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O que diz a carta de Frei Betto ao preso político Lula?

Frei Betto escreveu carta emocionada e emocionante ao presidiário político do nazifascista Sérgio Moro e do imperialismo.

Por ocasião de um ano da prisão injusta e sem provas de crime do ex presidente Lula Betto faz reflexão que interessa ao Brasil e ao povo brasileiro.

Um ponto é a história de prisões de lideranças trabalhadoras e sindicais, culminando na privação de liberdade do ex presidente durante da ditadura nazista do Brasil.

Essa experiência amarga e dura de perder a liberdade, o direito da privação da convivência com a família, com os amigos e com a classe trabalhadora, que o próprio Frei Betto experimentou quando foi torturado por assassinos que quase o mataram, é instrumento que a elite dominante sempre usou para intimidar a classe trabalhadora, primeiro os escravos e depois os que defendem a sede de justiça dos explorados pelo capitalismo.

Certamente isso habita a mente do frei. Lula é preso por defender o Brasil e por ser aliado profundo e solidário da classe operária.

Essa ferramenta usada pelo Estado burguês só cessará quando esse sistema for derrubado e substituído por relações justas e libertadoras dos trabalhadores, sem grades, sem ferrolhos, sem torturas, sem injustiças e punições sem provas, com o intuito de proteger os interesses mais mesquinhos e egoístas da oligarquia opressora.

Outro valor constante da carta de Frei Betto a Lula é a solidariedade, que falta na direita e no capitalismo, prenhe de concorrência fraticida. Entre os burgueses não há fraternidade nem cuidado, mas disputa à custa de puxação de tapetes, traições e até assassinatos.

Acordar o amigo Lula para apoiá-lo ante a chegada da polícia servil da ditadura, aguardar o retorno dele na casa em apoio aos seus familiares; rezar com o ex presidente no dia de sua prisão no sindicato dos metalúrgicos e as visitas ao amigo na masmorra de Curitiba, são atos de profunda solidariedade de quem de fato é cristão. Isso não existe nos ditos crentes fundamentalistas.

Mas ser crítico ao amigo e ao partido dele também é ato de profunda generosidade, altissonantemente faltante na direita. Sem rodeios, Betto disse em carta a Lula que “o PT não cuidou de promover a alfabetização política de nosso povo; descuidou do trabalho de base; deixou de punir com rigor desvios éticos; e jamais dominou o uso tático das redes digitais. Esse flanco vulnerável permitiu ao adversário centrar baterias no ataque ao partido, o que resultou no golpe de Temer contra Dilma e na eleição de Bolsonaro ao surfar na onda antipetista.”

Ser amigo é justamente exercer o dever da crítica que corrigi praticas e estratégias. Há quem diga que o PT jamais se corrigirá desses desvios graves. Não importa, é preciso alertar criticamente.

Generoso Betto conclama a que Lula não se cale, mas que a voz dele seja a de todos os que não têm direito de falar. Estimula o amigo a sonhar, mesmo no eremitério solitário da prisão.

A carta do escritor e teólogo, amigo de Lula, toca na ferida nacional da maior afronta aos direitos humanos e à democracia: a prisão de Lula para que os golpistas e traidores da pátria façam o serviço sujo de desorganizar nosso país e de matar o nosso povo.

Sugiro que esta carta seja copiada e multiplicada para debate, estudos e mergulho profundo nos bastidores desse grandioso texto.

É imprescindível que derrubemos as grades de todas as prisões e que libertemos nosso povo da alienação, da apatia e da fuga das responsabilidades diante da pátria atropelada.

Leia abaixo a carta de Frei Betto ao amigo Luiz Inácio Lula da Silva.

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Querido Lula,

Coincidiu eu estar junto a você nas datas de suas duas prisões. A primeira, em abril de 1980. Desde que se iniciara a greve metalúrgica no ABC paulista, e os líderes sindicais foram presos um a um, passei a permanecer em sua casa em apoio à família. Fui acordá-lo quando, às primeiras horas da manhã, os policiais da ditadura bateram à sua porta. Estive em sua casa até o dia de seu retorno do cárcere, um mês depois.

