edergênio_joão

Você ri do meu cabelo (ri do meu cabelo)?

 João Vitor da Silva Santos é estudante*

       A televisão aberta apesar do avanço da internet ainda é um veículo de comunicação que possui um grande lastro no Brasil. Assuntos abordados pela tv aberta tomam alcance inimaginável. Quanto um tema é levantado por uma emissora de grande audiência, essa temática é debatida em rodas de conversas, grupos de aplicativos de mensagens instantâneas, podcasts, e em outras mídias. Essas discussões são pautadas na maioria dos casos por opiniões baseadas em sensos-comuns, oportunidade em que as pessoas perdem a chance de se educarem.

        É o que temos percebido em relação a polêmica envolvendo o ato racista de um homem branco do reality show Big Brother Brasil da rede Globo de televisão, ao se referir ao cabelo de outro participante do programa. O cantor sertanejo Rodolfo disse: que a peruca de monstro que ele usava, parecia com o cabelo black power do professor de geografia João.    

        Em diversos grupos de discussão sobre este assunto, podemos observar uma boa parte de pessoas taxar a reação do professor João e do ato como “mimimi” e “vitimismo”. Assistimos pretos/as concordarem com esses comentários, fato que demonstram que a educação e o debate são o melhor caminho.

          É preciso dizer que ao longo da história, o cabelo único de pessoa negras foi renegado, representando a estética mais visível da representação da negritude. A psicanalista Grada Kilomba aponta que “mais do que a cor de pele, o cabelo tornou-se a mais poderosa marca de servidão durante o período da escravização. Uma vez escravizadas/os, a cor da pele de africanas/os passou a ser tolerada pelos senhores brancos, mas o cabelo não, que acabou se tornando um símbolo de “primitividade”, desordem, inferioridade e não civilização. O cabelo africano foi então classificado como “cabelo ruim””.

           Ao associar o cabelo crespo de João a um cabelo de monstro há no discurso do participante uma tentativa de controle e menosprezo a estética do outro. É preciso que se diga que o black power é antes de tudo um instrumento de consciência política entre africanas/os, e africanas/os da diáspora. Os nossos dreadlocks, rastas, cabelos-crespos e “blacks”, assim como penteados africanos mandam uma mensagem política de fortalecimento racial e um manifesto contra a opressão racial.

      Na edição anterior do mesmo programa, tivemos a participação do ator e ativista Babu Santana, que fez uma colocação muito interessante e até surpreendente para boa parte dos pretos/as ao dizer que “o cabelo Black, afro e o empoderamento da nossa raça é o mais forte sinal de resistência”.

      Muitos/as pretos/as após assistir esse comentário em rede nacional tomaram gosto pelo seu próprio cabelo e se iniciou uma onda de aceitação da própria origem. Hoje em dia vemos os/as pretos/as com seu “Black Power” e outros penteados africanos nas ruas, mostrando para nossa sociedade que temos orgulho da nossa origem e que exigimos respeito.

*João Vitor da Silva Santos é estudante e Edergênio Negreiros Vieira é Mestre em Educação, Linguagem e Tecnologias.

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