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Vai ter princesa preta, sim!

Edergênio Negreiros Vieira* 

Pele Negra, Máscaras Brancas é um livro clássico na Psicanálise, na Filosofia, na Literatura, em suma nas ciências humanas, a obra do martinicano Frantz Fanon é fruto de um trabalho de conclusão do doutorado na França. Cabe ressaltar que o texto, escrito para o doutoramento de Fanon,  foi rejeitado pela academia. Disseram que a escrita não era acadêmica. Bem, Fanon escreve outro texto com um viés mais positivisito, o qual é aceito, forma-se doutor com distinção. Um ano depois, o martinicano edita o escrito rejeitado: Pele Negra, Máscaras Brancas, torna-se referência para se pensar a problemática do racismo a partir do consciente e do inconsciente. O livro visa despertar o senso crítico sobre o racismo e suas consequências. Para Frantz Fanon uma questão fundamental é lutar contra a alienação colonial. Para ele alienação é a impossibilidade de se constituir como ser, de se constituir como sujeito da minha própria história. Influenciado pelo marxismo, Fanon estabelece que não basta mudar a visão de mundo para deixar de ser alienado, é preciso mudar o mundo.

O racismo é um fenômeno que se expressa no cotidiano, o racismo acontece em situações banais, expressa-se na escola, no mercado de trabalho, no jogo de futebol, num parquinho de criança. Foi o que aconteceu com a garotinha Ana Luísa Cardoso, de 9 anos, no dia 01 de janeiro de 2020, no Parque Ipiranga, região nobre de Anápolis, ela escreveu uma carta à mãe. Na missiva ela diz: “Mamãe, é verdade que não existe princesa preta? Eu fui brincar, a mulher falou. Fiquei triste e com medo de contar para você. Ela falou que não tinha princesa preta. Eu chorei, mamãe”, narra a menina.

Fanon no livro denuncia que o Europeu construiu um discurso sobre a racionalidade, a racionalidade ocidental seria marcada pelo padrão Europeu. Duas questões são fundantes na nossa constituição enquanto seres humanos: emoção e razão, mas na fundação da civilização ocidental, é preciso separar, segundo ele, razão e emoção.

 Ao dizer que a racionalidade é europeia, Fanon denuncia que a Europa construiu a ideia de ser humano como sendo o branco. Ao chamar para si o direito de dizer o que é ser racional, o branco se constitui e constituiu o Outro. Grada Kilomba nos diz que “Dentro dessa infeliz dinâmica, o sujeito Negro torna-se não apenas o “Outro” – o diferente em relação ao qual o “self” da pessoa branca é medido – mas também “alteridade”-  a personificação de aspectos repressores do “self” do sujeito branco. Em outras palavras, nós nos tornamos a representação mental daquilo com que o sujeito branco não quer se parecer”.

A branquitude nomeia o que é ser negro, nomeia o que o negro pode ou não ser. Ao dizer “Não existe princesa preta”, o branco está dizendo que não haverá professores, médicos, engenheiros, e advogados pretos. O negro será a representação mental do que o sujeito branco teme em reconhecer sobre si mesmo, por isso os negros são representados como o ladrão, o assassino, o bandido, o indolente, o malicioso. Os negros serão sexualizados e bestializados a partir da estética do branco.

É preciso desconstruir essas visões estereotipadas, é preciso denunciar, é preciso debater os racismos institucionais e cotidianos, é preciso lutar contra os silenciamentos, mas mais do que nunca é preciso que as representações simbólicas e imagéticas (lugares de formação do consciente e do subconsciente) sejam desmistificadas. Vai ter advogada, vai ter professora, vai ter governadora, vai ter prefeita, vai ter médica, vai ter princesa preta, sim!

*É  professor, mestrando do PPG-IELT-UEG e colunista do Cartas Proféticas.

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Um comentário

  1. A partir da tristeza de criança negra o prof. Edergênio reflete em artigo sobre as máscaras e papéis impostos pelo racismo aos negros e negras. Acesse e compartilhe o link do Cartas Proféticas: http://cartasprofeticas.org/vai-ter-princesa-preta-sim/

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