Lobos

Quando a opinião da maioria é desumana e diabólica

Amiga Professora  Elaine Aparecida Pereira,  Manhuçu, MG

Sua amizade é uma das mais enriquecedoras que me faz ser gente com gente.

Comovi-me agradecido com seu depoimento afirmando que reencontrou Cristo lendo as “cartas” deste blog e assistindo os vídeos do canal com o mesmo  nome no You Tube.

Seu relato das razões que a afastaram das missas e da mesa eucarística é doloroso e decepcionante.

A amiga contou-me que os padres shows, espetáculos, cantores que adoram multidões, mas que desprezam o povo e os pobres, fizeram campanha aberta para Aécio Neves.  Sua dor e afastamento foram em razão de esses padres optarem pela corrupção, pelo neoliberalismo e pelo massacre dos direitos sociais e humanos. Eles se afastaram-se de Jesus para se aproximarem de mamon, o deus do dinheiro que devora a dignidade e a honra das almas.  

Sim, depois na luta pelos direitos de sua categoria de professores a amiga ouviu do facínora eleito por uma maioria apoiada pelos padres, que “eu não preciso dos professores para me eleger”.

Obrigado por seu espírito combativo e de dinâmica fidelidade às causas libertárias, professora Elaine Aparecida Pereira e pelo seu reencontro com o Cristo do povo em quem comungamos libertadoramente.

Li o artigo do jornalista espanhol Juan Arias e correspondente do famoso El Pais em cujo texto mostra sua amargura e tristeza com o que se passa na alma de grande parte de nosso povo brasileiro.

O espanto do jornalista manifestou-se com a opinião de muitos dos que ele classificou como “pessoas de grande sensibilidade humana e cultural” e com “as pessoas comuns” que, sem combinar, opinam com o mesmo conteúdo sobre as chacinas das prisões, a começar por Manaus e Roraima, podendo se estender a todos os presídios e até ruas do País: a de que é bom que haja chacinas e matanças desses classificados como “bandidos bons são os bandidos mortos”.

Esse juízo vulgar é de uma miséria sombria e lastimável.

Não surpreende que as mesmas sombras que habitam o psiquismo das tais “pessoas de grande sensibilidade humana e cultural” sejam as mesmas vomitadas em forma de fogo de ódio pelas que o jornalista espanhol chama de “pessoas comuns”.

As primeiras gravitam no mundo controlado pelos interesses dos que assaltaram o Estado para retirá-lo do País e submetê-lo à ganância mesquinha de uma elite que não se importa com o que se passa com o povo e com o que o ameaça e até o destrói.

As pessoas do povo, as que se locomovem de ônibus, as que bebem nos bares das periferias, os alunos nas salas de aula das faculdades negócios, essas que vendem diplomas a idiotas e emburrecidos e às nulidades mesquinhas,  que de tudo fazem para massacrar nossa humanidade e espezinhar nossa alma, se aproximam perigosamente das faíscas incendiárias do fascismo.

Alguns dizem que as pessoas estão certas ao concordarem que os presos são bandidos e, por isso, devem ser assassinados e eliminados já que a maioria pensa assim.

Aí há dois pontos a considerar: 1. por ser maioria não significa que sejam possuídos pela razão e pela verdade; 2. a opinião de que “bandido bom é bandido morto” é fascista e não deve ser acolhida social e politicamente.

Platão (328 – 438 antes de Cristo) abominava a opinião (doxa) da maioria.

Platão cria que poucos pensavam e mergulhavam profunda e intelectualmente entregues à busca da verdade. Para ele, Atenas (sua cidade e Estado) era governada pela opinião da maioria, portanto dos idiotas.

Marx (1818 – 1883)  concluiu que o senso comum  – maioria das pessoas – “pensa” de modo conservador e reacionário. embebecida pela ideologia da classe dominante, copiando o discurso injusto e opressor dos que desprezam o bem.

Portanto, se a maioria apenas replica a ideologia dos que roubam o Estado,  dos que desorganizam as culturas originais e comunitárias do povo, dos que assaltam suas terras e os enfiam sobre os morros sem infraestrutura e qualidade de vida, dos que desviam as funções da segurança fazendo da polícia aparelho manejado por criminosos fardados, que perseguem negros, pobres e jovens, é evidente que esse discurso é falso e iniquo.

A classe dominante brasileira é herdeira dos colonizadores que dizimaram cento e sessenta milhões de indígenas na América Latina, sendo que só no Brasil foram mortos cerca de oito milhões de indígenas e que para cá foram arrastados irmãos e irmãs africanos/as feitos/as e rebaixados/as à condição de escravos/as, é explícito que sempre, por ela mesma através de sua mídia desonesta e imbecil, injetará mentiras que o povo deve aprender a rejeitar e depois a expulsar a escória que suja a consciência social.

O nazismo iniciou na Alemanha matando os doentes mentais e depois chegou aos judeus, comunistas, sindicalistas e intelectuais, tudo sob o apoio popular iludido. Quando o povo abriu os olhos seu País e a Europa eram escombros e mortes.

Voltando a Platão, o filósofo abominava os sofistas que eram homens jovens que discursam na praça Ágora de Atenas com o único objetivo de convencer as pessoas não da verdade mas pela emoção e pelas técnicas de oratória.

Hoje a mídia e os agentes ideológicos de todos os tipos – TVs, rádios, revistas, jornais, pastores, padres, bispos, professores, pais, mães etc – são os novos e piorados sofistas que enganam o povo, que grita: “matem mais, eliminem esses bandidos que serão bons quando mortos.” E assim é em tudo, a dita opinião pública nada mais é do que a barranca do outro lado do rio que faz eco ao que se diz de cima da montanha dos opressores.

Pior, muitas dessas pessoas que vomitam e reproduzem as sombras que escurecem suas almas são próximas a nós: são de nossas famílias, de nossos círculos de amizade, que pregam para nós, que amamos e tal.

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  • Abraços críticos e fraternos na luta pela justiça e pela paz sociais.
  • Dom Orvandil, OSF: bispo cabano, farrapo e republicano, presidente da Ibrapaz, bispo da Diocese Brasil Central e professor universitário, trabalhando duro sem explorar ninguém.

 

 

 

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