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SINDICALIMO DE MERDA, PAREM DE MAMAR NAS TETAS

Depoimento angustiado e desabafo corajosos de uma grande mulher. A profª Ailma é presidente reeleita da CTB de Goiás. Exemplo e inspiração de luta.

Como líder aguerrida é exemplo sem parar. Como mulher é exemplo de desapego por amor aos trabalhadores e às trabalhadoras. Como agente social é exemplo de amor ao Brasil na luta contra o golpe injusto e safado. Como professora,  educa pelo exemplo e pela comunhão com a verdade ocultada ao povo pela mídia mentirosa.

Solidariedade à professora Ailma, presidente reeleita da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil! Uma mulher que Goiás aprendeu a respeitar e a amar por vê-la sempre ao lado dos trabalhadores, dos excluídos, dos pobres, dos injustiçados e violentados.


Profa. Ailma Maria Pereira:

Iniciei minha vida no movimento sindical quando descobri que não bastava ser boa professora. Na escola faltava quase tudo. Só tínhamos alunos e algumas poucas professoras com boa vontade e sem muito conhecimento. A escola funcionava em uma casa que ia ser despejada por falta de pagamento de aluguel. Fizemos uma denúncia e um dos meios de comunicação divulgou. Fomos repreendidos pelo prefeito Norberto Teixeira que nos puniu ao inaugurar nova escola (de placa), construida pelo governo do estado. Fomos transferidas para várias outras escolas. A minha a mais distante. Pegava um ônibus que ia para outro município, andava mais de um quilômetro, no meio do mato para chegar na escola. Só tinha dezessete anos. Mas, não desisti. Sabia que poderia colaborar com aquelas pessoas. Ganhava muito pouco, mas tinha carteira assinada. Me casei. Meu marido adoeceu, tive que ajudá-lo. Fiquei grávida. Fui perseguida, perdi o emprego. Não sabia dos meus direitos. Fui trabalhar na rede privada. Escolinha pequena, pagava mal, mas pude contribuir com a comunidade e com a família. Na época, um irmão e um primo ganharam meia bolsa para estudarem na escola. Minha filha nasceu e eu, ainda era uma estudante. Não tive licença maternidade. Não pude amamentar minha filha. Não sabia que tinha esse direito, chorava no ônibus quando o peito explodia o leite materno.  Me esforcei nos estudos. Gostava da pedagogia. Mas tinha que estudar, trabalhar e cuidar da casa, da filha, da família. Tive um bom companheiro. Isso foi importante para a minha trajetória. Sempre contei com bons relacionamentos. Meus pais sempre foram cercados de amigos e nos ensinou a dar valor nas pessoas. Solidariedade aprendi em casa, no dia a dia. Meu pai me levou ao mundo sindical, ainda aos dez anos de idade, embora, sem muita participação,ele sempre soube dar valor ao salário e a administrá-lo, para nunca nos faltar comida. Motorista da Fundação Brasil Central foi um dos desbravadores da Expedição Roncador Xingu. Se encantou com minha mãe e a roubou. Minha avó baiana arretada, fez distribuição das poucas terra que tinha aos mais necessitados. Era a dona do Pindaiba, hoje, falecida é a mais querida das pioneiras do Mato Grosso. Nasci na Serra do Roncador Xingu, meu pai estava na mata, foi avisado pelos índios que eu havia chegado, demorou três meses  para me conhecer. Vim para a cidade grande aos seis anos de idade, com medo e sem muita opção, éramos seis irmãos, eu a segunda mais velha. Deixamos de andar descalço,  e seminus na beira do Araguaia para enfrentar a civilização. Meus irmãos ao chegar em Goiânia tiveram sarampo, e eu tinha que ajudar minha mãe a cuidar dos mais novos.Ela, muito dedicada, amamentou todos os oito filhos com doçura. Meu pai me ensinava a ler. Minha mãe a escrever, letra linda da Dona Rita, que estudou em boa escola.  Recebi muito dos dois. Aos dez anos, defini que iria ser professora. Ensinava os mais novos. Gostava de giz. De gibis..Tivemos poucos livros, mas, os que tínhamos eram devorados. Me cadastrei no Clube do Mikey. Gostava do senso de honestidade e do cuidado com os sobrinhos que este personagem nos trazia.Nunca gostei da Madame Mim, ou do  Tio Patinhas, aquela estória de mergulhar no dinheiro e a luta pela modea número 1, era ridícula. Meu pai queria que ganhássemos dinheiro. Mas gostava que eu fosse artista, ou professora. Nunca entendeu quando deixei a possibilidade de um emprego em Contabilidade, para ganhar metade do salário como monitora da FUNDEC. Eu me realizava  no emprego, e com os amigos, socializava alegria. Passei por várias experiências. Sou concursada de duas redes. Dei aula em várias escolas. Sempre apaixonada. Sofri,cresci um pouco, aprendi. Queria ser mais dedicada a família. Mas foi na luta sindical que eu me formei. Me dediquei, me entreguei. Minha segunda filha nasceu após liderar uma grande greve de professores no município de Goiânia em 94, quando conquistamos um dos melhores planos de carreira do magistério. Aí, já tive licença maternidade e amamentei até aos seis meses. Mas desmamei para ir a um congresso da Confederação. Ela até hoje me cobra isso. Aquele olhar de tô de mal, quando voltei, ainda é marca na memória. Estive ausente em vários momentos importantes na vida da família. Mas adquiri respeito de uma boa parte deles. Sempre estive na luta. Fui presa, condenada sem nunca cometer nenhum crime. Nunca roubei, nunca matei, nunca enganei. Não tenho apego a propriedades, muito menos a cargos. Chego aos cinquenta anos de idade com maturidade de quem na dureza da vida, ainda quer ser jovem e feliz.

