professora, imbecil!

Professores (as), Reforma da Previdência, Linguagem e Poder na Escola

Edergênio Vieira*

“Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você.” Jean Paul Sartre

Começo esse artigo fazendo uma provocação de gênero (porém, advirto que este não é o foco central do texto e não há qualquer tentativa de “mansplaining” ou “broprianting” em minha fala), nas escolas onde leciono sempre existe essa dúvida. Percebo certo constrangimento por parte de quem dirige as reuniões em não garantir que o gênero predominante (falo de maioria em números) seja respeitado. Logo, funciona assim, se eu não estivesse na sala o conjunto daquelas que lá se reúnem seria denominado professoras, no entanto, a simples presença de um professor, retira das 10 ou 12 mulheres daquele local a identidade de gênero feminino delas. Isso acontece em vários espaços. A língua é o veículo principal da estruturação de preconceitos, misoginias e racismos. No Brasil, de acordo com o Censo docente realizado pelo MEC,  mais de 80% dos professores são professoras. Faço esse recorte de gênero para dizer que são essas mulheres as mais penalizadas pela reforma da previdência proposta pelo pelo governo federal, ao sugerir que elas se aposentem aos 62 anos de idade.

As professoras cumprem jornadas que vão para além da sala de aula. São mães, esposas, avós, donas de casa. Qualquer reforma da previdência que não levar em conta essas idiossincrasias não pode ser levada a sério e nem seguir em frente. Profissão professora, quando pensamos a profissão docente é impossível não refletir sobre o que significa “ser professora” no Brasil. Infelizmente tenho percebido que ultimamente não estamos refletindo sobre o exercício de nossa profissão. Temos, na maioria das vezes,  agido no automático. Tornamo-nos proletários da educação. António Nóvoa é um educador português que possui uma obra que deveria ser o livro de cabeceira de qualquer educadora: Profissão Professor. Nesse livro, Nóvoa diz algo que eu considero fantástico e sobre o qual nós deveríamos refletir: “É verdade que os professores estão presentes em todos os discursos sobre a educação. Por uma ou por outra razão, fala-se sempre deles. Mas muitas vezes está-lhes reservado o “lugar do morto”.

Nós professoras (es) estamos passivas demais diante de um ataque sistemático, intencional e organizado contra a nossa profissão no Brasil. A escola de massas, essa escola que a filósofa Viviane Mosé chama de escola como fábrica, porque produz com uma velocidade muito rápida como numa linha de montagem, tem nos tornado uma peça numa engrenagem perversa. O governo tem transformado as escolas numa verdadeira porta de geladeira, onde tudo pode ser colado. Mas quais as implicações disso no dia a dia? Tudo isso ocasiona a indefinição da real função da professora, pois as exigências frente à profissão abrangem aspectos de ensino-aprendizagem, de cuidados à infância, de higiene, de saúde, de administração escolar, de respeito e trabalho com os diferentes contextos sociais, econômicos e culturais, bem como com as diferentes estruturas familiares de hoje.

Podemos considerar que as professoras, em certos momentos, assumem o papel de psicólogas, médicas, enfermeiras, assistentes sociais, e mesmo de pai e mãe. E essa sobrecarga no trabalho docente tem nos adoecido. As professoras são as que mais adoecem: desajustamento e insatisfação perante os problemas reais da prática; pedidos de transferência para fugir das situações problemas; inibição de envolvimento pessoal; desejo de abandono da profissão; absentismo laboral; esgotamento; estresse; ansiedade; autodepreciação; reações neuróticas; depressões.

E não se enganem,  o sistema faz isto de forma intencional para que não façamos o que eu considero que seja fundamental em nossa profissão: Propor a reflexão, propor aos alunos um olhar crítico ao mundo desigual que o cerca. Como exigir ou propor reflexão se nem nós professoras (es) estamos refletindo sobre nossa prática docente? Conforme Sacristán (1999, p. 68) “Os professores não produzem os conhecimentos que são chamados a reproduzir nem determinam as estratégias práticas de ação. Por isso, é muito importante analisar o significado da prática educativa…” A prática educativa não se limita apenas às atividades das professoras, pois está interligada e depende dos vários contextos em que nos encontramos: há práticas de caráter antropológico, práticas institucionalizadas e práticas concorrentes (que são os mecanismos de supervisão e controle). Esta diversidade de funções provoca a superabundância de saberes docentes, pois cada tarefa exige conhecimentos específicos, sendo necessária uma consciência progressiva da prática, sem a desvalorização da teoria. Mas uma vez mais,deixo a pergunta chave desse artigo: Como refletir se o sistema nos mói, nos tritura? É preciso romper com essa lógica.

Precisamos nos organizar em associações autônomas e sem perspectiva hierárquica. Organizações horizontais, colegiados de luta para combater essa alienação da nossa profissão. Não podemos aceitar o que eles vêm nos impondo goela abaixo. Somos professoras (es), exigimos respeito, e para exigir respeito precisamos aumentar o tom da nossa voz, com argumentos é claro. E cruzando os braços quando for preciso. Porque a escola ao que me parece se transformou num verdadeiro depósito de pessoas. E só quando esse “depósito” fecha eles veem a falta que faz. Resta saber de que lado você vai estar nessa luta. Dos que lutam ou daqueles que ficam na janela esperando a banda passar?

*Edergênio Vieira é poeta, mestrando em Linguagens pela Universidade Estadual de Goiás, professor  na rede municipal de ensino de Anápolis e colunista do Cartas Proféticas.

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