Paulo Fontele-Mourão

Paulo Fonteles escreve carta aberta dramática ao general Antonio Mourão

Paulo descreve o drama de seu pai assassinado pela ditadura porque, como advogado dos oprimidos,  defendia  posseiros e injustiçados da terra.

“Minha mãe, general Mourão, me pariu com 37 quilos, foi cortada e costurada sem anestesia e não disse um ai. E isso ocorreu dentro das dependências do próprio Ministério do Exército, lugar onde dás expediente como servidor público federal”, escreveu em sua carta.  “O que o Brasil precisa, general, com urgência, é a reconstrução da democracia, um judiciário independente, uma mídia imparcial, um parlamento sensível aos interesses da maioria na forma do respeito ao voto popular”.

A reação de Paulo Fonteles Filho  é ao discurso ameaçador que o general Mourão fez num evento em Brasília,  sugerindo  intervenção militar para resolver os problemas do Brasil, caso o Judiciário não punisse os corruptos, sem denúncia clara com referência a que corrptos se referia e sem nunhuma proposta a debater com a soceidade braseileira sobre projeto de salvação nacional.

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Leia a carta aberta de Paulo Fonteles Filho

Caro general Antonio Mourão, desde sábado (16), é que se multiplicam vossa manifestação nas redes sociais, blogues, sites, portais e afins por conta de tua última palestra, em Brasília, em evento ligado à maçonaria quando, em ameaça velada, falaste abertamente de intervenção militar, como se contasses com o amparo ou chancela de seus companheiros de armas, ou seja, o próprio generalato tupiniquim.

Na caserna, o tiro saiu pela culatra.

Ao invés de um palavrório decente, apaziguador em momentos de crise democrática – sim, porque a democracia e os direitos do povo foram usurpados por Temer e sua quadrilha – assistimos, atônitos, a antiga cantilena de um militar estreludo, talvez um delfim tardio dos tiranos que ensejaram um golpe militar em 64 e que levaram as forças armadas brasileiras a cometer crimes insidiosos, de lesa-pátria, com torturas, assassinatos, exílios, perseguições, censura e desaparecimentos forçados.

Entre militares decentes deves estar passando vergonha, muita vergonha, general.

Sim, porque quero crer que há militares decentes, gente preocupada com o futuro do país e não somente em fazer verborragia bolsonazi e o discurso do medo, próprio dos fascistas de plantão, ávidos por quarteladas, linchamentos e carne humana violada.

Confesso general, desde ontem estou me remoendo.

O sentimento que nos alcança é de assombro.

Meus amigos, família, pessoas que amo estão intimidadas, sequestradas pelo pavor que tal irresponsabilidade enseja.

Os dias estão muito estranhos e o medo é uma potente arma ideológica, assim foi no Reich de Hitler ou no “Brasil Grande” do Garrastazu.

Sabe general, sou de uma geração de perseguidos políticos.

Meus pais eram estudantes da Universidade de Brasília (UNB), amantes das liberdades, do Chico Buarque e dos Beatles e sem cometer qualquer tipo de crime — a não ser o de opinião — foram presos em outubro de 1971 e submetidos a terríveis torturas, além de condenações pela famigerada Lei de Segurança Nacional (LSN), dispositivo que transformou o Brasil num purgatório de lobos bem felpudos.

Eu nasci na prisão e tive um irmão gerado no cárcere: o serpentário dizia que “Filho dessa raça não deve nascer” e isso ocorreu dentro das dependências do próprio Ministério do Exército, lugar onde dás expediente como servidor público federal.

Deves saber que no subsolo do teu ganha-pão foi um patíbulo para a infâmia.

Minha mãe, general Mourão, me pariu com 37 quilos, foi cortada e costurada sem anestesia e não disse um ai.

Depois de nascido — entre as feras do PIC — fui sequestrado porque não haviam algemas para os meus pulsos de recém-nascido.

Imagina que um bebê de poucos dias era considerado inimigo do status quo, aliás, muitas crianças assim foram tratadas pelo regime do terror.

Talvez a Hecilda, minha mãe, atual professora da UFPa, tenha sido a única mulher a ter tido dois filhos na prisão, sob peia.

Meu pai foi morto em 1987 e seu assassinato foi organizado por um ex-agente da comunidade de informações, James Vita Lopes.