Mas, sofro impedimentos. Há aqueles ou aquelas que não sabem da missa a metade. Não sabem o que sofri e sofro por lutar  por justiça e dignidade. Avaliam que basta estar na estrutura da burocracia sindical e arrotar boa gestão. Sou sindicalista, mas sou mesmo é mulher, mãe, professora e gosto de ser. Após trinta anos de luta pela educação, hoje sou conselheira no Conselho Estadual de Educação de Goiás. Tenho orgulho de aprender, de procurar fazer bons  relatos e defender os estudantes.Não foi fácil chegar até aqui. Uma menina índia, nanica, pés descalços, sem blusa, cabelo ao vento.

Hoje, conselheira, no Conselho emiti  parecer para uma estudante ter o direito de amamentar sua filha na escola. Trinta anos depois de ter sido impedida, pelo desconhecimento do meu direito de amamentar. Pela falta de solidariedade dos meus professores e pela dureza da vida, minha filha primogênita não mamou. Hoje, tive  que usar a caneta e o poder de conselheira, para garantir o cumprimento da legislação internacional conquistada pelas mulheres. O direito de amamentar. Ainda hoje, temos que lutar por isso?

Em que  cidade civilizada, em que estado, em que país, em que cultura nós estamos?  Eu quero a minha tribo de volta. Deixo a civilização.

Tá tudo muito difícil eu sei. Temos que lutar. Lutar pelos filhos, pela família,  pela escola, pelos professores, pelos trabalhadores, pelo bairro, pela cidade, pelo Brasil. Mas, muitos só querem mesmo é MAMAR NAS TETAS.

Lá na tribo dos Xavantes, eu vou pensar.
AILMA MARIA.

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4 Comentários

  1. Cada vez mais acredito que as pessoas já nascem grandes, quando não passam pela vida apenas por respirar Parabéns, professora Ailma!

  2. Grata querida Socorro!!
    Venceremos !!

  3. Grande líder sindical que tenho o prazer de ser testemunha de parte desta história e trajetória.

  4. Fera essa sindicalista. É disso que os sindicatos precisam. Pessoas de verdade, não esses pelegos que ficam em cima do muro e depois querem se candidatar a cargos do legislativo.

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