se-liga

Se liga no papo

Edergênio Vieira*

Você sabe o que é bolar? Bolar é uma gíria brasileira, uma gíria é uma forma de linguagem. É isso mesmo minha cara leitora. Da mesma forma que na sua casa você fala de uma maneira diferente do que você fala no seu ambiente de trabalho, com suas amigas, dessa mesma forma nos articulamos uma linguagem. A forma com que você fala com as pessoas que você ama é diferente da forma com que falamos com quem nós não amamos. Falei tudo isso para mostrar a você que a gíria é uma linguagem. Especialmente da periferia amigo, na gíria a moçada se joga na busca de uma palavra legal, é uma brincadeira com as palavras. Ok anotado amore?

Tal como fazia o maluco do Guimarães Rosa, o Manuel de Barros, cê tá ligado mano? E também tinha o mano lá que era inglês saca? Comoéqueé msm o nome do maluco, do tio lá dos estrangeiros, do gringo lá doido.

— Glen Greenwald?

Não, esse Glen aí é o mano americano que é jornalista, cê tá ligado? Ele é de um site de esquerda, o mano é foda, já ganhou o Pulitzer, que é um prêmio, tipo o Oscar sabe? Esse Glen é o que os caras chamam na gíria de Valdevaldo. Cê tá ligado que até deputados, pessoas ricas, as donas do pedaço, um maluco no pedaço, lá em Bed Stuy (abrev. de Bedford-Stuyvesant) onde só doido vai, lá do Brooklyn, terra do Cris, do todo mundo odeia o Cris, lá fala muita gíria, tem até aquele episódio todo mundo odeia… onde tem a gíria bolar (Let’s smoke a joint) Lembra da gíria bolar? Então, jão é sobre isso que eu tava falando maluco. Tô bolando uma tese. Mas é uma “tese acadêmica” ce tá ligado? Funciona assim, se liga no papo: eu tenho uma percepção sobre algo. Aí eu decido investigar saca? Tipo série policial de investigação, lembra? CSI, Arquivo X, MIB homens de preto. Ai eu faço o quê? Tipo eu faço um plano saca? Fico pensando na parada, ai eu escrevo coloco no papel. E depois? Aí eu me inscrevo num processo seletivo, é uma prova saca? Tipo o Enem, ou essas provas que as professoras dão lá na escola, aquelas que elas ficam no maior migué de que é importante, que é a nota da escola e blablablá, tem um amigo meu o Manuel Barbosa falava bicodepatoecaixadefósforo, ou seja, é uma pantomima, uma patuscada, um miolo de pote, algo para pegar ar, arré-égua, coisa que tá mais pra cotôco do que pra catôta, só sendo cagado ou chaleira, senão você manda se lascar o fela de gaita. Cê entendeu? As provas são um saco. Bem é isso você faz uma prova aí se você passar, nessa prova, você tem que fazer uma apresentação na frente de outras pessoas, tipo uma batalha de break dance ou free style, tipo no filme 8 milles Ruas das Ilusões, uma cinebiografia do rapper Eminen, filmaço mano, vai lá no NetFlix que tem lá, você também tem Atlanta, série legal, suave com o Glover que usa o nome artístico de Childish Gambino . Eu me identifico com o Earn, o protagonista da série, pode ficar de boa que eu não vou dar spolier não. Mas o Earn é meio voado, suave e é assim mesmo que ele denúncia de forma suave e sutil o racismo contra os pretos e as pretas, os pobres, as mulheres, os homossexuais, os trans, vale a pena, “tudo vale a pena se a alma não for pequena” Fernando Pessoa, pessoa, peoples também é gíria. Essa coisa que possibilita brincar com a semântica da palavra, a semântica não deve ser confundida com a Semiologia, a Semiologia é uma ciência que um maluco chamado Ferdinand de Saussure, um gringo resolveu prever o quê ela seria, uma ciência que estude a vida dos signos no seio social. Semiologia que advém do grego, sẽmeion, já tive aula de grego, foi na Universidade. Lá tinha aula de grego maluco. Quem dava o grego era um professor doidão lá, o Éden Vaz . Pensa no professor no melhor professor da sua vida é ele. O Éden Vaz grande professor. Tinha as gírias dele também, a linguagem do professor Éden Vaz era difícil, ele falava muito de Heidegger, que é um filósofo da Alemanha (7×1) um dos mais importantes do existencialismo do século XX, ele perguntou: “O que é ser, como é ser, o que significa perguntar qual o significado de ser?” Bem eu quase não entendia as aulas, mas isso me motivou a pesquisar para saber mais. Bem aí nasce a pesquisa, o querer pesquisar, querer saber, aprender, a escola onde eu estudei no período da infância tinha boas estruturas, era uma escola pública de qualidade, lá eu aprendi a gostar da linguagem, lá eu me apaixonei pela ciência, lá eu fiquei sabendo que bolar, era uma gíria, tipo apertar, “Vou apertar mas não vou acender agora, cê segura malandro pra fazer a cabeça tem hora” Bezerra da Silva, me apertaram no desafio de bolar uma tese, igual ao governo federal faz com o Valdevaldo, que é como os donos do poder chamam o Glen, a gíria dos donos do poder benchmark, home broker, volatilidade, come-cotas, taxa selic, Joaquim Levy, Roberto Campos Neto, Henrique Meirelles, chama o Meirelles, Paulo Guedes, Jerone Powell, black power a minha língua. A minha língua banto, tupi, latina, portuguesa, brasileira. A língua um conjunto articulado de signos que exprimem ideias, poder ser comparada, assim à escrita, ao alfabeto dos surdos-mudos, aos rituais do Candomblé, da Umbanda, o casamento, batizados, funerais, as formas de polidez, aos sinais militares. “é Brumadinho e Mariana na lama Indecência por grana, aonde quem pensa apanha 
Foda-se o Capitão e o General” Djonga. Ela é apenas o principal desses sistemas (Saussur

*É  professor, mestrando em Linguagens e Tecnologias pela Universidade Estadual de Goiás e colunista do Cartas Proféticas.

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