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Ser gay não é uma opção! – As razões biológicas da homossexualidade

Por Hermes C. Fernandes

Em posts anteriores, abordei o preconceito sofrido pelos homossexuais, e defendi que a igreja deveria acolher respeitosamente a tais indivíduos. Mas a partir deste ponto, quero dar um passo além. Sei dos riscos que corro. Porém, não me vejo em condição de me acovardar ante o sofrimento de tantos por causa de sua orientação sexual.

Como já tenho alardeado, homofobia é pecado. E quanto à homossexualidade, poderíamos dizer o mesmo? É pecado ser homossexual? O que diz a Bíblia acerca disso? O que dizem as últimas descobertas científicas? Sim, uma questão está intimamente ligada a outra, porque, se for comprovado cientificamente que a orientação sexual tem fatores biológicos, logo, teremos que rever o que tem sido dito acerca da homossexualidade em nossos púlpitos. Como Deus poderia condenar algo sobre o qual o indivíduo não tenha qualquer controle? Se o próprio Deus o criou nessa condição, que culpa lhe restaria?

Por favor, em nome do amor, peço que leia as próximas linhas, não apenas com a mente aberta, mas, sobretudo, com o coração enternecido. Lembre-se de que poderia ser um filho seu.

Vamos começar pela ciência. No próximo post, abordarei o tema sob o prisma bíblico. É verdade que ninguém nasce gay? Aquele papo de que não há gene gay procede? Quando alguém resolve sair do armário, ele ou ela se tornaram gay ou simplesmente resolveram assumir sua orientação sexual? Afinal, ser gay é uma opção ou orientação? Sejamos sinceros: alguém em sã consciência optaria por ser alvo de todo tipo de ódio e preconceito? Você consideraria isso uma opção razoável? A menos que, além de homossexual, fosse também masoquista. Se concluirmos que é uma opção, então, ninguém nasce nesta condição. Trata-se de um comportamento aprendido. Simples assim. Logo, Malafaia, Feliciano e Marisa Lobo estariam cobertos de razão. Tudo dependeria do ambiente e/ou da educação recebida. Porém, se concluirmos que é uma orientação, logo, teremos que admitir que se trata de uma condição inata.

O fato de alguém ter sido violentado quando criança explicaria sua homossexualidade? Será que todo gay foi molestado na infância? E os que por ventura foram violentados, não o teriam sido por já manifestarem trejeitos que acabaram atraindo os predadores? Veja: não se trata de culpá-los pela violência sofrida. Nada justifica esta monstruosidade. O fato é que meninos com trejeitos femininos podem atrair a atenção de pedófilos, tanto como meninas. Pais que têm filhos homossexuais deveriam redobrar sua atenção e orientar seus filhos a evitar contato com pessoas que demonstrassem tal índole. Mas, afinal, o que diz a ciência? 

 

Estudos biológicos

indicam que a formação da sexualidade acontece antes mesmo do nascimento. Parte disso se deve aos genes, mas também há fatores que atuam no desenvolvimento do feto. Bem da verdade, não há nada comprovado. Entretanto, as evidências que estão surgindo a cada dia têm potencial para provocar uma revolução no pensamento científico. Se forem comprovadas, podem subverter o entendimento que temos acerca da homossexualidade, fazendo com que deixemos de encará-la como um comportamento antinatural, e, por conseguinte, pecaminoso.

Entre os séculos 19 e 20 a psiquiatria considerava a homossexualidade como um transtorno mental resultantes de uma educação equivocada. Se tal teoria fosse comprovada, então, seria plausível acreditar numa reversão da homossexualidade, bastando que o indivíduo fosse submetido a terapias baseadas em teorias de condicionamento. Em 1973, a Associação Psiquiátrica Americana decidiu tirar de sua lista de distúrbios mentais a atração sexual por pessoas do mesmo sexo. A partir daí, o termo homossexualismo foi substituído por homossexualidade, uma vez que o sufixo “ismo” denotava doença. Em 1991, o neurocientista Simon LeVay afirmou ter encontrado diferenças em cérebros de homens gays e héteros, depois de examinar o hipotálamo, zona cerebral responsável pela sexualidade, e descobrir que a região chamada INAH-3 era entre duas e três vezes menor nos homossexuais. Aquela foi a primeira evidência da origem biológica da homossexualidade. LeVay acreditava que algo acontecia ainda no ambiente intrauterino que afetaria a sexualidade do indivíduo. [1]

Surge, então, a embaraçosa questão: o que ocorreria para definir a orientação sexual e não apenas seu gênero? Haveria um gene gay? Em 1993, o geneticista Dean Hamer, do Instituto Nacional do Câncer nos Estados Unidos, percebeu que a ocorrência de gays era maior do lado materno das famílias. Sua descoberta chamou sua atenção para o cromossomo X. Com um escâner, Hamer viu que uma região do cromossomo X, chamada de Xq28, era idêntica em muitos irmãos gays. Pode-se dizer que em vez de descobrir um gene gay, ele encontrou uma tira inteira de DNA.[2] A conexão entre a orientação sexual e os genes sugeria que ninguém escolhia ser homossexual, antes, tratava-se de uma condição congênita. Portanto, já não se podia dizer que a homossexualidade seria antinatural. Pelo menos, não à luz das descobertas científicas.

