Lênin

Sobre a Revolução russa: “Por onde começar?”

Nos 100 anos da Revolução Soviética de 1917, o INVERTA inicia a série especial de textos clássicos e contemporâneos sobre o tema, republicando Por Onde Começar? Obra de V. I. Lênin, escrita em 1901, em que ele destaca o caráter imprescindível do jornal como órgão central da organização revolucionária, atuando não apenas como um propagandista e agitador coletivo, mas também um organizador coletivo.

No último ano, a pergunta “Que fazer?” se impôs com força particular aos social-democratas russos. Não se trata de escolher um caminho (como foi o caso nos fins dos anos oitenta e início dos anos noventa do século XIX), mas de saber quais passos práticos devemos dar sobre uma rota já traçada, e precisamente de que modo. Trata-se do método e do plano de atividade prática. E precisamos reconhecer que os problemas do caráter e dos métodos da luta, fundamental para um partido prático, não estão completamente resolvidos entre nós e continuam a suscitar sérios dissensos, que revelam uma instabilidade e incerteza ideológica deploráveis. De um lado, está ainda bem viva a tendência “economicista”, que inferioriza e restringe o trabalho de organização e agitação política. De outro lado, continua de cabeça firmemente erguida a tendência do ecletismo sem princípios, que muda ao sabor de qualquer brisa e não sabe distinguir entre os interesses imediatos das tarefas essenciais e das exigências permanentes do movimento em seu conjunto.

Como é notório, esta tendência está implantada no Rabotcheie Dielo. A sua última declaração “programática”, um altissonante artigo sob o altissonante título de Uma reviravolta histórica (n. 6 do Listok Rabotchevo Dielo), confirma com particular evidência o comportamento característico supra indicado. Eis como se comportam: Ontem ainda estávamos com o “economicismo”, indignávamo-nos com a decidida condenação do Rabotchaia Myls, “atenuávamos” a imposição plekhanoviana da questão da luta contra a autocracia, e hoje já citamos as palavras de Liebknecht: “Se as circunstâncias transformam-se em vinte e quatro horas, é preciso modificar a tática em vinte e quatro horas”, já falamos de uma “forte organização combativa” para o ataque direto, para o assalto contra a autocracia, que promova ampla agitação revolucionária e política (guarde bem como somos agora enérgicos: revolucionária e política!) entre as massas, “incansável apelo aos protestos de rua”, e “organização das manifestações de rua com notório (sic!) caráter político”, etc, etc.

Poderíamos, com efeito, declararmo-nos contentes com o fato do Rabotcheie Dielo haver assimilado tão rapidamente o programa avançado que publicamos no primeiro número do Iskra, de criação de um forte partido organizado, imbuído do objetivo não de conquistar simples concessões, mas sim a própria fortaleza da autocracia, porém, o fato destes indivíduos não terem opiniões firmes enfraquece a nossa alegria.

Rabotcheie Dielo, naturalmente, evoca Liebknecht em vão. Em vinte e quatro horas se pode mudar a própria tática de agitação nessa ou naquela questão específica, a própria tática em questão ou alguma particularidade da estrutura do partido, mas somente indivíduos sem princípios podem mudar em vinte e quatro horas, ou mesmo em vinte e quatro meses, a própria ideia sobre a necessidade – em geral constante e absoluta – de uma organização de luta e de agitação política entre as massas. É ridículo evocar a frase de Liebknecht em outra situação, ao sucederem-se os períodos: Questionar se deve-se trabalhar por criar uma organização combativa e realizar uma agitação política em qualquer situação, em períodos “cinzentos, pacíficos”, em períodos de “declínio do espírito revolucionário”, quando ao contrário, exatamente nessas situações e nesses períodos é particularmente necessário esse trabalho, porque nos momentos de explosões sociais não há tempo hábil para criar uma organização, que nesses momentos já deve estar pronta para poder desenvolver imediatamente sua atividade. “Mudar a tática em vinte e quatro horas”!? Mas para poder mudar a tática é necessário antes de tudo ter uma tática, e se não existe uma organização viva, preparada para a luta política em qualquer momento e todas as situações, não se pode falar de qualquer plano sistemático de ação, iluminado por princípios firmes e rigorosamente aplicado, que é só o que merece o nome de tática. Vejamos, de fato, como estão as coisas: Já se disse que o “momento histórico” colocou diante do partido um problema “completamente novo”, o terrorismo. Ontem, “completamente novo” era o problema da organização política e da agitação, hoje o do terrorismo. Não é muito estranho ouvir escritores públicos se esquecerem a tal ponto da própria história russa sobre uma radical mudança de tática? Afortunadamente, o Rabotcheie Dielo está errado. O problema do terrorismo não é de fato novo, a nós basta recordar brevemente a opinião que vimos formando-se dentro da social-democracia russa.

