analfabetismo funcional

Um país de analfabetos funcionais

Edergênio Vieira*

Desde que os Sumérios há 3000 a.C lançaram-se no desafiador empreendimento da escrita com significado social, passando pela invenção de sistemas numéricos, a vida em sociedade tem sido atravessada por esses elementos, que transformaram a relação do homem moderno com o mundo a sua volta. Hoje mais do que nunca, vivemos numa civilização que tem funções sociais como saber ler, escrever e realizar operações matemáticas ocupando um valor incomensurável no desenvolvimento social.

Ao menos nas décadas passadas saber ler e escrever garantia aos que se apropriavam desse saber, uma dignidade mínima na hierarquia social. Hoje não mais. A maioria das pessoas vivem inseridas numa sociedade letrada. Por isso hoje não basta ser apenas alfabetizado é preciso que o indivíduo seja letrado.

Letramento é uma tradução para o português da palavra inglesa “literacy” que pode ser traduzida como a condição de ser letrado. Um indivíduo alfabetizado não é necessariamente um indivíduo letrado. Alfabetizado é aquele indivíduo que sabe ler e escrever; letrado é aquele que sabe ler e escrever, mas que responde adequadamente às demandas sociais da leitura e da escrita.

Essa deveria ser uma das principais preocupações da escola brasileira: alfabetizar letrando. No entanto o que se percebe ao analisar os últimos números da pesquisa do Inaf (Indicador de Alfabetismo Funcional) 2018,  realizada pelo Ibope Inteligência e desenvolvida pela Ong Ação Educativa em Parceria com o Instituto Montenegro que o modelo de ensino brasileiro tem produzido de forma intencional analfabetos funcionais. São pessoas que passaram pela escola, foram “alfabetizados” mas que não conseguem interpretar enunciados simples como ler um cartão de vacina ou realizar operações básicas do cotidiano, como saber se recebeu o troco da feira corretamente. São 38 milhões de pessoas, jovens e adultos com idades entre 15 e 64 anos que foram negadas o direito a cidadania plena.

É preciso denunciar este crime praticado pela escola brasileira e por outras instituições sociais, crime este patrocinado pelo Estado brasileiro (União, estados e municípios) que conta com a conveniência de nós professores, além é claro de toda sociedade. Somos todos culpados. Não há inocentes.

Além da denúncia perante o descaso com a educação brasileira é necessário a mobilização social para que possamos reverter esse quadro. O boicote ao dia D (02-08) da Base Nacional Comum Curricular e a consequente luta contra a sua implementação precisa se inscrever na pauta do dia dos movimentos sociais ligados a defesa de uma educação libertadora e emancipatória. A Reforma do Ensino Médio e a Base Nacional Curricular Comum vêm para tornar a educação da juventude mais precária e estreita e, também, prepará-la para um processo ainda mais profundo de controle, privatização e “produção” de analfabetos funcionais.

A chamada Reforma do Ensino Médio foi imposta através de uma medida provisória, em um dos primeiros atos do governo golpista. E em 2017 ela se transformou em lei através do poder legislativo. Entre os vários pontos da atual BNCC que dão base para a reforma do Ensino Médio é que ela prevê apenas o ensino específico de matemática e português.

A reforma do Ensino Médio vai significar que os alunos poderão completar 40% de grade curricular através de ensino à distância, empresas e instituições particulares e até mesmo no emprego em que estiverem. Também garante apenas as matérias de português e matemática, transformando todas as outras em macro áreas (chamadas itinerários formativos específicos), com o objetivo de reduzir os conteúdos. Essa grande restruturação significará a penetração ainda mais agressiva de grandes monopólios do ensino na educação básica, podendo promover centenas de milhares de demissões de professores em todo o país.

É preciso resistir e lutar contra esse desmonte da já precária educação pública brasileira. Esse é o dever de todos educadores comprometidos com a luta pela justiça social e emancipação dos trabalhadores e de seus filhos. Pois como já dizia o mestre Paulo Freire “quando a educação não é libertadora o sonho do oprimido é ser o opressor”.

*É professor da rede municipal de ensino de Anápolis.

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