Não obstante, pesquisas mais recentes dão conta de que a homossexualidade transcende o componente genético. A maior evidência disso é o caso de gêmeos, onde, apesar de serem geneticamente semelhantes, apenas um desenvolve a homossexualidade. Ora, se a causa da homossexualidade fosse estritamente cromossômica, os dois deveriam apresentar a mesma orientação sexual. Todavia, de acordo com os pesquisadores americanos Michael Bailey e Richard Pillard, entre gêmeos bivitelinos, quando um é gay, o outro teria 22% de possibilidade de ser gay. Já entre univitelinos, a probabilidade é maior que o dobro: 52%. Considerando que a taxa entre a população estaria entre 2% e 5%, fica provado a existência de um componente genético na homossexualidade.[3]

Entretanto, fica igualmente provado que os genes não são a resposta para tudo nesta questão. Segundo o pesquisador Alan Sanders, os estudos com gêmeos sugerem uma estimativa de que até 40% da orientação sexual deva-se à influência genética. E quanto aos outros 60%? Uma possível resposta seria o desenvolvimento biológico do feto no ambiente intrauterino. De acordo com uma das mais promissoras pesquisas neste campo, os hormônios sexuais masculinos (andrógenos) se conectam às partes responsáveis pelos desejos sexuais no cérebro, influenciando seu crescimento, tornando o cérebro mais tipicamente masculino ou feminino. A conexão dependeria das proteínas receptoras de andrógenos. Supondo que cada célula do cérebro fosse uma casa, as proteínas receptoras de andrógenos (AR) funcionariam como o portão que controla a entrada. A quantidade e localização desses portões variam entre homens e mulheres. O hipotálamo masculino tem mais ARs que o feminino, por exemplo. Segundo esta teoria, a homossexualidade nos homens seria causada por portões que restringiriam a entrada de andrógenos nas regiões responsáveis pela sexualidade, produzindo, assim, um cérebro submasculinizado. Já nas mulheres, esses portões facilitariam entradas maiores, produzindo uma estrutura supermasculinizada. Tudo, portanto, seria consequência do número de ARs de cada feto, que possivelmente estaria relacionado à carga genética. Apesar de os cientistas admitirem que se trata de um processo complexo, o fato é que as pistas da ação dos hormônios pré-natais estão por toda a parte, revelando-se até nos aspectos físicos. É importante ressaltar que os hormônios importantes na formatação da orientação sexual não são os que circulam no sangue nos adultos, e cujos níveis são iguais entre héteros e homossexuais, e sim os hormônios que atuaram durante a gestação.

Fica desacreditada e descartada a hipótese de que o abuso sexual na infância seria a causa da homossexualidade, como também a que sugere que haja mais probabilidade de que haja gays em lares chefiados por mulheres ou entre filhos criados por casais de homossexuais. Dean Hamer conclui que os fatores biológicos (genes e hormônios) seriam responsáveis por mais de 50% da orientação sexual. Os outros quase 50% podem ser atribuídos a fatores psicológicos e sociais. Em outras palavras, a predisposição à homossexualidade vai se manifestar dependendo das experiências de vida da pessoa. Alguns indivíduos aprendem a sublimar, outros simplesmente se abdicam de sua sexualidade por uma causa maior. Estudo feito pelo Instituto Karolinska na Suécia, publicado em 2005, detectou através do escaneamento de atividades cerebrais que homossexuais homens apresentam resposta fisiológica aos feromônios do sexo masculino igual às mulheres heterossexuais, evidenciando claramente um componente biológico na orientação sexual.

No mesmo ano, os pesquisadores Gleen Wilson e Qazi Rahm publicaram sua conclusão de que a orientação sexual seria determinada por uma combinação de fatores genéticos e atividade hormonal durante a gestação, e que as experiências posteriores na infância, bem como o ambiente familiar, a educação e a escolha pessoal teriam pouca ou nenhuma influência no assunto. [4] De acordo com os autores, homossexuais nascem homossexuais, e a proporção de indivíduos com esta orientação sexual na população mundial parece não variar significativamente. Em 1994, a Associação Americana de Psicologia declarou que a investigação científica sugere que a orientação sexual é determinada muito cedo no ciclo da vida, possivelmente antes mesmo do nascimento.

