língua

Que língua é essa?

“Saí da escola sem ler, sem saber multiplicação. Vencido pelo riso dos alunos que me olhavam como aberração.”
                                                                                                                                                      Facção Central

No dia 12 de junho de 2006 o presidente Lula, por meio do projeto de lei do Senador Papaléo Pais (AP) instituiu o dia 05 de novembro como sendo o dia nacional da Língua Portuguesa no Brasil. A língua enquanto código escrito é sem dúvida um dos maiores patrimônios da humanidade. Foi por meio da linguagem, assumindo aqui um papel maior do que a de mero signo linguístico, que os seres humanos utilizaram como instrumento de mediação e de significação do mundo, que a espécie humana se consolidou na face da Terra.

Quando o grande império romano conquistava territórios, uma das primeiras ações que eles faziam era impor o idioma latino. O ato constituía uma forma de aniquilamento da cultura local, uma iniludível mensagem: seu povo, sua língua, sua cultura, não existem mais. Assuma e reconheça a minha cultura.

Aqui pela terra brasilis, houve com os índios brasileiros processo semelhante por parte dos colonizadores. A língua é, foi e sempre será sinônimo de poder.

No Brasil a língua tem sido usada como instrumento de dominação e disseminação de preconceitos sociais, transvestidos de preconceitos linguísticos. A escola brasileira tem constituindo-se como o lócus propagador desses preconceitos linguísticos. Por meio de uma norma-padrão intocável e até sagrada no que diz respeito ao ensino de língua portuguesa brasileira, em nome da pureza da “última flor do Lácio”, a escola promove um aniquilamento da cultura e dos falares das classes populares urbanas e rurais.

A instituição escolar brasileira foi durante muito tempo uma escola feita por e para elites brasileiras. Tanto os professores, quantos os alunos pertenciam às camadas mais abastadas da sociedade. É dessa época a falsa ideia de que a escola pública era uma escola pública de qualidade. Era sim uma boa escola, mas era uma escola para poucos, era uma escola para elite daquele tempo. Essa classe social tinha uma norma-culta adquirida em espaços culturais que buscava uma aproximação à norma-padrão do português brasileiro. Assim qualquer “desvio” que se afastasse desses dois modelos, de fala e escrita constituía e constitui um erro e consequentemente preconceito linguístico. Entretanto o que os arquitetos desse processo não evidenciavam era que o preconceito com a língua na verdade era e é preconceito social.

As lutas sociais e o consequente processo de industrialização forçaram a abertura da escola pública brasileira, antes local das classes mais abastadas, agora ocupada pelas classes populares urbanas e rurais. Essa mudança no perfil dos educandos provocou uma mudança no perfil dos educadores. Os professores deixaram de ser recrutados nas classes sociais mais altas e passaram a ser recrutadores nas classes populares. Veja bem, houve uma mudança no perfil social da escola pública brasileira.

Mas e a língua? A língua continuou a mesma. A norma-padrão e a norma-culta continuaram e continuam dominando o processo de ensino brasileiro. Quando o professor Paulo Freire assumiu em 1989 a secretaria de educação de São Paulo, uma declaração dele soou como sacrilégio para pessoas na época. O professor Paulo disse que as professoras não deviam criticar quem chegasse na escola dizendo nois cheguemu. Toda e qualquer ameaça que coloque em risco a candura do idioma português sempre foi recebido com enleio e óbice. Todavia uma vez mais, o que não ficava evidenciado era que essa resistência configura um preconceito de classe, mesmo sendo de sujeitos (professores) pertencentes as mesmas classes sociais dos alunos.

Por meio do ensino de língua portuguesa comete-se os maiores preconceitos com os alunos hoje. Há um processo de apagamento da cultura do outro, como se dissesse:  você, seus pais, seus amigos falam errados e não sabem nada, quem sabe é quem fala o português de acordo com as normas seja culta ou padrão. É egrégio como a escola brasileira é profusa nos comportamentos preceituados em relação aos usos linguísticos. No periódico O Carapuceiro, jornal recifense do período colonial havia um irascível cronista do período a serviço da candura do vernáculo, lutando contra o mau uso que dele faziam seus conterrâneos. Pelo visto esse espirito irascível permanece na escola brasileira.

É preciso advogar por um novo ensino de língua materna nas escolas brasileiras. Lembrando que não devemos relegar aos nossos alunos o ensino da norma-padrão, isso configuraria um erro e uma tremenda injustiça social. Nossos alunos têm direito a saber os preceitos da norma-padrão. Se negarmos isso negaremos a eles  a mínima chance de ascensão social. Mas o que devemos mudar é a forma com que isso é passado. É preciso propiciar aos nossos educandos o acesso a uma gama infinita de possibilidades de comunicação, para que eles se apropriem desses códigos e desenvolvam a competência comunicativa tanta na escrita quanto na fala. Sem com isto desprezar a cultura e as vivências deles. Trazer as manifestações populares dos caipiras, dos funks, os raps, as linguagens dos repentes, dos grafites, dos free styles para escola é preciso e necessário como forma de um letramento de reexistências desses grupos sociais do campo e das cidades. Ao trazer para universo escolar toda a história que permeia a vida desses educandos, valorizando a sua cultura, sua fala e seu discurso, promovemos uma reflexão e um estudo sobre como essa linguagem pode contribuir para que o docente seja capaz de rever concepções, modificar suas práticas e oferecer aos alunos novas possibilidades e formas de aprendizagem de língua na escola. Oxalá que isso aconteça. Viva a nossa língua portuguesa brasileira.

 

 Edergênio Vieira é poeta e educador da Rede Municipal de Ensino de Anápolis.  
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