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Quando eu soltar a minha voz!

EDERGÊNIO VIEIRA*

É impossível precisar quando tenha surgido a voz nos seres humanos. Provavelmente o homem se tornou homem quando fez uso da voz. A tradição oral não deixa rastros tais como os registros da presença da função semiótica dos primeiros hominídeos nas cavernas. A antropologia é chamada a opinar sobre essa difícil questão. Nossos ancestrais há quatro milhões de anos, já possuíam as áreas de Broca e Wernicke, dois centros cerebrais imprescindíveis para o desenvolvimento da linguagem. No entanto essa descoberta não é reveladora do ponto de vista da origem da voz, pois os Chimpanzés possuem essas áreas e nem por isso falam. Talvez a existência de um aparelho fonador seja a pista mais concreta de vestígios da voz nos nossos antepassados. O contato com fósseis nos permite saber, que pela curvatura do crânio há 500 mil anos o homem passou a ter laringe comprida e alta, essencial para emitir a grande variedade de sons que caracteriza a fala. Essas características somem no homem de Neanderthal, 150 mil anos atrás, e só reaparece no Homo sapiens, da nossa espécie. Esta seria uma explicação antropológica e até biológica para o surgimento da fala.

Sou especialista em linguagem, então pretendo apresenta-lhes uma visão linguística sobre o surgimento da fala, nos seres humanos. A linguística vai dizer que é preciso enxergar a questão por outro ângulo. A fala só se torna uma linguagem quando os sons adquirem significados e viram palavras. Ou seja, quando há uma significação minimamente coletiva sobre o que se diz, de forma que o que eu fale, seja entendido (entendido e não que concorde) por outro ser humano.

Assim a voz, tornou-se o mais valioso instrumento de afirmação do homem sobre a Terra. Mas ao mesmo tempo a voz se transformou também num poderoso meio de dominação cultural e política, de forma que quando se conquista um povo a primeira ação é suprimir a voz, ou as vozes dos dominados. Durante o processo de escravidão negra no país, uma das primeiras ações era a separação do povo oriundo do continente Africano, para que eles não pudessem se comunicar entre si.

O Brasil de hoje é a prova inequívoca da força da voz. Hoje, observamos o avanço do conservadorismo nas vozes reacionárias de grupos políticos que ascenderam ao governo central, propagando seus preconceitos por meio de discursos, que tentam sobretudo silenciar grupos aos quais o direito à voz sempre lhes foram negados.

A historiografia oficial é cânone em apontar uma voz única na construção histórica, cultural, social e política desse país. Negros, mulheres, homossexuais e pobres jamais tiveram vozes nos espaços de poder institucionais dessa Nação.

O opressor silenciou a voz dos negros nos espaços das senzalas; nos guetos e nas favelas; as vozes das mulheres sempre foram dependentes da “autorização” dos homens, que as impediam de falar e contar suas dores, assim como os homossexuais que viram suas vozes silenciadas por milhares de anos.

Dia 16 de Abril é dia da voz, uma das grandes preocupações nessa data é com a saúde da nossa voz, uma atenção importante sem dúvida, no entanto no dia da voz é preciso usa-la, para que eles não silenciem as nossas vozes. É preciso dizer em alto e bom som, que os movimento sociais do campo, das florestas, das cidades jamais se calarão ante ao discurso machista, misógino, racista, preconceituoso desses grupos de ultra direita representados na fala do presidente da república e seus ascetas. No dia da voz, continuaremos cantando e contando nossas narrativas em versos e prosas, por meio do Rap, do Samba, do Maracatu, da Embolada e do Frevo. Por meio da nossa voz, cantaremos o genocídio do povo preto no Brasil, para denunciar que homens e mulheres pretas estão sendo assassinadas nas periferias desse país, por agentes do Estado, o mesmo Estado que deveria lhes proteger, soltamos a voz para dizer que vidas negras importam sim; e que oitenta tiros não é incidente e sim assassinatos; por meio da nossa voz, denunciaremos o feminicídio que mata e silencia as vozes femininas nesse país,  que nossas vozes sejam ouvidas por todo o mundo, sobretudo denunciando que esse é o país que mais mata travestis e transexuais no planeta. E para não dizerem que eu não falei de flores, evoco o  brasileiro, Eduardo Alves da Costa com seu belíssimo poema No Caminho, com Maiakóviski: Na primeira noite eles se aproximam e roubam uma flor do nosso jardim. E não dizemos nada. Na segunda noite, já não se escondem; pisam as flores, matam nosso cão, e não dizemos nada. Até que um dia, o mais frágil deles entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a luz, e, conhecendo nosso medo,
arranca-nos a VOZ DA GARGANTA. E já não podemos dizer nada.

*É Professor Especialista em Linguagem e Educação Escolar, Mestrando em Linguagem e Tecnologias pela Universidade Estadual de Goiás. É colunista do Cartas Proféticas.

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