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Uma política comercial autofágica

Douglas Bucalem*

Jair Bolsonaro, subserviente a política externa dos Estados Unidos, como é de seu feitio, anunciou no domingo passado que está alinhado a política de boicote aos navios iranianos ancorados no porto de Paranaguá, impedidos de prosseguir seu destino por falta de combustível, negado pela Petrobrás com medo de sofrer retaliações do governo estadunidense. Como bom soldado, acatando ordens do superior, Bolsonaro diz que estamos “alinhados à política deles, então fazemos o que tem que ser feito”, diz o ex-capitão em cumprimento as ordens dadas por seus comandantes.

O problema é que o Governo brasileiro não é uma caserna e o Irã é responsável pela terceira maior importação de carne e o destino de um quinto do milho exportado pelo Brasil. Somente no primeiro semestre deste ano, o comércio foi superavitário para o Brasil em US$ 1,27 bilhão.  A operação de comércio exterior mais comum entre os dois países é a exportação das “perigosas cargas” de milho e a importação de ureia como fertilizante agrícola. Esse é o caso dos navios ancorados a espera de uma solução.

Estive no Irã por 4 meses em 2016. Revolução Islâmica de 1979 proporcionou a população educação, saúde e segurança para a população. Aproximadamente 83% por cento da população é alfabetizada, a saúde é universalizada, além de grande produção cultural e artística reconhecida mundialmente. O cinema iraniano já recebeu prêmios em todas as maiores competições de destaque.

Como resposta viável a empresa Eleva, responsável pelo fornecimento de milho aos iranianos, afirmou que ela será a compradora do combustível da Petrobras e que, portanto, não há risco de que a estatal seja alvo das sanções americanas e que a “demora num desfecho para o caso gera o risco de uma grave crise ambiental no Porto de Paranaguá pelo fato de a carga conter níveis elevados de conservantes para manter sua integridade durante a viagem. Há também a iminência de uma crise humanitária, já que há 50 tripulantes a bordo confinados há um mês e meio no local sem poder desembarcar. Tudo isso sem falar que a falta de combustível deixará os navios à deriva, sujeitos à força de vento e mar, podendo causar danos à navegação, aos tripulantes, a outras embarcações e, no extremo, levar ao fechamento do Porto de Paranaguá”, disse a Eleva.

Leia do mesmo autor: Um conflito ancestral entre filhos do mesmo pai

Ademais, o Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros dos EUA, responsável pelo boicote não proíbe o comércio de produtos agrícolas e remédios, produtos que não estão incluídos nas sanções americanas, enquadrados na chamada “exceção humanitária”.

Portanto, trata-se de mais um arrombo autofágico na política externa brasileira, a serviço de um governo caprichoso em bajular o “capitão do mato”, Donald Trump. O Irã atualmente é a “bola da vez”, hoje o segundo maior produtor de petróleo, combustível que move a economia americana.

Chamo a atenção para os produtores de milho e carne no Brasil. Quem vai botar o “guizo no gato”? Algum empresário tem que protestar, ou existe um delírio coletivo sobre mais essa sandice na política externa. Os prejuízos serão enormes e, mais uma vez, com o prestígio do Brasil seguidamente arranhado no mundo árabe (“remember” mudança da Embaixada Brasileira para Jerusalém), quem vai arcar com o déficit na balança comercial?

Só existe uma tenebrosa resposta: fechamento de empresas e desemprego acompanhado de mais um adendo a crise econômica em recessão galopante.

* Correspondente do Jornal da Manhã e da Rádio Líder.

2 Comentários

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