machões_impotentes

Uma lição importante para os homens (machos) que a atual pandemia está oferecendo sobre a condição das mulheres. É melhor aprendê-la e apreendê-la o quanto antes!

Daniel da Costa*

Uma das grandes conquistas na área da ética, pela humanidade dos nossos dias, é, na verdade, uma lição muito antiga. Ela data de pelo menos 800 a.C., quando os primeiros movimentos que o conhecimento humano fez para dentro de si descobriu o caráter “individual” e “próprio” do sentimento e da dor que cada um de nós possui e sente.

Esta lição da Antiguidade nos é apresentada hoje pelo conceito: “lugar de fala”.

Com “lugar de fala”, quer-se repetir a lição antiga de que há níveis de comunicação entre nós seres humanos impossíveis de serem realizados. Quem intuiu isso, foram os céticos da antiguidade. Mas hoje, temos que superar o caráter muito pessimista e unilateral desta formulação cética. Se quisermos continuar vivos.

Mas, no fundo, a lição cética carrega a grande verdade de que, por exemplo, é impossível “sabermos” o nível exato em que alguém sente a dor de um ente querido. O nível exato da dor física de alguém que está enfermo. O nível exato do sofrimento de uma pessoa negra que sofre preconceito e racismo violentíssimo, como o daqui do Brasil que o é justamente porque já naturalizado como “normal” e sutil: hipocrisia que aumenta ainda mais seu caráter sádico destrutivo nas vidas das pessoas negras. O nível exato da opressão e sofrimento e humilhação que uma criança sente quando lhe fazem “bullying” na escola. O nível exato de sofrimento e humilhação que um pai e mãe de família sentem, quando são obrigados a trabalhar por uma migalha por 12 horas diárias em um tipo de serviço humilhante, desgastante, repetitivo e não realizador, apenas para que não falte o alimento em sua casa.

Enfim, e para o que nos interessa enfatizar aqui neste texto, o nível exato do sofrimento e humilhação milenares que as mulheres deste mundo, todas elas (mesmo as que digam que não), sofrem por causa do esquema milenar patriarcal e machista dominante. Esquema forjado há milênios pela mente, sentimento e a alma típica dos homens machos que têm dominado todas as instâncias da realidade política, educacional, cultural e social. Esquema que pesa sobre as vidas de 50% da humanidade constituída pelas mulheres.

Isso faz com que a nossa humanidade esteja ainda perdendo a grande potencialidade e capacidade “especificamente” femininas que poderiam nos ajudar, a todos os seres deste planeta, a encontrar as saídas mais eficazes e benéficas das desgraças (não das coisas boas, estas devem continuar e serem aperfeiçoadas e favor da vida) que o mundo dos machos tem criado e nos feito sofrer a todos. (Para os idealistas de plantão, quero dizer que neste mundo não há “condição perfeita”, nunca haverá, seja ela pelo predomínio dos homens ou das mulheres. Sempre, o que haverá, será a “condição humana”. Falível, temporal e sujeita ao aperfeiçoamento.

Todavia, na atual condição humana, podemos dizer que 50% da humanidade (compostos pelas mulheres) ainda permanecem sem representatividade real neste mundo. Nós não temos noção, não sabemos ainda, por causa da opressão dos machos que ainda vigora sobre as mulheres, quais são realmente as potencialidades da “feminilidade” para o suporte de uma existência neste mundo mais digna para todos. Mas graças à luta de mulheres valorosas na história, graças à demonstração histórica de suas capacidades de força, inteligência e resistência impressionantes, podemos vislumbrar, podemos fazer ideia das potencialidades ligadas à existência e condição femininas que estão senso desperdiçadas por causa do esquema falido burguês liberal de vida que ainda insiste em se manter sobre todos nós.

Assim, a ausência brutal da feminilidade nos quadros mais elevados de poder neste mundo é uma perda de potencial humano brutal para todos. E o esquema milenar patriarcal do mundo dos machos, que se tem se elevado em sua sutileza, refinamento e capacidade de violência e opressão neste atual graças à afirmação do mundo burguês liberal capitalista impede que, quando vemos uma mulher ocupando um cargo elevado no poder, elas sejam o que devem ser. Pois acabam tendo que negar sua metade feminina para se tornarem “homens de saias”, para permanecer no posto. Com muitas delas assumindo o caráter de opressão dos machos com um tom profundo de vingança que, muitas vezes, vai fundo em seu caráter destrutivo. A história é cheia de exemplos desse fenômeno.

Todavia, as novas condições de vida e existência que o mundo atual da pandemia está nos impondo é para que criemos novos tipos e modelos de convivência humana neste mundo. E que sejam baseados na paz, justiça, solidariedade e fraternidade, com estes valores construídos sobre os vínculos de amor mais reais e profundos que teremos, todos nós juntos, que descobrir para que nasça este novo mundo.

Vínculos que finalmente nos unam uns aos outros e a todas as demais criaturas deste mundo de Jesus Cristo, onde a finitude dos recursos naturais, onde a consciência da finitude do próprio mundo já deixa claro que não podemos mais manter a loucura do modelo de dominação ideológica burguesa liberal capitalista pautada sobre o esquema aloprado (produção-consumo) fora dos eixos, fora das necessidades reais da vida e existência possíveis neste mundo. Isso se quisermos realmente continuar vivos e vivendo ainda um tipo de vida que seja mais digna sobre a face desta terra tão sofrida.

