estado_laico

Os promotores da ideia subversiva de “Estado laico” (sem interferência de qualquer religião em particular) foram os cristãos primitivos dos 3 primeiros séculos, e não os liberais burgueses do século XVIII …

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Por Daniel da Costa*

O cristianismo primitivo é herdeiro da tradição espiritual de Israel. Em relação a esta, o cristianismo primitivo procura se manter em sintonia com a noção de “justiça de Iahve-Elohim” da tradição profética, que é uma noção de justiça concreta: justiça para com os pobres e excluídos da terra.

A tradição profética desde o profeta Elias e Isaías é a que vai manter essa linha principal de compreensão do que é justiça, até Jesus, o profeta de Nazaré, profeta da periferia. 

Todavia, com o cristianismo primitivo, essa exigência de justiça de Iahve-Elohim, constante na tradição judaica, se desprende de seus vínculos étnicos judaicos. Mas isso já constava de maneira explícita como exigência da vocação de Israel também nos profetas, como Jeremias, por ex., que exigia de Israel o cumprimento de sua vocação de arauto universal da justiça concreta de Iahve-Elohim a todos os povos, indistintamente.

No cristianismo primitivo, portanto, ela toma uma característica definitivamente UNIVERSAL: a mensagem do evangelho ( *notícia boa* para os pobres e excluídos da terra, aos doentes que precisam de “médico”) é de que a justiça chegou, e com ela a libertação já começou!

Segundo esta pretensão universalista  subversiva do cristianismo primitivo, em Jesus, o Cristo, Iahve-Elohim reconcilia consigo ( *ephapax* = de uma vez por todas) toda humanidade e toda a natureza. A justica de Iahve-Elohim alcança tudo que existe e promove a libertação de todas as coisas e seres de todo tipo de cativeiro e escravidão!

No cerne desta pretensiosa e ousada mensagem evangélica, a noção de justiça de Iahve-Elohim, definitivamente, se torna uma exigência de libertação em relação a todos os seres humanos e à própria natureza!

Ora,  no ambiente em que o cristianismo primitivo surgiu (dominado culturalmente pela cultura helênica e politicamente pelo Império Romano = Pax Romana) já havia proposta, no ambiente cultural da época, uma noção de universalidade … Esta se relacionava à reflexão filosófica racional abstrata, principalmente a dos estoicos, com sua noção de “humanidade” como comunidade humana. Todavia, se tratava de uma noção muito abstrata e da qual só alguns participavam: os sábios estoicos. Uma noção de humanidade, portanto, universal em abstrato e excludente em concreto. Uma noção baseada em  uma ideia elevada de racionalidade que atravessava todo o cosmo, mas que não contemplava as contingências humanas, a vicissitudes da vida corpórea e temporal, o evento histórico, a temporalidade.

Frente a este conceito abstrato e, portanto, metafísico de humanidade do helenismo estoico, a subversão proposta pela universalidade cristã primitiva, concebida sobre a base da noção de justiça de Iahve-Elohim dos profetas, exigia concretude de realização histórica. Aqui e agora para todos indistintamente.

Nesse sentido, a formação das primeiras comunidades cristãs na Ásia Menor tinha a clara intenção de se constituírem como o “ajuntamento” ou “assembléia” (igreja) de um novo Israel que cumprisse definitivamente o universalismo concreto exigido  da justiça de Iahve-Elohim e proclamado pelos profetas. Que congregasse todas as pessoas, independente de gênero, etnia e condição social.

Em uma sociedade marcada pela divisão social baseada no escravismo, como era a greco-romana, podemos fazer ideia do caráter subversivo que a mensagem cristã tomou. Ao ser, depois de muita confusão e incompreensão por parte dos intelectuais e autoridades romanas críticas (que acreditavam os cristãos primitivos eram canibais e praticavam incestos entre si), paulatinamente compreendida em sua pretensão e exigência de justiça concreta, realizada em meio à sociedade elitista, escravagista e excludente de então.

O racionalismo da cultura clássica e o espiritualismo de sua religião tradicional mantinham, ambos, o preconceito histórico em relação ao mundo material, ao mundo corpóreo e a tudo que lhe dizia respeito: ao prazer sexual e ao universo dos desejos que apelavam ao campo dos  afetos, ao campo do não-racional.