Em 2018, há um ano, ao escutar no rádio que a sua prisão fora decretada pelo juiz Sérgio Moro, fui ao seu encontro na sede do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo do Campo (SP), onde você dormia. De novo despertei-o e rezamos juntos.

Desde que você se encontra encarcerado em Curitiba, tive a oportunidade de visitá-lo duas vezes. A última, pouco antes do Natal. Levei a eucaristia e partilhamos o corpo e o sangue do Senhor.

Nas duas ocasiões, constatei o seu espírito forte, aguerrido. Como narrei a amigos, você se mantém a par do noticiário, lê muito, faz exercícios físicos, ouve música, assiste a programas de TV, de preferência, como me disse, na TV Aparecida: “gosto da missa das seis da tarde e dos programas de música sertaneja”.

Falei-lhe de minhas experiências de prisão. Aliás, descrita nos livros que lhe dei, como “Cartas da prisão” (Companhia das Letras) e “Diário de Fernando – nos cárceres da ditadura militar brasileira” (Rocco). O mais importante é evitar a contradição entre o corpo retido na cela e a mente, em sua incontrolável liberdade, aqui fora. Não se deixar possuir pela ânsia de liberdade a qualquer custo. Considerar o cárcere a sua normalidade, ainda que empenhe todo o seu esforço para recuperar a liberdade. E lembrar o que me disse: “Não troco minha dignidade pela liberdade”.

Mil condenações jamais haverão de sombrear o seu protagonismo na história do Brasil e a força de sua liderança popular. Quanto mais tentam esmagá-lo, mais você cresce. Em todo o mundo há mobilizações pró “Lula livre”. Ao proferir conferências no exterior e dedicá-las em sua homenagem, seu nome tem sido efusivamente aplaudido.

A prisão é um eremitério. Lugar de reflexão e aprofundamento. Sei que você tem aproveitado para avaliar acertos e equívocos dos 13 anos de governo do PT. Os acertos são sobejamente conhecidos. Basta comparar os dados sociais e econômicos dos governos Temer-Bolsonaro com os períodos Lula-Dilma. Não havia esse clima de animosidade, e até ódio, que hoje divide muitas famílias e separa amigos. Vivia-se com mais civilidade e sem ameaça à democracia. Não se precisava penhorar a democracia na conta dos militares, e eles estavam onde sempre deveriam estar – nos quartéis.

Contudo, o PT não cuidou de promover a alfabetização política de nosso povo; descuidou do trabalho de base; deixou de punir com rigor desvios éticos; e jamais dominou o uso tático das redes digitais. Esse flanco vulnerável permitiu ao adversário centrar baterias no ataque ao partido, o que resultou no golpe de Temer contra Dilma e na eleição de Bolsonaro ao surfar na onda antipetista.

Agora é hora de repensar a estratégia política. Fazer autocrítica, analisar por que não houve consistente reação popular à deposição de Dilma. Nunca fui militante partidário, mas julgo que é hora de o PT se reinventar. Reatar seus vínculos com os mais pobres e excluídos, fortalecer os movimentos sociais e, sobretudo, assumir desempenho propositivo, para que o povo brasileiro vislumbre uma saída democrática ao governo Bolsonaro.

Há que resgatar a esperança e a utopia. Não se manter refém de eleições periódicas, e sinalizar um projeto de Brasil capaz de tirar o nosso país do buraco em que se encontra, e mobilizar amplos setores nacionais frente ao desafio de reduzir drasticamente a desigualdade social.

Nada haverá de calá-lo, Lula. Mesmo quando a morte o surpreender. Faça sempre de sua voz a voz dos que não têm voz nem vez, impedidos de falar e atuar. Você representa milhões de brasileiros e brasileiras que não venderam a alma às mentiras virtuais e às infundadas acusações judiciais.

Como dizia nosso amigo Henfil, ainda que esmaguem uma flor, não haverão de deter a primavera.

Meu abraço fraterno.

Frei Betto

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