“Um jornal, todavia, não tem somente a função de difundir ideias, de educar politicamente e de conquistar aliados políticos. O jornal não é somente um propagandista e agitador coletivo, mas também um organizador coletivo.”

Na linha dos princípios nós não renunciamos nunca e não poderíamos renunciar ao terrorismo. É uma operação militar que pode perfeitamente servir, e ser até necessária, em um determinado momento da batalha, quando a tropa se encontra em uma determinada situação e existindo determinadas condições. Mas a substância do problema é precisamente que hoje o terrorismo não vem absolutamente proposto como uma operação do exército operante, estritamente ligada e adequada a todo o sistema de luta, mas como um meio de ataque singular, autônomo e independente de todo o exército. E quando falta uma organização revolucionária central e as locais são frágeis, o terrorismo não pode ser nada diferente. Eis porque dizemos decididamente que nas circunstâncias atuais este meio de luta é intempestivo, inoportuno, uma vez que desvia os combatentes mais ativos de suas verdadeiras tarefas, mais importantes para todo o movimento, e desorganiza não a força governante, mas a revolucionária.

Recordai os últimos acontecimentos: diante de nossos olhos grande massa de operários e “populares” desejando atirar-se à luta, e os revolucionários estão privados de um Estado maior de dirigentes e organizadores. Nestas condições, não se corre talvez o risco que, se os revolucionários mais enérgicos passam à atividade terrorista, se enfraqueçam as únicas divisões de combatentes sobre as quais podemos basear sérias esperanças? Não se corre talvez o risco de romper-se a ligação entre as organizações revolucionárias e a massa dispersa dos descontentes, que protestam e estão prontos para a luta, mas são frágeis exatamente porque estão dispersos? Contudo, essa ligação é a única garantia de nosso êxito. Longe de nós o pensamento de negar qualquer importância às ações heroicas isoladas, mas temos o dever de nos colocarmos energicamente em guarda contra as permissivas exaltações do terrorismo, contra reconhecê-lo como principal e fundamental meio de luta, coisa à qual muitíssimas pessoas estão propensas hoje em dia. O terrorismo não poderá nunca tornar-se uma ordenada ação militar: no melhor dos casos, pode servir somente como um dos métodos do assalto decisivo. Aqui se levanta a questão se no momento atual poderíamos fazer apelo a esse assalto. O Rabotcheie Dielo, ao menos parece, responde que sim. Ao menos exclama: “Alinhai-vos na coluna de assalto!” Mas, ainda uma vez, muito zelo e pouca sensatez. A massa principal de nossa força militar é composta de voluntários e pelos insurretos. Possuímos somente algumas pequenas divisões de tropas permanentes, e essas ainda não são mobilizáveis, não são amigáveis entre si, não são treinadas, em geral, para alinhar-se em uma coluna militar e menos ainda em uma coluna de assalto. Nestas condições, qualquer pessoa capaz de compreender as condições gerais de nossa luta sem esquecer cada “reviravolta” do curso histórico dos acontecimentos, deve ter claro que nossa palavra de ordem, nesse momento, não pode ser “lançar-se ao assalto”, mas deve ser “organizar um assédio regular à fortaleza inimiga”. Em outras palavras: A tarefa imediata de nosso partido não pode ser utilizar todas as formas ora disponíveis de ataque, mas promover a formação de uma organização revolucionária, capaz de unir todas as forças e de dirigir o movimento não somente no nome, mas de fato, isto é, de estar sempre pronta a sustentar qualquer protesto e qualquer explosão social, desfrutando destas para multiplicar e consolidar as forças militares que possam servir para a batalha decisiva.

A lição dos acontecimentos de fevereiro e março (de 1901)[1] é tão sugestiva que é duvidoso se podemos sofrer objeções de princípio contra esta conclusão. Mas, nós hoje devíamos resolver o problema não no campo dos princípios, mas praticamente. Devíamos não somente esclarecer a nós mesmos qual organização precisamos exatamente, e por meio precisamente de quais trabalhos: devíamos elaborar um plano de organização que passe a ser executado por todas as partes do partido.