Desta forma, a cultura clássica fornecia a visão de mundo básica da sociedade escravagista de então, greco-romana, e que era o apoio tanto teórico como “teológico” (religião e vida política  se confundiam) do elitismo excludente. Assim, era a base de sua visão de mundo e seu modelo político.

Para a mentalidade clássica, a realidade elevada era a “espiritual”. Para a cultura clássica, esta era entendida em sua expressão racional e expressa no grande patrimônio cultural legado pela cultura grega. Ou seja, em termos de ciência e desenvolvimento cultural que se contrapunha à barbárie. Está considerada como caráter geral dos outros povos e culturas. Eis a fórmula da xenofobia comum que corria por toda civilização clássica.

Tudo isso bem ajustado e  amarrado, a forma como a sociedade funcionava era então a “forma correta” e inquestionável de ser das próprias coisas. Os de cima mandavam porque eram naturalmente melhores, e eram melhores porque mandavam … Os de baixo obedeciam porque eram naturalmente piores, e eram piores porque obedeciam.

Mas, uma afronta havia sido  feita a este mundo clássico bem ajeitado. Segundo o próprio fundador do cristianismo (Jesus), e seus seguidores, seus discípulos, essa grandiosa estrutura social clássica milenar ESTAVA ERRADA de ponta a ponta!

Se ela funcionava da forma como funcionava, atravessando todas as esferas da vida social, na comunidade cristã, segundo Jesus, não deveria ser mais daquela forma …

Na comunidade cristã, segundo Jesus, que o maior servisse ao menor, pois o último seria o primeiro, e os abençoados e queridos por Deus eram os fracos, pequeninos, injustiçados e excluídos da terra!

Ora, segundo a concepção clássica, Deus era a fonte original de toda estrutura racional organizada da sociedade civilizada greco-romana. E os cristãos primitivos estavam dizendo simplesmente que DEUS NÃO TINHA NADA A VER COM AQUILO! DEUS NÃO ERA AVALISTA DAQUELA SOCIEDADE INJUSTA!

Com a divulgação dessa “boa nova”,  aos poucos, os escravos e escravas, homens e mulheres do povo, em sua maioria iletrados, leprosos e demais doentes; os párias e excluídos socialmente daquela época, por meio da mensagem subversiva cristã, puderam sentir a própria dignidade em si mesmos.  Em seus próprios corpos e nas próprias condições em que se encontravam e apesar da condição. Os cristãos primitivos descobriram que a dignidade não apenas se ligava às potencialidade  espirituais da alma (= psique = razão) … Enquanto que para o mundo clássico, o escravo não era considerado um ser pleno, com uma “alma” completa”; assim como o trabalhador braçal e o comerciante etc. não preenchiam os requisitos de uma “verdadeira alma culta”; mulheres e crianças também eram considerados seres inferiores em suas almas não desenvolvidas etc. Tudo isso estava  estabelecido pela antropologia herdada da cultura clássica.

Com o evangelho (notícia  boa), não obstante sua condição socialmente desfavorável, o homem e a mulher do povo passaram a sentir, na vida em comunidade, na vida relacional e plural, sua própria dignidade humana, a partir do seu “corpo” e na sua condição, como algo ofertado pelo próprio Deus. A vida corporal, tão mal vista pelo espiritualismo clássico, passou a ser sentida como expressão conjunta de
um ser total mais pleno (como *pessoa singular* , dirão os teólogos filósofos cristãos do segundo século II em diante).