Homossexualidade no reino animal 

Se o comportamento homossexual fosse antinatural como defendem alguns, como explicar o fato de ser tão comum no reino animal, envolvendo desde insetos até mamíferos? Pesquisa feita em 1999 pelo biólogo canadense Bruce Bagemihl [5]  revela que o comportamento homossexual já foi observado em cerca de 1500 espécies animais, desde primatas até vermes intestinais, e foi bem documentado em pelo menos 500 delas.[6] Dados atuais indicam que várias formas de comportamento sexual homossexual são encontradas em todo o reino animal.[7] Uma revisão das pesquisas feita em 2009 revelou que este comportamento é um fenômeno quase universal entre as espécies. Bem da verdade, apesar de indivíduos de centenas de espécies manterem relações sexuais com parceiros do mesmo sexo em ocasiões isoladas, poucos fazem disso uma rotina.[8]  Seu interesse pelo sexo oposto continua ao longo da vida. Portanto, não se pode classificá-los de homossexuais na acepção da palavra.

Somente duas espécies exibem preferência pelo mesmo sexo pelo resto da vida, mesmo havendo parceiros disponíveis do sexo oposto: a espécie humana e o carneiro domesticado. No segundo caso, até 8% dos machos do rebanho preferem outros machos mesmo quando há fêmeas férteis por perto.[9] Em 1994, neurocientistas descobriram que os machos desta espécie tinham cérebro ligeiramente diferente do resto, com um hipotálamo menor, que é a parte que controla a liberação de hormônios sexuais.[10] Isso endossa o já citado estudo do neurocientista Simon LeVay que descrevia uma diferença entre a estrutura cerebral de homens héteros e homossexuais.

Outro animal considerado um dos mais inteligentes e que mantém relações com indivíduos do mesmo sexo é o golfinho. Em um caso que chamou a atenção de muitos pesquisadores um par de golfinhos machos manteve um relacionamento por dezessete anos.

Nem os leões, conhecidos como os reis da selva, escapam deste curioso fenômeno. Os leões africanos geralmente mantém haréns de fêmeas e exercem sua liderança através de uma hierarquia patriarcal. Apesar disso, uma porcentagem de leões africanos machos abandonam suas fêmeas para formar seus próprios grupos homossexuais. Os leões são reconhecidamente os felinos com o maior desejo sexual, o que não os impede de desenvolver este tipo de comportamento. Entre as aves, sabe-se que mais de setenta tipos acasalam-se com indivíduos do mesmo sexo, incluindo os fascinantes pinguins.

O certo é que enquanto a homossexualidade está presente em tantas espécies animais, a homofobia só é verificada na espécie humana, e isso, para vergonha nossa.

No próximo post falarei sobre a presença gay na igreja evangélica e o que dizem as Escrituras. Peço ao Espírito Santo que ilumine nossa consciência para que compreendamos as angústias sofridas por homossexuais, pelo simples fato de não se aceitarem como são, ou por não serem aceitos pelos que os cercam. Peço que as feridas em seus corações sejam cicatrizadas e a hemorragia em suas almas se estanque por completo. Que se sintam plenamente amados em sua condição. Que se entreguem inteiramente a este amor, de modo que possam viver dignamente, guardados de uma vida promíscua em que sejam tão-somente usados como objetos descartáveis. Que encontrem quem os ame de verdade, sem exigir que se mutilem, tendo sua integridade dissolvida para atender expectativas puramente moralistas. E que assim, vivam para a glória d’Aquele que os criou, enfrentando valentemente todo preconceito raivoso, mesmo aquele impingido em nome da religião.

[1] LeVay S. A difference in hypothalamic structure between heterosexual and homosexual men Science, 1991
[2] HAMER, Dean H. et al. A linkage between DNA markers on the X chromosome and male sexual orientation. Science, n. 261, 1993, p. 321-327.
[3] BAILEY, J. Michael, PILLARD, Richard C. A genetic study of male sexual orientation. Archive of General Psychiatry, n. 48, 1991, p. 1089-1097
[4] WILSON, Gleen, RAHM, Qazi, Born Gay: The Psychobiology of Sex Orientation, London, 2005
[5] Bruce Bagemihl, Biological Exuberance: Animal Homosexuality and Natural Diversity, St. Martin’s Press, 1999.
[6] Harrold, Max (16 de fevereiro de 1999). Biological Exuberance: Animal Homosexuality and Natural Diversity The Advocate, reprinted in Highbeam Encyclopedia.
[7] “Same-sex Behavior Seen In Nearly All Animals, Review Finds”, Science Daily
[8] Levay, Simon. Queer Science: The Use and Abuse of Research into Homosexuality. Cambridge, Massachusetts: MIT Press, 1996.
[9] Levay, Simon. Gay, Straight, and The Reason Why The Science of Sexual Orientation. Cambridge, Massachusetts: Oxford University Press, 2011.
[10] Roselli, Charles E.; Kay Larkin, John A. Resko, John N. Stellflug and Fred Stormshak. (2004,). “The Volume of a Sexually Dimorphic Nucleus in the Ovine Medial Preoptic Area/Anterior Hypothalamus Varies with Sexual Partner Preference”. Journal of Endocrinology, Endocrine Society, Bethesda, MD 145 (2).

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