negros libertários

O negro e o movimento libertário no Brasil (II)

Aos negros não é negada apenas a importante dignidade no trato que deve ser reservada a qualquer ser humano. Passo adiante, a violência que os atinge alcança até mesmo a oportunidade de sobrevivência em uma sociedade caucasiano-neoliberal cuja discriminação mobiliza o aspecto racial como massa de manobra de forças irracionais, assim aglutinando forças políticas para justificar a alocação de recursos econômicos em favor da elite, em ampla desconsideração das necessidades básicas do enorme coletivo empobrecido em um país como o Brasil, composto majoritariamente por negros. As riquezas produzidas por milhões de negros pobres não regressam a eles sequer para cobrir as necessidades mais elementares da vida humana, levados a buscar a sobrevivência entre rejeitos e dejetos, expostos à intempérie e sem acesso à saúde nem a segurança, mas ao aparato coercitivo do Estado treinado para reconhecer em sua cor de pele o sinal da culpa.

O amplíssimo coletivo de homens e mulheres negros é considerado como descartável pelo sistema econômico caucasiano-neoliberal, é vítima da confiscação da verdade por parte da retórica econômica com cobertura adocicada do juridiquês aristocrático, rococó e vazio, que assim concretiza uma nova forma de escravidão temperada pela sedutora mídia que oscila entre viabilizar o regime neoescravocrata ao tempo em que elimina de sua empresa quem ouse expressar à céu aberto o que apenas pode correr no esgoto empresarial desde onde pulsa o real vigor que move as forças econômicas da empresa bem conhecida.

Quão degradantes são as misérias e falsificações que o sistema pode ocultar tão eficientemente de homens e mulheres, de quantos atrozes vilipêndios são capazes os coordenadores da política econômica caucasiana-neoliberal, sem hesitar cobri-la com maus perfumes que logo são vencidos pelo odor que precisam ocultar. Entra em ação a persuasão midiática para traduzir o inaceitável em incompreensível para o humano em algo palatável sob o signo da promessa da redenção através da miséria presente. É reerguida a teologia, mas agora em sua versão econômico-midiática, produtora de intensas misérias e horrores, trazendo consigo tão intensa dose de pavor que inadvertidamente acarreta os perigosos poderes da massiva revolta.

Os editores da realidade pretendem obstaculizar a sua transformação. A massa popular pode antever os termos da realidade para agir sobre o futuro, que em nenhum caso é história já posta e desenhada, mas é sempre uma disponibilidade todavia por vir e, assim, a grande massa precisa estar ciente de que os rios do Mississippi enfrentados por Huck Finn e Jim são sempre muito mais promissores do que a servidão garantida a ser imposta nas grandes fazendas. Desentender-se disto é mais do que descaso e subjugação, é perda do autorrespeito, é corromper a própria dignidade, pois morre quem se dobra e não resiste ao mal, e também agir como descosedores do porvir que garante a aspiração daqueles que almejam construir mil Alabamas ou cem mil Charlotesville e seus embates escravocratas.

As muitas dores que percorre(ra)m os campos das Américas foram conhecidas pelos homens que atravessaram os mares em porões, enfrentando o alto-mar reduzidos a res, e sob o balanço das ondas e a pressão imposta pelos grilhões e as péssimas condições fez com que muitos sucumbissem. Alcançada a terra firme, novos grilhões e novas violências, e a sempre renovada dor, sem descontar a criatividade para a comissão do mal. Abolida a escravidão, não a acompanhou este desejo de subjugação e a aspiração caucasiana de manter privilégios à custa do sofrimento alheio. A emersão e consolidação do capitalismo manteve estruturas e relações típicas de um mundo escravocrata, e a sociedade brasileira bem traduz o cenário que Wacquant descreveu como busca da eficiência e do êxito, constituídos de forma intensa através da disseminação da cultura de feroz competição capitalista mundo afora.

A única aventura da qual não vale a pena abrir mão é a das liberdades, individuais e coletivas, e por isto mesmo é a única interditada em face dos frutos que pode render, virtualmente hipotecadores das melhores expectativas de manutenção das relações de dominação das grandes massas depauperadas, que são os atores principais, e não meros coadjuvantes, e por isto mesmo se procura eliminar a sua centralidade. A aventura é realizar a ideologia da massa liberta, para além do ranço e do racismo – cujo papel contemporâneo é bastante bem destacado por Étienne Balibar –, do burdo homem em face do milagre da solidária libertação através da conexão das almas e das massas negras. É preciso menos vontade da verdade do que da misericórdia, da crença em si mesmo tão intensamente quanto da imperiosa solidariedade com os demais e da priorização da realização do humano, de que os estereótipos cedam espaço a tipos e figuras constituídas com o rosto e a face do diálogo sem o temor de que as condições para tanto precisem ser as do enfrentamento aos tacões mais vis, única via para estreitar os limites radicais da imposição da violência.