Como vemos, isso era muito mais do que o que o que as condições sociais dominantes e a antropologia clássica espiritualista, que privilegiava as faculdades mais elevada da alma (razão), estavam dispostas a  conceder …

Os cristãos primitivos tinham, afinal, motivo para sentirem em si mesmos esta novidade. Pois o próprio fundador do cristianismo havia sido dignificado em seu próprio corpo de carpinteiro e homem do povo por Iahve-Elohim que, segundo a mensagem do Novo Testamento todo, o havia ressuscitado dos mortos ao terceiro dia, após traição, tortura militar e morte por suplício aviltante, humilhante e doloroso como criminoso político, inimigo do Estado, na cruz … Mas, contra todas as expectativas, tendo sido “ressuscitado, no próprio corpo”, segundo a mensagem cristã subversiva (e aqui pouco importa se se crê ou não nisso … faço referência ao que foi afirmado e crido com consequências históricas insuspeitas até os nossos dias), os cristãos primitivos passaram a crer nessa esperança subversiva que tem inspirado (direta ou indiretamente) toda resistência e afrontava às estruturas hierárquicas de funcionamento das sociedades elitistas e excludentes, desde a romana aos nossos dias!

As igrejas cristãs institucionais (todas elas sem exceção) têm tido dificuldade em realizar, ao longo da história, estas exigências libertadoras que se encontram no cerne da mensagem evangélica. A morte terrível de Jesus de Nazaré na cruz (a cruz tinha cheiro de carniça, como dizia o teólogo Milton  Schwants, para recuperar sua tragicidade) como criminoso contra o Estado tem se tornado mero motivo e tema de edificação nas igrejas por causa da excessiva espiritualização milenar da morte de Jesus na cruz. Seu caráter concreto de suplício por causa do cumprimento da justiça concreta de Iahve-Elohim tem sido atenuado por causa da tendência espiritualizante  que  invadiu  as igrejas  instituiçoes.

Da mesma forma acontece com o significado concreto da crença neotestamentária subversiva na ressurreição do corpo a partir do anúncio da ressurreição de Jesus. Trata-se de uma afirmação subversiva e chocante, tanto para os antigos do século I quanto os cientistas modernos. Pois, segundo a ordem natural, nenhum corpo morto ressuscita depois de três dias! Todavia, independente de crermos ou não  nessa afirmação inusitada, o que nos interessa é o seu caráter concreto que se alinha à exigência de justiça concreta de Iahve-Elohim. Em relação a isso, o Novo Testamento, afirmando de maneira subversiva o valor do corpo, da matéria, tão difamada pelo espiritualismo clássico e os demais, vai dizer que, neste exato momento em que escrevo estas linhas, no céu, na morada da divindade, considerada sempre como lugar puro, espiritual, perfeito e sem qualquer contaminação com a matéria, HÁ AO MENOS UM CORPO! O do carpinteiro de Nazaré! E isso PARA SEMPRE!

Podemos imaginar a alegria e esperança daqueles primeiros cristãos-pessoas, não sem desentendimentoacerca do que fazer durante a espera escatológica da ressurreição do próprio corpo. Afinal, Jesus não havia escrito nada … o que se possuía eram relatos e testemunhos nem sempre de primeira mão. Todavia, a crença inusitada e subversiva na ressurreição do corpo passou a contagiar de esperança e alegria uma parte cada vez maior da sociedade de então, cujos corpos se encontravam acorrentados pela injustiça daquela sociedade.

Isso obviamente começou a incomodar o status quo milenar daquela sociedade. Ao ponto de, num momento de extrema decadência do império romano, não sem que em sua história pregressa a coisa não existisse como caldo cultural religioso inspirador, o imperador passou a exigir dos cidadãos denunciados como subversivos (dentre os quais os cristãos primitivos em especial) ADORAÇÃO … como prova de obediência. E adoração religiosa, tal como se prestava comumente a um deus em praticamente todas as instâncias da vida social romana: para se casar, para ser carteiro, para ser militar, para ser juiz etc.

A sociedade greco-romana não fugia à regra: em todas as sociedades antigas religião e politica se misturavam naturalmente.

Foi nesse momento fatídico do encontro entre a mensagem cristã primitiva e o poder máximo do império romano, simbolizado pelo imperador totalitário, que o cristianismo primitivo fez surgir a noção de ESTADO LAICO.

Com a noção de fé cristã como grandeza espiritual atuante dentro do ser humano, o campo externo da vida regido pela política, se libertou do poder da religião!

Os cristãos primitivos, sem abrirem mão de sua fé, todavia, promoveram a proposição inédita de uma  distinção real entre convicção religiosa pessoal e vida pública, vida social, vida política. Os cristãos primitivos  propuseram uma existência autônoma para estas duas dimensões. A religião, dentro de cada um; e a vida política, exterior e comum a todos, através de consenso legal e institucional.