Paulo Fonteles, pai amoroso de cinco filhos, era advogado e defendia posseiros no Araguaia.

O que o Brasil precisa general, com urgência, é a reconstrução da democracia, um judiciário independente, uma mídia imparcial, um parlamento sensível aos interesses da maioria na forma do respeito ao voto popular, de mais direitos, de Estado Democrático e respeito à soberania nacional, além de uma forte cruzada contra a ignorância, a corrupção, o racismo, a misoginia e a homofobia.

O fascismo levará o país à convulsão, além das vidas de uma geração que tem a responsabilidade com a felicidade coletiva.

É muito doloroso falar sobre isso general Antonio Mourão e lembrar que muitos foram mortos pela histeria malsã que repetes, como um ventríloquo de satanás.

Mas minha tarefa também é a lembrança de que os tumbeiros que mancharam nosso solo de vergonhas, como na escravidão ou na ditadura militar de 64, jamais poderão ficar impunes.

Tenho pena de ti general, estás num quarto escuro e sem janelas, vitima da própria bílis que lanças no ar.

#DitaduraNuncaMais

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Um Comentário

  1. Amigo Dom Orvandil Moreira Barbosa. ler a carta deste bebê, que ao nascer roubaram-lhe até o direito de ter conforto. Ao aconchego do colo materno e com certeza seu principal e melhor alimento: o leite no seio da mãe.
    Senti as dores dessa mãe, com um períneo cortado e com certeza mal suturado...
    Vivi essa experiência, no conforto de um bom Hospital, atendida por bons profissionais. Mesmo assim não deixa de ser uma violência , que ninguém merece...
    Confortou-me a sobrevivência de um bebê vitorioso! Fui solidária as dificuldade encontradas dia após dia, no seu crescimento...
    Como brasileira, senti orgulho desse cidadão, irmão na mesma Pátria, filho do mesmo DEUS !
    Meu corpo reage, entre a compaixão, o orgulho e o nojo !


    LAMENTO POR TODAS AS MÃES QUE SOFRERAM ASSIM... POR TODOS OS BEBÊS QUE NASCERAM E CRESCERAM, NESSAS CIRCUNSTÂNCIAS...

    POR NOSSA PÁTRIA QUE NÃO MERECIA, ESSA MANCHA TRISTE, NA NOSSA HISTÓRIA...
    LAMENTO POR TODOS OS QUE NÃO SOBREVIVERAM. PELA DOR TERRÍVEL DE SUAS FAMÍLIAS...

    LAMENTO POR TODOS AQUELES, AMIGOS OU DESCONHECIDOS, QUE SOFRERAM AS AGRURAS E A SOLIDÃO NAS PRISÕES...

    ENVERGONHO-ME DOS BRASILEIROS, BANDIDOS DE ONTEM E DE HOJE...

    ORGULHO-ME DOS HOMENS E MULHERES, DE TODAS AS RAÇAS; CORES; IDEOLOGIAS E POSICIONAMENTOS, QUE NÃO SE CURVAM ; QUE NÃO ENTREGAM COMPANHEIROS, QUE NÃO MUDAM DE LADO POR CONVENIÊNCIA. QUE NÃO VIOLENTAM-SE, COM CONIVÊNCIAS...

    QUE DEUS MISERICORDIOSO DÊ VIDA LONGA, SAÚDE , DISCERNIMENTO E SABEDORIA PARA TODOS OS BEBÊS, NASCIDOS NAS PRISÕES! PARA QUE, ASSIM COMO PAULO FONTELES FILHO, NESTA CARTA ABERTA, AO GENERAL BANDIDO, POSSA TRAZER À LUZ DO SOL , O QUE ATRAVÉS DOS TEMPOS, OS MAUS GOVERNOS , EXECUTAM SEM PIEDADE, NA ESCURIDÃO DA NOITE...

    QUE TODOS OS PREJUDICADOS, TENHAM A SAGRADA OPORTUNIDADE, DE LAVAREM A ALMA, DENUNCIANDO OS ALGOSES DE SEUS AMADOS FAMILIARES...

    QUE NOSSO PAÍS, DEFINITIVAMENTE, ESTEJA LIVRE, DESSAS TORTURAS.
    QUE POSSAMOS VIVER EM CLIMA DE PAZ...

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