karl_marx

O mundo novo que pede passagem exige uma troca da “vontade de poder” pela “vontade de serviço”

  • A sua solidariedade ao Cartas Proféticas é absolutamente fundamental para a manutenção e à renovação de equipamentos. Reforce-a com seus contatos e amig@s: http://cartasprofeticas.org/colabore.

Acesse também e compartilhe o Canal Espiritualidade Revolucionária: https://www.youtube.com/channel/UC9WX….

Daniel da Costa*


Karl Marx avançou no sentido civilizatório humano, quando superou o sentido do universalismo liberal burguês mantido pela diplomacia liberal hipócrita tradicional do Ocidente. Um universalismo baseado em certo “nacionalismo para a guerra”. Marx apontou outra saída, propondo o sentido da universalidade da condição humana em sua dimensão realmente mais ampla do que o nacionalismo e que se expressa como “homo faber” (homem que fabrica). Ou seja, para Marx, o internacionalismo passou a se pautar sobre a condição de todo trabalhador sobre a face da terra. Já que todo trabalhador é artífice de todos os produtos sociais e culturais que possibilitam a existência na vida em sociedade: ou seja, a própria sociedade e a cultura. Daí o “trabalhador”, enquanto tal, para Marx, é o verdadeiro cidadão do mundo já que porta esta condição universal de produtor da vida social!

Todavia, mesmo este avanço de Marx deve ser recolocado em bases mais amplas e mais profundas. Tirando das mãos do estruturalismo sociológico oportunista (dominado pelo racionalismo burguês do século XIX) o domínio de fala sobre o sentido e significado real da condição humana que deve embasar um universalismo mais concreto, e, portanto, menos submetido ao reducionismo do estruturalismo sociológico herdado do século XIX.

Fato é que este estruturalismo sociológico acabou viciando a tese de Marx e comprometendo o caminho de avanço para um universalismo que ainda está por se fazer e que não se reduz e não se limita ao estruturalismo sociológico. Frente a isso, a situação do mundo atual, em que movimentos migratórios gigantescos, dentro de países e entre países, estão acontecendo por causa de políticas liberais que ainda apostam na guerra de todos contra todos como o sentido da vida em sociedade, não será resolvida por meio de construtos sociológicos estruturais formais sem que uma real consciência de responsabilidade cidadã e política seja despertada nos países, nos agentes públicos e nas pessoas.

Frente a esta realidade, a condição “homo faber” no mundo atual, que sustenta a tese de Marx do século XIX, se encontra comprometida por causa da falta de emprego nas metrópoles; só que hoje com o agravante da criação, por parte do capitalismo atual rentista, de vários expedientes para desconsiderar, nos níveis representativos e do enfrentamento político e institucional nas próprias sociedades liberais e suas instituições, o chamado “exército de reserva” que, no século XIX de Marx, século sedento por produção ao mesmo tempo que aumento da capitalismo industrial produtivo, era contingente humano que poderia se transformar em “massa crítica”.

Esta possibilidade de uma massa crítica formada pela classe trabalhadora consciente de si, hoje, se desfaz por causa do êxodo rural em massa que ocorre no mundo e que solapa, na base, o mínimo de enraizamento social que um ser humano precisa para construir-se como uma pessoa, uma identidade humana. Assim, se o nacionalismo por um lado serviu à ideologia liberal da guerra, por outro, é o que possibilita ao ser humano as bases mínimas para que este construa sua identidade primária numa entidade nacional de comunidade linguística e cultural. Isso até alcançar níveis de autoconsciência de si mais profundo: como a consciência de classe e ir além.

Além desse impedimento de mobilização de uma massa crítica, há a volta ao trabalho escravo e precarizado sem seguridade alguma do início da era industrial. A desarticulação das representatividades políticas e sociais da classe trabalhadora. A criminalização dos movimentos de reivindicação dos trabalhadores. A manutenção de um mercado de consumo de bens de uso produzidos inter-países globalizados que não respeitam a “dignidade humana do trabalhador” e nem a regulação mínima sobre suas atividades economicamente irracionais e destrutivas que os países liberais mantêm. A manutenção do esquema liberal tradicional capitalista de “produção-consumo” fora dos eixos que destruirá o meio ambiente até impossibilitar a continuidade da vida biológica no planeta Terra (vida biológica inteligente tal como a conhecemos). Esquema tresloucado de “produção-consumo” fora dos eixos não em vista das necessidades reais de um consumo humano racional. O aumento do uso de TIs e da robótica na substituição de mão de obra humana sem compensação à classe trabalhadora (já que as ciências (as teorias científicas) que embasam e possibilitaram o surgimento das Tis e a robótica são patrimônio público humano universal e não propriedade privada. A resistência dos capitalistas em não diminuir as horas de trabalho sem perda salarial para o trabalhador (poder aquisitivo por parte da classe trabalhadora), que é a que produz riqueza e bens: a própria cultura. Enfim, coroando este cenário, pelo emburguesamento da classe trabalhadora que, sem consciência de quem é, assume o individualismo competitivo liberal que a destruirá totalmente, no nível da vida individual e coletiva.

Diante dessa situação, é preciso que mulheres e homens racionais e comprometidos com a justiça e a verdade sejam capazes de se unir para formular uma saída democrática formal (não liberal) a fim de que, a partir desta saída inicial, deste ponto de partida, novas possibilidades (a partir das experiências concretas e específicas de cada unidade sócio cultural tocada por esta mudança) sejam aventadas para a geração de um mundo novo, baseado nos valores ligados à dimensão da “singularidade” (respeito à dignidade da pessoa humana singular) e à dimensão da vida “comunitária ou associativa”: vida relacional e cooperadora. Estes valores, por sua vez, fundados nos valores de caráter geral que integrarão o novo universalismo concreto (internacionalismo de cada ser humano, de cada pessoa per si) pautado em um formalismo institucional não liberal: a solidariedade, a fraternidade, a justiça e a paz. Pois serão sobre estes valores que a tão propalada, e vilipendiada pela mentira liberal há 300 anos, “liberdade” se tornará realmente uma realidade para a humanidade. Para isso: “É preciso libertar a liberdade da ideologia liberal.” E criarmos um mundo em que a vontade de poder seja substituída pela vontade de serviço. Ou a humanidade faz isso, ou todos, sem exceção, pereceremos. 

* Bacharel, licenciado, mestre e doutor em filosofia pela USP; bacharel em teologia pela Faculdade Teológica Batista de SP; pedagogo licenciado pela FALC; autor de artigos de filosofia em veículos especializados e livros coletânea; autor do livro *O cristianismo ateu de Pierre Thevenaz* (no prelo); tradutor de mais de trinta livros nas áreas de filosofia, ciências da religião, ciências humanas e teologia; músico profissional (guitarrista) e jornalista. Colunista do Cartas Proféticas.

Compartilhar
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  

Um comentário

  1. […] – O mundo novo que pede passagem exige uma troca da “vontade de poder” pela “vontade de serv… […]

Deixe um Comentário

Você precisa fazer o login para publicar um comentário.