tempos de sangue

Tempos de sangue

Roberto Bueno*

Há gente que se especializou em amassar sonhos e destroçar corpos, circulando e regozijando-se em meio ao desastre das carnes expostas e o cenário de repleta destruição das vidas. Demência instalada em estado puro. Há gente assim, e se não são tantos, a patologia mental os torna perigosíssimos em sua sanha potencialmente genocida. Infectam ambientes inteiros e o meio ambiente também, impõe severos prejuízos que uma nuvem inteira de gafanhotos ousaria impor nem tampouco os mais insanos dentre os guardas dos campos de concentração nacional-socialistas. Há os que se uniformizam para refestelar-se com o sangue, qual insanos, entre a carne humana destroçada, que perfurada faz jorrar o precioso líquido humano qual a riqueza do óleo que entregam sem se importar. Uma e outra vez urram sem hesitar nem enrubescer ao fazer arder o mundo que devem legar e em que lhes toca viver.

Indiferente, esta gente deixa atrás de si fabulosa fileira de corpos dilacerados e sangue em profusão e milhões de sonhos e esperanças também trituradas. Simplesmente não importa a estas almas secas e deterioradas nada mais do que reluzir Rolex e Loboutin, transitar entre Aspen e os mistérios financeiros óbvios da Ilha de Jersey. São os zés e os eduardos, os guedes e que tais, mas também armandos e armínios que, quais pássaros vistosos, sobrevoam o cenário da depredação em cujo chão transitam os fernandos resilientes, dignatários indignos em última idade curtida na inveja e hoje arquivados sob a identificação de biografias tão manchadas quanto as areias litorâneas por óleo cru.

Esta gente está acompanhada de todo tipo de violentos porfírios pequenos, falsos profetas e mefíticos monarcas, e também por pérfidos assistentes, indivíduos vestidos de preto cheios de falta de código e repletos da soberba acompanhada de privilégios que assombraria e causaria inveja aos mais emproados condes e condessas. Não adentram solitários em cena para perpetrar o mal, senão secundados pela guarda pretoriana, milicianos e uniformizados afins, e outros milhares de colarinhos brancos mal-lavados pulverizados por todo o território céleres celerados ávidos por concretizar o grande saque.

O território é amplo, e nele convivem mil perversos de todo o tipo, circundados por extensa corja que se esgueira entre os mil cargos do reino no qual o porteiro encarna a figura popular da autenticidade perdida em meio a densa lama espalhada pelos insidiosos condôminos sob o tapete vermelho de veludo que o falso rei insiste em pisar quando não aciona a sua carruagem aérea para, isolado, ostentar mundo afora a faixa démodé que carrega no peito enquanto congraça com seus admirados coroados cujas mãos avermelhadas não desmentem as mortes ordenadas. Motivo de alegria da insanidade é refestelar-se com todos os tons de coordenadores da miséria humana.

Enquanto trafega deixando toneladas de pó pelos ares em sua marcha insana, fica o reino entregue aos uniformizados esverdeados (pre)dispostos a ameaçar e enfrentar o indefeso povo para extrair-lhes a riqueza que remanesça em seus bolsos a quem restará a guariroba como os brioches aos franceses revolucionários. Os uniformizados apoiam com o silêncio a insensatez, e assim avançam os carreiristas de plantão a seguir a sua insana corrida para alcançar a confortável sombra em um tempo em que já não restarão sequer árvores para alguém quando regressar o pequeno pirômano que emula Nero.

Reino mal-ajambrado em que os aristocratas desconhecem a virtude e a contenção, familiares apenas à malsinada plebe maltrapilha tão desprezada quanto nada desprezível como os seus furiosos algozes. Confuso reino cujas cabeças mal coroadas por fora carregam densa patologia por dentro, cuja guarda aloprada treina em clubes de tiro para eliminar gente à facadas, guarda fuzis às centenas como se de colecionadores se tratassem aqueles que tem longa história no submundo. Ali o baixo clero, claro, uniformizado, não ostenta a sua particular coragem, que tampouco está disponível para enfrentar homólogos armados estrangeiros, senão nada mais que empregar a sua fúria contra o povo desarmado, de mulheres a idosos passando por jovens e crianças lhes pagam regiamente o soldo, que logo merecerão o epíteto de perigosos inimigos da pátria.

