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Paraisópolis: fora do lugar

 Edergênio Negreiros Vieira*

No mês de fevereiro de 2019, o senhor Governador do Estado, Ronaldo Caiado recebeu as filhas e um grupo de amigos/as, vindo diretamente de São Paulo para uma confraternização da família Caiado. Recepcionados/as no pomposo e tradicional salão Dona Gercina Borges a festa, regada a boa culinária e bebida farta, escandalizou a sociedade goiana. Motivo? Muitos servidores/as do Estado sequer tinham recebido os salários referentes ao mês de dezembro de 2018. Em nota, o Governador do Estado, se referia à confraternização como um momento “família” com as herdeiras e amigas/os, custeada com dinheiro próprio.

A tradição democrática republicana brasileira não tem pudor em misturar o público e o privado.  Essa relação foi pouco explorada pela imprensa goiana. O silenciamento está incrustado na sociedade brasileira.  Ao não dizer, ao omitir, naturaliza-se aquilo que é historicamente construído e socialmente regulado. Porém, uma questão encampou manchetes sensacionalistas de inúmeros veículos de mídia. A trilha sonora que embalou a reunião dos Caiados: Funk, o pancadão. Alvoroçaram-se em dizer que era um absurdo tocar Funk no Palácio das Esmeraldas. Ali não era lugar de Funk.

Moradoras de São Paulo, as filhas do casal Gracinha e Ronaldo Caiado, já devem inevitavelmente ter tido contado voluntaria ou involuntariamente com os famosos pancadões, eventos de Funk que se tornaram a única opção de lazer e divertimento de jovens, pobres, pretos/as das favelas de São Paulo.

Paraisópolis “está fora de lugar”, localizada em uma das regiões mais ricas da terra da garoa. A favela faz fronteira com condomínios luxuosos como o Jardim Vitória Régia, Paço dos Reis e Portal do Morumbi. Paraisópolis é local de mais uma violência praticada pelo Estado Brasileiro contra os despossuídos e desprovidos de direitos básicos como o direito a existir, o direito a viver, direitos a serem cidadão/ãs. É a necropolítica dos extermínios de corpos marginalizados, pretos/pardos que não vira comoção nacional, e que como inúmeros casos logo cairá no esquecimento ou na trivialidade da violência que toma conta do Brasil e do mundo.

Alguma coisa acontece nos corações e mentes daqueles que dirigem os desígnios da Nação, afinal o excludente de ilicitudes não é “brecha que o sistema queria? Avisa o IML: chegou o grande dia.” (Racionais Mc´s, Diário de Um detento). As cenas que pululam nos nossos olhos, por meio das telas, mostram um nível de sadismo por trás das cenas que resultaram em 9 vidas perdidas, para o racismo, para a necropolítica, ao eugenismo, a intolerância e omissão do Estado Brasileiro. Não existe amor em SP, não existe amor no Brasil, no Mundo… e a banalidade do mal, nos permite apenas ir “às atividades do dia: Lavar os corpos, contar os corpos e sorrir” (Criolo, Lion Man). E enquanto isso o pancadão rola solto nos Palácio das Esmeraldas, e o MC Kevin manda todos sentarem para assistir o próximo espetáculo do circo dos horrores.

*É professor, mestrando em Educação, Linguagem e Tecnologias, PPG-IELT da Universidade Estadual de Goiás.  Colunista do Cartas Proféticas.

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