ocupação em são bernardo

Pesquisa desmonta preconceitos e fofocas: “No MTST, a maioria trabalha. E ocupa por não conseguir pagar aluguel”

“Que esta pesquisa do Dieese sirva para enfrentar a violência simbólica que pesa contra aqueles que tiveram a coragem de lutar dignamente por um direito”

Este blogueiro se depara constantemente com juízos vulgares pronunciados em sala de aula por alunos/as que não são estudantes, muito menos estudiosos, mas frequentadores de aulas para fazer avaliações para obter notas que passem desprerados/as intelectuais e cintifixamente  com diplomas nas mãos.

Pior, muitos de seus mestres são tão antas quanto os discípulos que criam: nas salas de professores ouvem-se os gruídos de asnos falando mal das multidões que ocupam terras.

Aqui mesmo no blog e no canal no You Tube há que apagarem-se agressões e calúnias contras os pobres.

Felizmente,  a ciência não cavalga lombos de asnos nem coabita com caluniadores e fofoqueiros. Tanto que uma pesquisa sobre os integrantes do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto e ocupantes de terras urbanas, como é o caso de São Bernardo, feita pelo DIESE, mostra a terrível e monstruosa injustiça que causa  as situações de falta de moradia quanto a boataria irresponsável e imoraia porque mentirosas.

Guilherme Boulos, líder do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto, publica a pesquisa do DIESE que desmonta as mentiras de que os seus integrantes e militantes  são vagabundos sem renda.

Veja abaixo.

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Como se não bastasse a violência de não ter acesso a direitos fundamentais, milhões de brasileiros sofrem ainda uma segunda violência quando se levantam para lutar por eles: o estigma.

No caso dos trabalhadores sem-teto, quando ocupam um espaço por completa falta de alternativa, são chamados de “vagabundos” que querem “levar vantagem” em vez de obter uma casa por seu trabalho.

Essa violência simbólica pressupõe a ideia de que quem trabalha pode morar dignamente e, portanto, quem ocupa não quer trabalhar.

O Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos prestou um serviço inestimável para desmontar esse preconceito, por meio de uma pesquisa realizada com as famílias da Ocupação Povo Sem Medo de São Bernardo do Campo, cujos resultados foram apresentados na última semana.

Ao ouvir quem está por trás da lona, além de revelar que a ocupação retrata o abismo social brasileiro, a pesquisa demonstra o absurdo do estigma atribuído aos sem-teto. Vamos aos dados.
A maioria dos ocupantes são mulheres (53,4%) e negros (61,6%).

Mais de um terço estuda (35,5%) e a enorme maioria paga ou tenta pagar aluguel (69,3%). O que leva esse montante de indivíduos para a ocupação não é uma opção por facilidades, mas o fato de 78% dessas famílias receberem menos de um salário mínimo e meio, comprometendo grande parte do ordenado com o pagamento de aluguel.

Diferentemente de opinião difundida, a maioria das famílias pesquisadas é composta de três integrantes ou menos (70,2%) e somente uma minoria tem acesso ao Bolsa Família (30,7%).
Entre os pesquisados, 23,8% eram trabalhadores da indústria e 50,1% dos serviços.

Os sem-teto são diaristas, ajudantes gerais, auxiliares de limpeza, garçons, motoristas, auxiliares administrativos, operadores de máquinas, operadores de telemarketing, pedreiros, porteiros, vendedores ambulantes, cozinheiros e vigilantes, para citar as profissões principais identificadas pela pesquisa.

Todas essas categorias, que há anos sofrem com a precarização do trabalho, tiveram perdas com a recessão e o aumento do desemprego e enfrentarão dias ainda mais duros com a entrada em vigor da reforma trabalhista.

Talvez os dados mais fortes da pesquisa sejam a taxa de participação, número de ocupados ou em busca de trabalho, e de desemprego. A taxa de participação na Ocupação Povo Sem Medo é de 73,1%, consideravelmente acima da média da Região Metropolitana de São Paulo (RMSP), de 62,1%.

Ou seja, a enorme maioria dos ocupantes trabalha ou busca oportunidade de trabalho.

Por que então ocupam? A resposta vem no índice seguinte: a taxa de desemprego entre os ocupantes é de 41,8%, mais do que o dobro da média da RMSP (17,9%). Ali está, portanto, uma parcela dos trabalhadores que foram mais afetados pela recessão e a política criminosa de austeridade.

A instabilidade da situação de emprego e renda obviamente reflete-se na instabilidade das condições de moradia, não apenas para aqueles que hoje estão nas ocupações de terrenos e prédios, mas para a enorme maioria do povo brasileiro. Como pagar o aluguel se não há emprego? A escolha entre comer e morar é um dilema gritante para cada vez mais gente em nosso país.

O que os pesquisadores encontraram na Ocupação Povo Sem Medo de São Bernardo é um retrato do que é o Brasil e que insiste em desmentir o otimismo oficial. Um povo batalhador que se espreme para sobreviver com salários de fome.

Esse cenário agrava-se ainda com a queda do investimento público, que se expressa na redução drástica de praticamente todos os programas sociais, a começar pelo próprio Minha Casa Minha Vida.

Se olharmos adiante, o ataque aos direitos trabalhistas e previdenciários anuncia um futuro sombrio para o povo brasileiro. Um presente de trabalho intermitente, quando tiver, um aluguel incerto em um barraco qualquer e um futuro sem aposentadoria para a enorme maioria dos trabalhadores.

Longe de ser uma opção “vitimista” daqueles que vivem do Bolsa Família, ocupar uma área abandonada, e, portanto, fora da lei, é uma necessidade de quem trabalha e vê a sua renda ser insuficiente até mesmo para assegurar um teto para a sua família.

Que esta pesquisa do Dieese sirva para enfrentar a violência simbólica que pesa contra aqueles que tiveram a coragem de lutar dignamente por um direito.

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