Será preciso que ecoe o grito do texto de um Lima Barreto, liberto do impensável, rompedor dos grilhões mais bem forjados a partir do aço mais puro? Será este o arco de força sonoro capaz de iluminar e rebentar a falsidade da retórica sobre a estrutura meritocrática da sociedade caucasiana? Se for, a lança apontará com força para o futuro multicolorido. Serão as figuras da mente e das linhas barretianas que recriarão e habitarão um novo universo em que apenas a grandiloquência idealista sobreviverá ante o decréscimo da coragem e a ousadia da vergonhosa ilimitação da capacidade da cultura do ódio, pois ante a prisão momentosa pouco mais há que nos liberte senão a força da imaginação aliada à ação.

O Brasil precisa encontrar Machado de Assis antes de tornar-se ele próprio uma especular e nefasta sombra caucasiana, unificando-se pluralmente sob a égide da liberdade democrática. A identidade nacional é machadiana tanto quanto barretiana, está no carioca Caís do Valongo, onde eternamente dormem fraturados corpos de homens e mulheres, mas ainda gemem esperanças, por mais intensamente que tentem sufocá-las e aterrá-las com a edificação do Cais da Imperatriz ocorrida no século XIX, pois, como tudo, hoje e ontem, a natureza regressa, a verdade emerge, e logo cobra a sua força.

O horizonte se fecha quando o presente cerca e interdita o humano. Mas nada disto é possível quando os dias se põem, eis que, como descrevia Machado de Assis, “Dois horizontes fecham nossa vida / Um horizonte, — a saudade / Do que não há de voltar; / Outro horizonte, — a esperança / Dos tempos que hão de chegar; / No presente, — sempre escuro, — / Vive a alma ambiciosa / Na ilusão voluptuosa / Do passado e do futuro. Não há interdições eternas nem inexoráveis futuros auspiciosos quando não sejam mediados pela ação cuidadosa, diligente e audaciosa a partir de uma perspectiva integrada do conjunto de seus atores que transitarão a ponte do tacão presente para o futuro auspicioso quando cruzarem com destemor a ponte concretizada através de suas ações corajosas. A tardança em constituir o Brasil à semelhança de sua negritude corporal e cultural está expressa nas instituições e nos abusos coordenados pelos principais atores jurídicos e políticos contra a massa. A ilusão voluptuosa machadiana ao projetar-se sobre o futuro pode acender a esperança na ação presente, reunindo o disperso, acelerando a emersão da grande nacionalidade brasileira e as suas vias de real desenvolvimento que cortam e perpassam o econômico para consagrar o humano em desfavor da vilania antipolítica e antipopular neoliberal-caucasiana.

As políticas antipopulares massacram a democracia compreendida como maximização da capacidade de ação e intervenção pública em prol dos cidadãos. Com efeito, não é este o propósito da esfera política democrática, senão dos grupos de poderosos celerados que se apossam do poder que compreendem os pobres como meros sanguessugas, pesos e párias sociais, e não como articuladores e legitimadores de todas as políticas públicas. Deste modo, não raro, como sugere Wacquant, este coletivo social assim representado é associado aos negros, contra quem é mantido alto grau de ojeriza também pelos programas sociais elaborados em seu auxílio.

As vias reativas populares são múltiplas, mas em nenhum caso deixando de exigir ousadia. O Brasil precisa reconhecer Luís Gonzaga Pinto da Gama como espelho da capacidade de reunir as forças necessárias para advogar a causa da sua própria liberdade e patrocinar a abolição de seus contemporâneos, pois apenas assim é possível transitar do puro romantismo ao denso realismo através do idealismo. Saltar do cativeiro sem contar com espaços de apoio não é tarefa simples, mas necessário, contando com o recurso ao esforço sob o signo de Oxossi e a proteção de Ogum para favorecer e tornar menos árida a complexa e arriscada empreitada.