Considerada a urgência do problema, decidimos de nossa parte submeter à atenção dos camaradas o esboço de um plano, que desenvolvemos de modo mais detalhado em uma brochura em curso de preparação para impressão.[2]

Em nosso parecer, o ponto de partida da nossa atividade, o primeiro passo prático para criar a organização que desejamos, o fio condutor, enfim, segundo o qual poderemos incessantemente desenvolver, enraizar e ampliar essa organização, deve ser a fundação de um jornal político para toda a Rússia. Aqui precisamos antes de tudo de um jornal; sem um jornal é impossível coordenar sistematicamente a propaganda e a agitação multiformes e consequentes que constituem a tarefa permanente e principal da social-democracia em geral, e a tarefa particularmente urgente do momento atual, no qual o interesse pela política, pela questão do socialismo, está despertando na mais ampla parte da população. E nunca foi sentida com tanta força como hoje a exigência de se completar a agitação dispersa, feita através da ação pessoal, dos jornalecos locais, folhetos etc. Completar com a agitação generalizada e regular que se pode desenvolver somente por meio da imprensa periódica. Não creio que seja exagerado afirmar que a maior ou menor frequência e regularidade da saída (e difusão) do jornal poderá ser o índice mais exato da solidez dos êxitos obtidos na organização desse setor, que é o mais elementar e mais importante de nossa atividade militar. Diga-se, aquilo de que aqui precisamos é um jornal para toda a Rússia. Se não sabemos e enquanto não soubermos unificar a nossa influência sobre o povo e o governo mediante a palavra impressa, será utopia pensar que podereremos unificar outros meios de influência mais complexos, mais difíceis e a curto prazo mais decisivos. O nosso movimento, seja do ponto de vista ideológico ou do prático, organizativo, sofre sempre muito por causa de seu fracionamento, dado que a imensa maioria dos sociais-democratas está quase completamente absorvida pelo trabalho puramente local, que restringe seu horizonte e a amplitude de sua atividade, de sua experiência clandestina e a sua preparação. Exatamente desse fracionamento se deve cortar as raízes mais profundas, daquela instabilidade e daquela fraqueza da qual tratamos acima. E o primeiro passo adiante para livrarmo-nos desse defeito, para transformarmos diversos movimentos locais em um único movimento nacional russo deve ser a organização de um jornal para toda a Rússia.

Sobre esse último aspecto, pode-se comparar o jornal com a estrutura de andaimes que envolve o edifício em construção mas permite identificar seus traços, facilita os contatos entre os construtores, ajudando-lhes a subdividir o trabalho e a dar conta dos resultados gerais obtidos com o trabalho organizado.”

Enfim, aqui necessitamos absolutamente de um jornal político. Na Europa moderna sem um órgão de imprensa político é inconcebível um movimento que mereça ser chamado político. Sem um órgão de imprensa político é absolutamente impossível cumprir nosso dever de concentrar todos os elementos de descontentamento de protesto político, de fecundar com estes o movimento revolucionário do proletariado. Demos o primeiro passo, despertamos na classe operária a paixão pelas denúncias “econômicas”, de fábrica. Devemos completar o passo seguinte: despertar em todos os estratos do povo mais ou menos conscientes a paixão pela denúncia política. Se as vozes que se levantam para desmascarar o regime são hoje tão frágeis, raras e tímidas, não devíamos ficar impressionados. Isso não se deve à resignação geral ao arbítrio policial. É devido ao fato que os homens capazes de fazer as denúncias, e prontos a fazê-las, não têm uma tribuna na qual possam falar, não têm um público que escute e aprove apaixonadamente os oradores; ao fato destes não verem de nenhuma parte no povo uma força à qual valha a pena dirigirem-se para protestar contra o “onipotente” governo russo.

Mas hoje tudo isso vai se modificando com extraordinária rapidez. Esta força existe, é o proletariado revolucionário; já demonstrou estar pronto não somente a ouvir e sustentar o apelo à luta política, mas também a somar-se corajosamente na luta. Temos hoje a possibilidade e o dever de criar uma tribuna na qual todo o povo possa denunciar o governo czarista, e essa tribuna deve ser um jornal social-democrata. A classe operária, diferente das outras classes e dos outros setores da sociedade russa, mostra um constante interesse pelo conhecimento político, pede continuamente (e não somente nos períodos de particular efervescência) publicações ilegais. Quando existe tal pedido por parte da massa, quando já estão se formando dirigentes revolucionários experientes, e a concentração da classe operária resulta que esta habita os bairros operários das grandes cidades, as vilas operárias, os subúrbios industriais, a fundação de um jornal político é coisa para a qual o proletariado está perfeitamente preparado. E através do proletariado o jornal penetrará nas fileiras da pequena burguesia urbana, dos artesãos rurais e dos camponeses e se transformará em um verdadeiro jornal político popular.