Destemperados dias habitados por gente deplorável, em que os “corajosos” são os que aplicam a força covardemente até para vilipendiar a imagem e a homenagem aos assassinados. Empregam cães, espadas e gases intercalados com projéteis quer de borracha até eventuais rajadas de letais 200 disparos contra gente que nunca soube de onde partiram nem muito menos o motivo. O regime dá carta-branca para matar à luz do dia ou na calada da noite, já não importa mais, e apenas a cegueira insiste em evitar o mundo que grita uma e outra vez que já não é mais uma questão de ousadia o enfrentamento, mas de sobrevivência.

Os executores exalam indômita alegria no ato de imposição da morte, e de elogiar o extermínio, não contém a ânsia pela tortura, patologia. Servis nada viris, discriminam o que perturba, e superam com sobras ainda as piores provas de infâmia em sua disposição para aplicar todo o tipo de violações físicas contra os tantos deserdados e indefesos que caiam em suas mãos, vozes caladas definitivamente antes mesmo que ecoe o primeiro grito de socorro no ar. Estes são tempos de transgressão de signos e de significados, tempos cortantes em que o auto-reputado virtuoso aspira a tal condição tão só para dar vazão às profundezas da canalha em cujas profundezas a misericórdia é desconhecida. Assim, quando recentemente soou o telefone em Santiago, era para o império passar o velho recado requentado de 1973: apoio ao período de exceção (formal) imposto à sofrida gente dos Andes. Enquanto isto na colônia brasilis também era veiculada a iminência da declaração da exceção sempre e quando as reclamações populares ganhassem as ruas atingindo níveis bem mais modestos de violência do que aqueles que o regime ordinariamente impõe sobre o seu próprio povo. O recado foi claro e inequívoco a todos: ardam sob o fogo, pereçam sob a não cicatrização de todo o tipo de chaga, sofram com suas vidas irrelevantes, e morram-nas sob silêncio obsequioso ou, pior, outros muitos serão trucidados pelo regime patrocinado por Sam, o já ancião e tenebroso tio.

Por onde transita esta gente que faz sangrar, e sem sangrar, não floresce a natureza nem transita o verbo, pois ela não se vale mais do que da força bruta, habilidade única e tão típica dos primitivos – mas não dos primatas (aos quais prefiro) – relativamente aos quais pouca mantém distância, exceto a cronológico-temporal. Os detratores da democracia ostentam orgulhosamente a força como recurso ordinário em substituição ao verbo, como se de coragem realmente se tratasse a dedicação completa em amassar corpos de gente indefesa, pervertendo até mesmo o sentido exclusivo da covardia. Triste gente triste, mas muito perigosa, pois a patologia não destitui a conduta objetiva da aptidão para a criminalidade violenta.

Triste o país que é coordenado pela mescla de poderosos homicidas, covardes em profusão e carreiristas por profissão, e tantos omissos à espera de definição. Tristes os tempos marcados pela destruição quando a marca da prosperidade encontra-se à distância da mão enquanto filhos perecem à míngua e pais e avós perecem sem assistência: o presente lhes é roubado e o futuro também. Tristes os dias em que as gentes são persuadidas a abandonar a virtude e cultivar o ódio cru. Tristes os tempos em que a solidariedade e a fraternidade são arquivadas pelos homens de fé para orgulhosamente brandir o hino da violência sem par professado por torturadores, que já não se contentando com despedaçar corpos resolveram também implodir a esperança, e como se fosse pouco esterilizar o presente e salgar o futuro destroem até o passado. Tristes tempos em que os animais cobram as virtudes humanas e os humanos reclamam a condição animal, tal qual leões vorazes.

O leão avança em meio a falsas hienas enquanto as zebras já partiram há muito da margem do poluído riacho, pois sabem o que isto significa. Outros desatentos animais do reino continuam insensatamente em repouso à margem após a frustrada tentativa de saciar a sede no lodo, inobservando o perigo que está a rondar e definirá o seu futuro. Sucumbirão, pois a liberdade é um bem cujo desfrute é interditado aos negligentes. A dúvida razoável sobre o quão trágico será o desfecho e intensidade da destruição é respondida pela destreza com que o leão desferirá o seu ataque e liquidará mesmo os incautos que fujam para a selva vizinha? Quando já é entrada a alta madrugada em que zanza o espectro humano de malfeitores endinheirados afogados em seu chorume resta saber qual manada conterá o falso rei em uma selva já ardente em chamas. Sob os escombros do evento ígneo já dançam as sombras, mas remanescem fortes resistentes, prestes a despertar do sono inglório e fatal pelo limiar de uma ocasional faísca para conter o temido predador. Tempos de destruição.

*Roberto Bueno. Professor universitário. Colunista do Cartas Protéticas.

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