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Quando a mediocridade vira paradigma

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Felipe Alves da Silva[1]

“Você trabalha de motoboy […]. Quanto você tira por mês? […] Você não tem nem onde morar, moleque! […] Você tem inveja dessa cor também [apontando para o braço]”. Essas palavras de humilhação e racismo foram dirigidas a um trabalhador enquanto exercia seu trabalho de entregador, no interior de São Paulo, em um condomínio de luxo. Esse comportamento é efeito de algo maior, que pode nos dizer muito a respeito da nossa situação atual.

Há um denominador comum entre esse mais recente ato de racismo em um condomínio de luxo, o desembargador que, por ocupar o cargo que ocupa, pensou estar acima da lei ao recusar-se usar máscara em via pública, humilhando dois guardas municipais, e a fala de Paulo Guedes ao comentar sobre a desastrosa política econômica do governo Bolsonaro e seus impactos na desvalorização do real: “[Era] todo mundo indo para a Disneylândia, empregada doméstica indo para a Disneylândia, uma festa danada. Vai passear em Foz do Iguaçu, vai passear ali no Nordeste […]”, disse o ministro na ocasião. Qual o traço comum a esses três casos aparentemente distintos? A estupidez que subjaz às falas? Certamente, isso é um traço comum, mas trata-se de um problema de fundo maior, um modo de operar próprio da burguesia: a afirmação do eu pela negação ou diminuição do outro.

Uma fala hipotética (que, sabemos bem, infelizmente não é tão hipotética assim) pode nos ajudar na clareza do argumento: “como assim o filho/a filha da empregada frequenta o mesmo espaço que o meu filho/minha filha?” Vejam, é precisamente isso que há em comum nos três discursos: a importância do traço distintivo; o que importa é dizer que é melhor que o outro, seja pela afirmação do cargo que ocupa, da classe social que pertence, do carro que possui, da roupa que usa, o que quer se seja que o distinga das demais. O pobre ou até mesmo a classe média baixa não pode ir para a Disney, quem pode sou “eu”, o ministro, o desembargador, o boyzinho do condomínio, você não!

A eleição de Jair Bolsonaro mostrou bem quão expressiva é essa parcela de brasileiros e brasileiras que se afirmam pela negação – “cidadão não, engenheiro!” é só um dentre os vastos exemplos –, quer dizer, aqueles e aquelas que sentem-se bem ao menosprezar as outras pessoas; sentem-se bem por ter mais acessos e bens, em suma, por simplesmente ter mais. Quando a mediocridade vira paradigma, o pior de nós aparece, essa cena grotesca que vimos aparece.

“Ele jamais comprará a educação e o respeito […]”, responde prontamente a mãe do trabalhador humilhado, em uma rede social. Está completamente correta. Trata-se de uma elite que só é assim denominada por conta do dinheiro que possui, nada mais. Uma elite politicamente ignorante que desde 2013 – passando pelo golpe de 2016, até a concretização desse projeto com o atual governo – berrava e clamava para que lhes fosse “devolvido o Brasil”, mas que Brasil? Ora, justamente esse Brasil da humilhação, do racismo, da homofobia, da transfobia, do machismo, enfim, o Brasil dos piores predicados do que é ser brasileiro. Se isso é ser “cidadão de bem”, temos de nos orgulhar de estar no lado contrário.


[1] Mestrando em Filosofia pela USP, bolsista CNPq.

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