Um jornal, todavia, não tem somente a função de difundir ideias, de educar politicamente e de conquistar aliados políticos. O jornal não é somente um propagandista e agitador coletivo, mas também um organizador coletivo. Sobre esse último aspecto, pode-se comparar o jornal com a estrutura de andaimes que envolve o edifício em construção mas permite identificar seus traços, facilita os contatos entre os construtores, ajudando-lhes a subdividir o trabalho e a dar conta dos resultados gerais obtidos com o trabalho organizado. Através do jornal e com o jornal se formará uma organização permanente, que se ocupará não somente do trabalho local, mas também do trabalho geral sistemático, que ensinará a seus membros a acompanharem atentamente os acontecimentos políticos, a avaliar a importância e a influência de diversos estratos da população, a elaborar quais métodos permitem ao partido revolucionário exercitar sua influência sobre os mesmos. Até mesmo as tarefas técnicas de assegurar ao jornal fornecimento regular de recursos e uma distribuição eficiente obrigará a criar uma rede de distribuidores/correspondentes locais de confiança do partido único, distribuidores/correspondentes que deverão manter-se em contato vivo uns com os outros, deverão conhecer a situação geral, habituar-se a executar regularmente uma parte do trabalho para toda a Rússia, a experimentar as próprias forças organizando ora esta, ora aquela ação revolucionária.[3] Esta rede de distribuidores/correspondentes[3] será exatamente o esqueleto da organização de que aqui precisamos: suficientemente grande para estender-se por todo o país; suficientemente ampla e variada para efetuar uma rigorosa e detalhada divisão do trabalho, suficientemente preparada para saber cumprir inflexivelmente o seu trabalho em todas as circunstâncias, em todas as reviravoltas e em todos os imprevistos, bastante flexível para saber, por um lado, evitar a batalha em terreno descoberto e contra um inimigo de forças superiores, que as concentrou em um só ponto e, por outro, aproveitar das incapacidades de manobra do inimigo para cair-lhe em cima no lugar e no momento em que ele menos espera. Hoje, diante de nós se coloca uma tarefa relativamente fácil, apoiar os estudantes que se manifestam nas praças das grandes cidades. Amanhã, pode se colocar uma tarefa mais difícil, por exemplo, apoiar o movimento dos desempregados de alguma região. Depois de amanhã, deveremos estar talvez em nosso posto participando de modo revolucionário de um levante camponês. Hoje, devíamos usar o agravamento da situação política que o governo criou com a cruzada contra o zemstvo (espécies de parlamentos rurais de tipo feudal russo). Amanhã, deveremos apoiar a indignação da população contra este ou aquele agente czarista, desencadeando e ajudando, mediante os boicotes, as denúncias, as manifestações etc., a dar uma lição tal que o constranja a se retirar. Tal grau de preparação para a luta pode se formar somente com uma atividade contínua em que se empenhe a tropa regular. Se nós unirmos nossas forças para desaguar em um jornal de escala nacional, tal trabalho fará surgir e formará não somente os propagandistas mais hábeis, mas também os organizadores mais experientes, os chefes políticos mais capazes de saber lançar no momento exato a palavra de ordem da luta decisiva e dirigir essa luta.

Para concluir, algumas palavras para evitar um possível equívoco. Temos sempre falado sobretudo de uma preparação sistemática, planificada, mas com isto não pretendemos de fato dizer que a autocracia poderá cair exclusivamente em seguida a um assédio regular e um assalto organizado. Não pretendemos cair em um doutrinarismo absurdo. Ao contrário, é plenamente possível e historicamente muito mais provável que a autocracia caia sob a pressão de uma daquelas explosões espontâneas ou daquelas complicações políticas imprevisíveis, que ameaçam vir continuamente de todas as partes. Mas nenhum partido pode, sem cair no aventureirismo, planejar sua atividade com base na esperança de explosões sociais e complicações políticas. Nós devemos seguir o nosso caminho, desenvolver sem pausas o nosso trabalho sistemático, e quando menos esperarmos, e surgirem esses imprevistos, tanto maiores serão as possibilidades de não nos deixarmos pegar desprevenidos por nenhuma “reviravolta histórica”.

NOTAS

* Publicado pela primeira vez no Iskra, número 4, de Maio de 1901.

[1] Em fevereiro e março de 1901, em Petrogrado, Moscou, Kiev, Karkov, Iaroslav, Tomsk, Varsóvia, Bielostol e em outras cidades da Rússia aconteceram furiosas agitações de estudantes, comícios, manifestações e greves de operários.

[2] Nota do tradutor: Trata-se da obra “Que Fazer?”, que foi publicada somente em 1902.

[3] É óbvio que tais distribuidores/correspondentes poderiam trabalhar com êxito somente se mantivessem estreitíssimos contatos com os comitês locais (grupos, círculos) do nosso partido. Naturalmente, todo o plano traçado por nós pode, em geral, ser realizado somente se contar com o mais ativo apoio dos comitês, que têm dado mais de um passo em falso para a unificação do partido e que, estamos certos, obterão essa unificação se não hoje, amanhã, se não de uma forma, de outra.

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