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SERVOS, DOMINADOS E SUBJUGADOS

Etienne de la Boétie escreveu ainda em sua juventude uma importante obra intitulada “Servidão voluntária”. Mas o que significa ser um servo hoje, o que significa encontrar-se em posição de subjugado? O que para muitos pode parecer uma gramática política datada está mais do que nunca up to date, pois esta é a acabada descrição do dominado. Durante muito tempo a oligarquia compreendeu o quão perigoso seria o avanço desta percepção coletiva de sua condição de dominada, e foi preciso muito esforço para barrá-la da mente humana, eis que borrá-la se revelaria missão tão ingrata quanto inútil.

Pensar a sociedade é operar sobre um mecanismo dinâmico, de alta mobilidade, pois é feita de matéria viva, essencialmente pulsante, humana. Como reconhece Darcy Ribeiro, nas sociedades se processam contínuas alterações e daí advém “descompassos e defasagens mais ou menos profundos”,[1] e é por este motivo que as sociedades não são apreensíveis enquanto sistemas herméticos, cristalizadores. Pensá-las como caixas fechadas tende a provocar o apodrecimento daquilo que têm de melhor, aquilo que é pura pulsação e vida ao ar fresco e limpo tal qual brisa matinal à beira-mar.

Inseridos nesta dinâmica é que os indivíduos pensam a si próprios e também aos termos das relações que são estabelecidas em sociedade entremeadas com as suas aspirações libertárias. Neste particular toda a razão assiste a Roberto Aguiar ao sustentar que “É impossível falar-se em liberdade quando um vive de sugar a energia de outro, quando poucos usufruem do trabalho de muitos, e quando muitos não podem pensar e agir senão conforme as normas e padrões de poucos”.[2] É isto o que está dado em voltagens progressivamente mais altas em nosso tempo, e de forma absolutamente aberta e escarnecedora do humano que resulta espantoso como os homens e mulheres não acusam e reagem ao que lhes fere tão intimamente a carne que lhes transpassa até mesmo a alma. A ofensa é tão intensa que a dose de estupefacientes capazes de adormecer esta percepção é progressivamente maior, a exigir cada vez mais habilidades mascaradoras por parte dos condutores do regime, pois seria insuportável ao conjunto de homens e mulheres, mais do que o sofrimento que não pode ser ocultado, perceberem-se formalmente como o que realmente são, nada mais do que servos, dominados, explorados, descarnados, subjugados e humilhados.

A ideologia dominante precisa apresentar a homens e mulheres um presente possível e um futuro disponível para ser construído, isto sim, em alguns casos requerendo mais do que suor e lágrimas, mas também sangue. Aqui alcançamos os limites impensáveis da famosa sociedade meritocrática em que alguns percorrem a distância que os separa do Éden financeiro através do deserto mais árido à cavalo, enquanto outros terão de fazê-lo à pé sob sol escaldante e noites frias escalofriantes! É isto um contrato social? É isto justiça? Absolutamente em nenhum caso isto passa da descrição da relação entre senhores ou amos e, por outro lado, os seus servos, dominados e subjugados. A fuga desta armadilha é tortuosa e não se dará alegremente nos shoppings.

Aguiar sublinha com acerto que o caminho para a justiça e a liberdade passa pela superação destas condições de exploração,[3] de que a máquina de moer gente não apenas cesse de operar como seja definitivamente aposentada, e que seu lugar venha a ser ocupado um novo espaço pedagógico de reelaborações de seres humanos. Nestes espaços a liquidação do humano através da carnificina diária de subjugação do outro aos desígnios de quem pode trocar o suor e sangue por alimento para repor o sangue e retirá-los uma vez mais, um dia após o outro, uma semana após a outra, um mês após o outro, um ano após o outro. Bem, é disto que se trata, pois isto comprime a existência humana e, à velhice, o olhar para trás desespera e desilude toda uma vida atirada às mãos de víboras financeiras dispostas a liquidar vidas por algumas moedas a mais. Mas quem terá coragem de dizer isto no rosto do leviatã que a todos pretende controlar e dominar? Mas quem terá coragem de gritar que o rei está nu?

Em face da violência institucionalizada deste Governo Temer contra homens, mulheres, jovens, crianças e idosos, enfermos ou não, há um grito seco que não termina de ecoar alto e bom som pelas ruas. Sem embargo, ele ecoa em cada um dos crucificados por um Governo absolutamente autoritário, condição que atinge por ignorar completamente o anseio das ruas e apenas negociar (literalmente) com um Congresso Nacional em que aproximadamente 75% dos que lá estão não foram eleitos pela população, a quem nem sequer se pode imputar a culpa dos atos de bandidagem que a imprensa veicula. Não, a população brasileira não elegeu diretamente aqueles que compõem a Casa e agem em seu nome, mas um sistema perverso criado e financiado pela oligarquia é quem determina o que ocorrerá nesta e na próxima legislatura, assim como na seguinte e na outra mais, enquanto segue a inocente grande mídia a anunciar ao povo para que afine e sofistique a escolha de seus candidatos.

Não se trata, portanto, de uma crise parlamentar, pois no Brasil o que há é fenômeno que já nos assola há décadas, ininterruptamente, mas que adquiriu tom inaudito quando os donos do capital que o habitam o núcleo duro do poder à revelia do voto popular decidiram colocar termo aos avanços do Estado democrático de direito e garante dos direitos sociais. Ao fazê-lo concederam primazia à luta sem quartel, critérios e nem rubor para restaurar a cultura privatista radical que despreza a agressiva desumanidade que a desigualdade social brasileira carrega em seu âmago.