É preciso buscar a adequada compreensão das motivações presentes nas entrelinhas da fantasia e da luxúria inspiradora de obras concebidas no núcleo duro da vênus platinada que nega explicitamente a existência do racismo no Brasil. Esta é uma reverberação tardia da cultura de início do século XX brasileiro apoiadora do embranquecimento nacional como suposta fonte de promoção do progresso e do desenvolvimento nacional. Trama conservadora e autoritária na medida em que destinada a promover a subordinação brutal de muito mais do que a metade da população do país. A escravidão foi abolida, mas não as mentes dos senhores e de seus feitores, que todavia carregam os seus referenciais escravocratas, possuídos pela desejo irracional de possuir, dominar e arrasar o outro. Quem, quem libertará estes homens de si mesmos e a todos nós de suas tétricas projeções mundanas de imundas consequências?

Não precisamos ser póstumos para ser justos, nem contemporâneos para rechaçar ao bruto. É possível equivocar-se sobre o quanto a existência humana dá azo à brutalidade pela crueza da vilania consentida sem reação. Quem estiver à frente conhecerá a vista aterradora do inimigo que cobra o preço da resistência à emersão do novo e do justo, sendo suave a fronteira entre a normalidade e a hipocrisia alucinante capaz de retirar o humano de sua ordinária esfera de relações para recorrer a um mundo imaginário em que apenas o ilusório habita, sendo reconhecidos como socialmente convenientes os distúrbios mentais ou a pura demência. E assim é como sequestram a razão dos homens e os impelem a conviver com a periferia do mundo, expulsos da cidade, mas sob a clara visão de que foram vítimas da extirpação de si mesmos. Não ser andrajoso no mundo barbárico estaria mesmo a conviver fora de sua mais sã percepção.

A discriminação racial é uma das principais chaves que comprometem a consolidação e desenvolvimento das instituições democráticas na medida em que exclui massas cuja participação social é pressuposto material para a democracia. A discriminação racial ofusca e definitivamente compromete a raiz inclusiva que uma organização democrática supõe já à partida. As estratégias ofensivas à democracia são interessadamente ocultadas pelo mundo caucasiano neoliberal sob pretextos vários, especialmente as políticas de austeridade que reclamam a suposta “organização das finanças públicas”, mas que realmente operam em proteção do eixo sobre o qual gira a sua poderosa hélice de bilionária rotação conjugada com olímpico desprezo pelas massas de homens e mulheres. A antevisão da justiça social como estrutura indispensável para a estabilização coletiva está necessariamente perpassada pelo triunfo da justa composição e distribuição racial de riquezas, sem o que a máquina trituradora continuará a operar reiteradas vezes levando de roldão ademais de homens e mulheres também as mais fundadas esperanças de uma vida em liberdade.

É preciso reconhecer os nossos redivivos Valongos quando ainda é tempo de impedir-lhes, de obstaculizar a concretização vergonhosa de novos Cais da Imperatriz, destinados a defraudar as expectativas daqueles que objetivam falsificar o que a incansável memória um dia não apenas recordará como reverberará aos quatro ventos o profundo opróbrio contra os seus perpetradores. Evitar que se repitam as misérias, pois eis aqui uma das chaves da triste decepção do homem, memória que carrega de tantos corpos esmagados pela vilania, depressão conseguinte contra a qual já não podem acorrer eficientes medicinas. Mas o que dizer para o homem considerado “não pessoa”, senão, talvez, e como ânimo, recordar Machado de Assis: “Que cismas, homem? — Perdido / No mar das recordações, / Escuto um eco sentido / Das passadas ilusões. / Que buscas, homem? — Procuro, / Através da imensidade, / Ler a doce realidade / Das ilusões do futuro. / Dois horizontes fecham nossa vida”. Perdido o homem pode estar, temporalmente isolado de si e dos seus, obnubilado, mas definitivamente perdido nunca estará, pois a ilusão é sempre o eco da esperança nos dias mais sombrios, e o horizonte a ele e a todos sempre estará radiante e disponível ainda nos dias mais nebulosos quando a chama da esperança aqueça corações e mentes.

Não existirá mesmo chance para a democracia enquanto a exclusão seja a guia implícita, contraditando com a retórica inclusiva que é a nota afirmativa da democracia, pois tudo quanto vale neste mundo não são mesmo as letras, mas sim os fatos, as ações, cujo espaço é a empiria. Quem não antevê a tempestade efetivamente não mobiliza instrumentos para brecar as suas consequências nem minimizar os seus danos. Quem não sente o pavor dos tempos não dispõe de ânimo para a reação, mas ao infundir a esperança de dias melhores mobilizamos mesmo aos mais incautos, desesperançados e cegados pelo turbilhão e destempero dos dias correntes.

Roberto Bueno. Professor universitário.

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