À exigência de adoração ao imperador, os cristãos primitivos respondiam (com o custo da perda da própria vida) que adoração eles só prestariam a Iahve-Elohim, e ao imperador devotariam respeito e, como cidadãos, o cumprimento e respeito às leis.

*1° CONCLUSÃO:*

Não foram os liberais burgueses do século xviii, portanto, que inventaram a ideia de Estado laico. Pelo contrário, os liberais capitalistas atualizaram novamente, de maneira camuflada e hipócrita, a junção, em seu esquema político burguês, do que havia de pior no naturalismo clássico (religião do sacrifício, do elitismo e da exclusão) com a promulgação das leis e estabelecimento das instituições burguesas modernas. E isso, bem entendido, ao ponto da ideologia liberal passar a exigir que seu esquema humano, falho, histórico e datado de organização social, baseado no individualismo e na competição, no hierarquismo e exclusão social, fosse aceito e “crido por todos” como natural e sem questionamentos. E mesmo com o sacrifício da classe trabalhadora em benefício da manutenção da posse, domínio e controle das riquezas naturais e do bem comum por parte da minoria da rapina nacional e internacional liberal capitalista. Em detrimento da maioria do povo trabalhador.

E temos visto atualmente a que ponto chegaram os liberais capitalistas ao verem seu mundo de mentiras contestado pela luta social por justiça. Temos visto que o reflexo do liberal típico, ao ver sua mentira exposta, é, sem vacilo, *fazer o fascismo* . E o que é o fascismo senão a vontade de dominação total, pelo líder, que se coloca como o senhor da verdade, até o nível religioso, interno, interior das pessoas? No nível da adoração teligiosa sem questionamento?

*2° CONCLUSÃO*

O conluio de certos ditos cristãos atuais (evangélicos, católicos, protestantes etc.) com o fascismo e sua idolatria do poder, seu hierarquismo excludente, seu racismo, misoginia, homofobia, xenofobia, moralismo hipócrita, gosto pela difamação e a mentira e outras desgraças mais … são provas mais do que suficientes de que estas igrejas e estes “cristãos” estão muito, mas muito longe do reino de Iahve-Elohim … segundo os profetas, Jesus e os apóstolos. Prestam serviço ao mundo do dinheiro e se auto enganam. Entre servir a Deus e a mamon (segundo a alternativa do próprio Jesus), os falsos cristãos de hoje já decidiram que servirão a MAMON … se auto enganando como servindo a Iahve-Elohim.

Estes falsos cristãos, neofascistas, fazendo isso, se apresentam ao olhos de todo mundo como apenas cães de guarda do mundo de injustiça criado pela ideologia liberal burguesa e seu mundo falso e de exclusão do dinheiro. Estes falsos cristãos crucificam novamente Jesus e só servem de escândalo e tropeço … Para que o verdadeiro escândalo da cruz não encha de esperança o povo trabalhador brasileiro.

*Bacharel, licenciado, mestre e doutor em filosofia pela USP; bacharel em teologia pela Faculdade Teológica Batista de SP; pedagogo licenciado pela FALC; autor de artigos de filosofia em veículos especializados e livros coletânea; autor do livro *O cristianismo ateu de Pierre Thevenaz* (no prelo); tradutor de mais de trinta livros nas áreas de filosofia, ciências da religião, ciências humanas e teologia; músico profissional (guitarrista) e jornalista. Colunista do Cartas Proféticas.

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Um comentário

  1. Novo colunista do Cartas Proféticas, o Dr. Daniel da Costa, filósofo, teólogo e músico batista debate os problemas do Estado laico e da concepção de justiça que vem dos profetas. Acesse e compartilhe o link do Cartas Proféticas: http://cartasprofeticas.org/os-promotores-da-ideia-subversiva-de-estado-laico-sem-interferencia-de-qualquer-religiao-em-particular-foram-os-cristaos-primitivos-dos-3-primeiros-seculos-e-nao-os-liberais-burgueses-do-seculo/

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