O fenômeno da crise parlamentar brasileira vem sendo apresentado há muito e já foi bem descrito em 1964 por Brizola em sua crítica a um Congresso Nacional que descrevia como indisposto para atender às demandas do povo, e a principal razão para tanto, pasmem, dizia o velho Brizola, era de que o Congresso “é um poder controlado por uma maioria de latifundiários reacionários, privilegiados e de ibadianos.[4] É um Congresso que não dará mais nada ao povo brasileiro […] [que] não se identifica com as aspirações do povo brasileiro”.[5] Quem responderá positivamente ao desafio crucial da história? Será a oligarquia de sempre ou o povo tomará as rédeas de sua história?

Convém recordar que nos dias a população é vituperada e achincalhada pela grande mídia. Homens e mulheres que se mostram mais resistentes logo têm seus corpos e mentes apresentados socialmente à opinião pública como anormais. Os anormais são aqueles que levam ao limite o seu empenho na resistência pela justiça social, que dizem não à morte certa ou a hipoteca do futuro de seus filhos. Os anormais são aqueles que reagem ao temer por suas vidas e as de seus filhos, mas não aqueles que extraem seu sangue cotidianamente. Eles são um complexo bios que precisa ser controlado, que está fora de rota e, tal qual um bólido prestes a colidir e causar danos aos mais caros bens sociais, exige ser contido, e o seu controle deve começar pelo devido desprezo de todos. Assim, enquanto os homens não ouvem uns aos outros, nem seus sons e gemidos de dor, nem clamores nem soluços de pavor, eis que, por alguma estranha magia, parece, as pedras o farão, registrarão, armazenarão esta memória que saberão testemunhar em seu momento às gerações vindouras, assim como também as minas vazias parecem carregar as dores dos mineiros que ali pereceram. Chegado o momento, talvez as pedras sejam capazes de ecoar e levar ainda mais longe o clamor pela imposição ante o bárbaro e os seus executores.

Perquerir o motivo de tanto silêncio quando a corda já ultrapassou a linha do peito e quase se firma ao pescoço para a execução, o que causa perplexidade é a indiferenças daqueles que são conduzidos ao patíbulo como se se tratasse de uma massa de sedados incapazes de perceber o destino certo que em poucos minutos lhes reservará o seu verdugo. A inércia da massa de sacrificados é a única condição que torna possível o trabalho dos verdugos, que não suportariam a força de apenas meia dezena deles, mas como seguem inertes e obedientes para o patíbulo, o trabalho segue com intensa velocidade, como para evitar que o efeito do estupefaciente passe.

O vazio das ruas mesmo quando a corda já passou da linha do queixo se explica por vários motivos embora por nenhum se compreenda. Um destes motivos é a alta impactação da densa nuvem ideológico-informativo-publicitária que mantém ao coletivo de homens e mulheres em um misto de ódio-asceta calçado na letargia-conformidade temperados pela confiança no sistema de comunicação privada e o aguardo pelos próximos passos. Do que se trata é que homens e mulheres foram habituados a observar um determinado tempo para a reação às mais duras políticas opressivas e, agora mesmo, não observamos nada disto. Isto é o que causa estupefação.

O atual Governo Temer é funcional apenas para a elite financeira que espera de seu preposto os melhores serviços, mas que comete um enorme equívoco de consequências imprevisíveis. O erro guarda similaridade ao cometido pelos aliados no pós-Primeira Grande Guerra Mundial, pois ao triunfarem na guerra não souberam ser os vencedores, e ao pressionarem brutalmente a Alemanha com as condições do Tratado de Versalhes, como se sabe, colocaram todos os ingredientes para que emergissem todos os ingredientes de ressentimento, ódio e pobreza que cacifaram os horrores da Segunda Grande Guerra Mundial. A insanidade do avanço sanguinário deste atual Governo que legisla para a elite financeira sobre a população brasileira comete o mesmo grave equívoco de encontrar-se em posição vantajosa no tabuleiro político e pretender reduzir o outro à escravidão. Errarão o passo e o preço tende a ser alto. O futuro está aberto, como sempre, mas podemos vislumbrar através das frestas da história, tendo em perspectiva a memória do quanto experimentamos quando as escolhas apontam para o tortuoso, o infame e a miséria.

A história está aberta para os seus atores, e convém recordar o que já dizia lapidarmente Roberto Aguiar quando corria o já longínquo ano de 1987, e que se revela tão lastimavelmente atual: “E não há forma de se dizer que os movimentos populares de liberdade sejam injustos, por mais que certo tipo de imprensa tente denegri-los […] imputando-lhes condutas violentas. Santa violência, dizemos nós, pois essa reação se dá como explosão de não se ver outra saída para minorar os males causados pelos regimes políticos repressores. É a última via para derrubar a violência opressora cotidiana que sempre se quer perpetuar”.[6]

 

Roberto Bueno. Professor universitário.

[1] RIBEIRO, Darcy. Estudos de Antropologia da Civilização. O processo civilizatório. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968.P. 33.

[2] AGUIAR, Roberto. O que é justiça? Uma abordagem dialética. São Paulo: Editora Alfa-Omega, 1987. P. 105.

[3] Ib.

[4] Trata-se de referência ao IBADE, instituto ………..

[5] Apud FICO, Carlos. ……….. 2004, P. 282.

[6] AGUIAR, Roberto. O que é justiça? Uma abordagem dialética. São Paulo: Editora Alfa-Omega, 1987. P. 108.

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Um Comentário

  1. […] denuncismo há traços de indignação. E nos colunistas que honram este blog, como é o caso do Dr. Roberto Bueno que denuncia a desumanidade da servidão dos subjugados. No seu belo texto percebe-se crítica […]

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