resistência

O negro e o movimento libertário no País (I)

Não é apenas sobre negros e brancos ao que a urgência nos remete, mas também à perda da noção de que é efetivamente sobre humanos do que se trata, de seres vivos, pulsantes, dotados de uma profunda, rica e comum experiência humana que não raro é deslocada da centralidade da vida social por segmentos que oscilam entre a hipocrisia e a pura crueldade. É este o país do declarado caminho do bem que não se espanta nem reage ante o desprezo e a ofensa existencial do autodeclarado branco a um amplo coletivo negro, conjunto racial muito ocupado em reler a si mesmos como bons cidadãos distantes do racismo, espelhos (de péssima qualidade) de uma virtude aristocrática genuína, que apenas concede ao que creem ser a sua imagem, e assim reconhecem como virtuosos apenas aos que tenham a falsificada e malsinada alma branca.

Não, efetivamente, não se trata de raças, não é isto. Todos e cada um de nós não passamos de um rosto que expressa uma infinidade de lugares e também uma multidão incógnita que carrega consigo, algo oculta pela névoa da longa existência, e é por isto mesmo, que em face dos tantos perfis que carregamos, das tantas sombras e áreas cinzentas que nos compõe e (des)identificam que, portanto, o que realmente nunca importa é qualificar o outro como preto ou branco, se é que é possível dizer isto de alguém. Em nossas ruas o despautério é o que se vê, são mil Mark Twain sem faculdades literárias mínimas que repetem por aí à esmo que “aquele negro tinha alma de branco”. Assim emitem alto e bom som seus verbos-dinamite que implode negros, homens e mulheres, primeiro ferindo-os com estilhaços ferinos, que brotam de lugares inóspitos de almas em que parecem inexistir ou sequer poder habitar qualquer parte apodrecida de algum corpo nefasto. Estão soterrados em si mesmos.

A perspectiva do olhar atento que antecipa a tensão não a cria, mas sim a desenha ainda antes de que outros tantos homens desejem ver a realidade que habita ao seu lado. Durante séculos foi mesmo assim, e sem nenhuma chance, e os negros suportaram a ignomínia, a lembrança marcada pelo massacre continuado ao qual nenhuma raça ou povo foi jamais exposto. Nenhuma bela época nunca os alcançou, e tampouco conheceram os favores dos avanços científicos que a tantos beneficiou. Para a grande maioria dos negros, portanto, até hoje o sol não raiou. As políticas sociais que os alcançam são “causadoras de dependência”, mas os grandes favores ou os grandes perdões financeiros já não recebem a mesma avaliação, e assim, por exemplo, a ausência de cobrança dos grandes devedores do Estado que estimula continuadamente a evasão fiscal e a dependência de novos perdões, não, estes são absolutamente ocultados ou tolerados e em nenhum caso recriminados por não cumprir as suas obrigações e, reiteradas vezes, lesar o Erário público. Como recorda Wacquant, nos EUA havia uma consciência coletiva de que os “[…] pobres eran cada vez más «negros», y se les veía bajo una luz cada vez más hostil y terrorífica; se les consideraba irresponsables, inmorales y libertinos”. Similar o cenário de uma sociedade que estagnou na cultura escravocrata não combatida por diversos governos, e que assim manteve as condições para a eterna culpabilização de um coletivo da debilidade financeira pública, atribuindo-a continuamente aos pobres e miseráveis de um Estado sempre conduzido por brancos, milionários e autodeclarados católicos, aos quais, é certo, nem Francisco receberia nem perdoaria.

Mesmo em cenários de violência e opressão geral a força de alguns gênios rompeu as mais inóspitas barreiras e, ainda assim, não sem duras resistências atemporais. Difícil supor o que inspirou o Bruxo do Cosme Velho, o que poderia ter imaginado ali ao pé do Corcovado, bairro que ainda guarda a memória dos escravos que carregavam água para os seus proprietários e que logo materializaria sua memória física através dos Arcos da Lapa. Talvez do soar sofrido ecoando nas pedras, ou dos látigos, ou das sombras, mas também do jogo de luzes do sol, dali de um ângulo original, o bruxo tenha percebido o que apenas a sua pluma seria capaz de traduzir e poucos eram capazes de ver. Para os negros, até mesmo o sobreviver foi muito mais difícil do que para tantos, e mesmo a esperança era chama de complexa manutenção. Hoje ainda corre solta a voz até em poderosas antenas, e ecoa o que foi sempre voz alta nas senzalas e na casa-grande: é coisa de preto! Até quando um ser humano pode suportar sozinho a pressão cotidiana e ordinária de ser posto à prova e os seus valores humanos até a sua última raiz existencial? É coisa de preto!, ouve-se, uma e outra vez. A dúvida odiosa temperada por ironia barata sorri por trás das máscaras caucasianas tão deprimentes que não poderiam ter vez ou proximidade para vazar a infâmia que nos corrói a todos tão intensamente, pois mesmo aqueles que não o percebem claramente, sim, eles estão a escoar o que de melhor humano lhes resta em sua identidade quando desconstroem o outro.

