coletiva dos movimentos do homo sapiens na Terra por meio do trabalho, música, dança, vestuário, culinária, língua, formas de cultos, modos de falar, modos de organização política, práticas de apropriação e negociação dos elementos da natureza e do universo. O homem para além da espécie biológica é um ser cultural.

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Em Anápolis a cultura não pode ser um privilégio de classes. Não podemos aceitar uma cultura da elite, reconhecida e prestigiada, em oposição a cultura popular, que será relegada a manifestações folclóricas. A constituição histórica do município de Anápolis que recebeu leva de imigrantes de todo o mundo, é propicia a não existências de fronteiras entre as culturas do povo anapolino. Uma cultura híbrida ratificada na existência de políticas públicas que respeitem e incentivem o múltiplo, o diverso. É preciso garantir espaços, equipamentos públicos para que sejam expressos artisticamente todas as manifestações culturais. Seja uma galeria de artes, um teatro magnífico, um cinema, um museu, uma pinacoteca e também uma belíssima lona de circo, um belo espaço para as manifestações da arte de rua, um teatro de arena, um planetário enfim, como forma de garantir todos as manifestações da cultura brasileira.

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Obvio que é utópico pensar assim, o terreno da cultura é também o lugar da luta de classes. Marx pensa a cultura como uma práxis social de classes sociais contraditórias, nas relações pré-estabelecidas pela condição material da produção e reprodução da existência, logo, da história da luta de classes. Não há um radicalismo em defender a hegemonia de uma cultura popular, mas também não sou inocente de acreditar que as classes dominantes vão aceitar minha cultura. Talvez aceitem, para transformá-la, de cultura popular em cultura de massas abjetas, com vista a alienação social, histórica e cultural. Nosso desafio é garantir a contradição da cultura popular com a cultura erudita e constantemente negociar as fronteiras e os espaços no processo dialético. Esse é um dos debates necessários para se pensar uma cultura de “esquerda” no município de Anápolis.  

*É mestrando em Linguagem e Tecnologia pela UEG, Colunista do Cartas Proféticas.

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