Assim, se quisermos abrir a caixa de potencialidades da “feminilidade” nessa grande empreita, que esta pandemia está nos colocando nas mãos hoje, devemos definitivamente dar espaço para ouvirmos o que as mulheres de valor deste mundo, as que não se dobram e têm consciência de sua dignidade, têm a nos dizer. O que elas têm a contribuir para a construção deste “novo mundo” de paz, justiça, solidariedade e fraternidade que pede, hoje, passagem. E que será a superação do esquema falido e morto burguês, liberal e capitalista com seu lixo dos falsos valores do individualismo e da competição que ainda insistem em permanecer.

Assim, não obstante nós homens (machos) não termos condição de “saber” exatamente o quanto as mulheres deste mundo patriarcal sofrem por causa do peso que impomos sobre elas, um peso que nós homens achamos normal colocar, mas que as mulheres dignas têm acordado e protestado contra. Já que nunca poderemos “saber” o quão grande é seu sofrimento, podemos sim fazer um exercício de saída de nós mesmos (machos) par nos colocar no lugar delas. Isso se chama “buscar compreender” a situação do semelhante.

É possível hoje, para nós homens (machos), compreendermos o sofrimento do nosso semelhante que sofre. Já temos muitas ferramentas e indicativos para isso. As ciências humanas e a descoberta atual da temporalidade pelas ciências humanas, da nossa condição histórica humana, esclarecem que somos seres finitos, fracos, contingentes e interdependentes, uns dos outros. E tudo isso são sinais e ensinos suficientes para que nós, homens (machos) atuais, deixemos o falso conforto do mundinho burguês liberal pelo qual achamos que estamos em lugar privilegiado na sociedade ao ponto de mantermos a opressão sobre as mulheres por causa da mentira do mundo burguês liberal capitalista patriarcal.

É possível, hoje, nos colocarmos no lugar das mulheres. Não para “entendermos plenamente pela razão”, como os céticos já nos ensinaram desde a Antiguidade, seu sofrimento. Mas para “compreendermos” plenamente, por nossa comum humanidade, e pelo coração (lugar do amor e da solidariedade) seu sofrimento. Sim, isso nós podemos e devemos fazer! Devemos iniciar-nos na prática desta que é a lição ética mais profunda que à humanidade atual está posta, desde pelo menos o surgimento do mundo falido burguês atual que surgiu em 1500  e que representa a continuidade mortal do esquema patriarcal da Antiguidade e que está na base de todo o mundo bárbaro não civilizado antigo. Isso se quisermos continuar vivos; se quisermos que nossas crianças, animais e plantas continuem existindo para nos dar alento e alegria.

Digo que o patriarcalismo e seu hierarquismo social milenar fajuto propõem um falso conforto que ainda engana aos homens (machos) deste mundo. Pois, na verdade, “as desgraças e mazelas e sofrimento que este modelo burguês liberal, arqueado de vermes e rabujo, impõe sobre as famílias e relações humanas recaem, inexoravelmente, sobre todos os trabalhadores”, sejam homens ou mulheres, indistintamente. E sua reprodução necrófila e sádica pelos homens (machos) trabalhadores só se dá por causa da falsa impressão que estes homens têm de que, ao menos, nesse esquema burguês liberal de destruição mútua, eles são a parte sádica (que impõem o sofrimento) e as mulheres a parte masoquista (quer recebem o sofrimento imposto), nos lares.

Isso é uma ilusão mortal para todos. Inclusive para os únicos que, vivendo também uma existência miserável, mas porque têm dinheiro, acham que podem comprar tudo, inclusive a “felicidade”. Mas não podem: esperem para ver o que o vírus letal que essa canalha do Trump e as famílias ricas deste mundo criaram está fazendo e irá fazer com eles e suas famílias burguesas, que acham que vã ficar ilesas porque estão bem protegidas da desgraça atual que criaram em seus bunkers de aço. Essa canalha burguesa mundial irá sentir o sofrimento que criam e apoiam todos os dias sobre os homens e mulheres, animais e plantas, sobre a face desta terra sofrida, em suas próprias peles e nas de seus descendentes, sem exceção.

Assim, ou aprendemos a lição da “compreensão” do sofrimento do nosso semelhante, e das mulheres em especial, ou todos, sem exceção, pereceremos.

Se você que está lendo este texto quer saber como, pense no sofrimento e dor que você já passou na vida. Daí reflita e diga para si: “é isso que o meu semelhante está passando exatamente agora com esta humilhação que ele está sofrendo, com esta fome, com esta miséria que lhe é imposta.” E daí então prossiga no aprofundamento deste que é o conhecimento mais profundo que um filósofo pode chegar.

Cada pessoa já tem em si tudo para ser “filósofo”, pois ser sábio é aprender com o sofrimento dos outros porque sabe “lembrar-se” do sofrimento próprio e fazer a comparação para, enfim, “compreender”, não somente com a razão, mas com o coração solidário.


Obs.: Não vou traduzir este para o Inglês, porque os meus leitores internacionais ávidos o farão. Assim, me dispenso deste trabalho. Rsrsrsrsrsr

  • * Bacharel, licenciado, mestre e doutor em filosofia pela USP; bacharel em teologia pela Faculdade Teológica Batista de SP; pedagogo licenciado pela FALC; autor de artigos de filosofia em veículos especializados e livros coletânea; autor do livro *O cristianismo ateu de Pierre Thevenaz* (no prelo); tradutor de mais de trinta livros nas áreas de filosofia, ciências da religião, ciências humanas e teologia; músico profissional (guitarrista) e jornalista. Colunista do Cartas Proféticas.
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4 Comentários

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