A miséria nos reduz, e a miséria humana se projeta ainda mais intensamente quando alguém reitera os termos da discriminação que alimenta a rotina da mediocridade universal. Neste mundo Loïc Wacquant é claro quanto ao que é reservado aos negros, a saber, os detalhes do mundo hobbesiano em que o Estado não aparece como mediador e nem os socorre em suas necessidades mais prementes, senão que são atirados às feras, à própria sorte, por parte de uma elite aristocrática que desarticula o Estado social mas fortalece as instituições repressivo-penais. A culpa pelos maus resultados, pelos maus arranjos, pelos prejuízos, pelos danos ao patrimônio, pelas más escolhas, pelas más representações, pelo déficit no avanço da cultura caucasiana, em conjunto, são debitadas ao coletivo negro. Assim, tornam o mundo um lugar inóspito, hostil e vergonhosamente desafiador para um ser humano que precisa vencer outras muitas barreiras além daquelas que a existência naturalmente impõe a qualquer um que não tem de ver-se enfrentado com o primitivo sentimento nutrido por humanos colonizados pela cultura de tempos em que os dinossauros todavia habitavam o planeta. Este é o tempo histórico-cultural desde o qual o futuro verá a todos nós que neste momento manifestamos complacência com a discriminação de uma enorme massa humana.

A passionalidade é mobilizada como via indissociável das opções discriminatórias injustificáveis desde qualquer perspectiva elevadora da dignidade humana. A ação libertadora funciona contrariamente a partir da iniciativa de quem conhece intimamente o lado opressivo do cotidiano cuja máscara é eficiente apenas para o mundo caucasiano. Étienne Balibar ressalta que os procedimentos segregatórios e de apartheid são marcados por políticas e discursos de “[…] descalificación y de vigilancia [que] se combinan para limitar la participación política a los miembros de una “élite” o de una “comunidad dominante” […]. Esta elite (declaradamente) branca não apenas vigia como repreende e pune até mesmo os seus desertores que porventura atuem para reverter o status quo discriminatório. Precisamos retomar a aventura de Huckleberry Finn e o inefável Jim em sua aventura pelo Mississippi em fuga aberta do aprisionamento e de um mundo francamente hostil. Ambos fugiam de suas sombras aprisionadoras, respectivamente, o pai bêbado e a proprietária. A balsa em que ambos buscavam a liberdade era frágil, os perigos imensos, mas nunca superiores à certeza do cativeiro, pois ali, em meio a todos os temores, a esperança sobrevivia, mas nunca sob a crueldade mediada pela subjugação conduzida pelo temor à fuga. A odisseia de Huck Finn e Jim é o espelho da coragem para suplantar o reino da maldade político-econômica caucasiana que despreza e aprisiona uma massa de negros tratados como mera estatística.

Aprisionamentos, todos sob múltiplas formas discriminatórias, fato histórico não apenas no Brasil onde isto ocorre sob alternadas camuflagens, conforme as conveniências apresentadas nos diferentes momentos históricos. A realidade sob a qual a máscara opera em disfarce é imperceptível principalmente para que não deseja nem sente motivação para vê-la, para os brancos. Para os negros a violência da discriminação sempre recaiu de forma direta, cotidiana e ordinariamente, sem disfarces nem tergiversações: tudo muito franco e direto quanto inapelável e cruel. Dor na veia.

O que há de novo nestes dias em que até mesmo crianças de 4 anos de idade são vítimas do esgoto que corre nas veias de alguns humanos é a desinterdição do ódio como condutor da esfera política, e dentre esta dimensão de desinterdição emerge o fluxo contínuo do ódio como instrumento de interação social. Esta é a consolidação do bárbaro em um contexto em que a pele apenas pode servir como instrumento de mediação para as relações humanas no corpo e na mente da mediocridade pré-humana pré-civilizada, que ao parecer é tudo quanto evolui de forma incessante nos dias que correm. O universo negro feminino é colocado à parte.

Não, a elite é avessa à cultura nacional, pois estão com os olhos e a alma em Manhattan. Em nossas Universidades não há aqui reitores negros e aqueles que se levantam sofrerão dantescamente através da persecução judicial. Entre nós não há traços de justa sociedade meritocrática, cuja inversa realidade é patrocinada pelo mundo caucasiano-neoliberal que seleciona, e restringe, até mesmo os seus competidores. Não, não temos senão doses homeopáticas de professores negros ou mesmo arquitetos, médicos ou dentistas, fiscais federais ou CEO´s de grandes empresas, enquanto abundam trabalhadores braçais nas construções, posição social a qual as políticas econômicas adotadas punem de forma crudelíssima. Não, não temos senão escassíssimos promotores de justiça negros, e também não temos magistrados, senão que muitos ainda se permitem burlar da cultura predominante e a única que nos concederá a base certa e bem assentada para a democracia neste país. Mas não, não temos mesmo qualquer dose de racismo, quem poderia dizê-lo, quem poderia afirmá-lo? Não, não somos racistas, como diria um famoso redator da vênus platinada litorâneo-autoritária, como se não sofrêssemos sequer o risco de que este mal moral de implicações criminais atacasse as nossas sociedades. (segue).

Roberto Bueno. Professor universitário.

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Prof. Dr. Roberto Bueno
Graduação da Faculdade de Direito. Universidade Federal de Uberlândia
Pós-Graduação da Faculdade de Direito da UnB
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