povo sem medo marcha

Xico Sá emocionado: “Só os sem-terra e sem-teto salvam o Brasil”

Em face do impacto de uma multidão de trabalhadores e trabalhadoras sem teto em marcha em São Paulo,  o jornalista Xico Sá faz inquietante reflexão.

Vê-se tanta desesperança a até dedo em riste indignado em juízo de acusação à aparente apatia do povo diante dos estragos cometidos pela quadrilha que assaltou o País e dos escombros humanos e naturais deixados pelos que entregam nossas riquezas aos poderosos, mas pouco se vê, porque  na Globo “não passa por aqui”, as multidões que se organizam e preparam a revolução.

Xico viu enorme caudal de energia nas trinta mil pessoas que marcharam em direção ao palácio ocupado por chuchus em São Paulo.

Na verdade os trabalhadores atacados por todos os lados pelo golpe facínora e sádico, aparentemente desnorteados, buscam mobilizar-se e marcham.

Leia abaixo um trecho do texto humano e rico de Xico Sá e leia sua íntegra clicando sobre o direcionamento ao site do El Pais.

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Imprescindíveis criaturas, caro Boulos, como aqueles dez mil sem-teto que marcharam esta semana da ocupação de São Bernardo ao Palácio dos Bandeirantes, que bela romaria em busca do que lhes é de direito no latifúndio urbano. Pobre de espírito quem chama de vagabundo quem não tem casa ou terra no país que sempre foi o reino dos capatazes, sempre viveu sobre o tacão da monocultura  da cana-de-açúcar da Casa Grande à Sojolândia. A cara de pau, assim como o agro, é pop.

Entre os milhões de sem-qualquer-coisa, os sem-teto do MTST e os sem-terra do MST, ave palavra, são um alento. Ainda mais nesta hora calada que mais parece um minuto de silêncio sem fim antes de um jogo da Pátria em chuteiras.

Os sem-teto e os sem-terra lutam todos os dias, estes são imprescindíveis, velho Brecht. Eles não se rendem à mudez geral da nação. Eles aguentam as buzinas dos apressadinhos da urbe  acelera, São Paulo! Eles suportam a história universal da infâmia e todos os xingamentos de “vagabundos”. Será que temos ao volante ou nas caixas de comentários da internet alguém que já trabalhou mais que essa gente? Duvido muito.

Eu sempre quis muito como cronista vira-lata, mas nem vou citar a censura que o Caetano sofreu ao não poder cantar o que seria a mais genial das músicas de acampamento:

“Terra! Por mais distante/ o errante navegante/ quem jamais te esqueceria?…”

Os baianos e os paraíbas, a gente toda do meu pequeno exílio sem um sítio ou um quarto-sala para sonhos particulares, certamente amariam. Repare na ironia da injustiça histórica: justamente o seu Morando (PSDB), prefeito de São Bernardo, vetou, com a mão amiga da jurisprudência que fode pobre, a parada. Assim que funciona, Preto Zezé, ninguém sabe mais disso do que teu repertório de peleja no Ceará e no mundo.

Quem quiser que fale mal ou tire onda do Caetano, mas acho bonito que este menino da cinquentenária Tropicália esteja na luta lenta, como sopraria um rapaz de Irará, Bahia. Que sorte deste país tê-lo no jogo das contradições políticas. Importante, baby. Lá vai o Brasil de volta para o o ABC paulista, beirada nervosa do punk-rock, discutir o redemoinho que nos faz vivos desde que o Lula virou, para o espanto geral da taba Tupi, o maior presidente da história da República. Com todos os acertos e pisadas. Eterno retorno ao chão da fábrica e aos que não têm um solo sobre os pés para largar os sapatos ou chinelos.

Relax, amigos, é apenas o começo do fim do mundo, as criaturas que lutam toda vida nunca foram tão necessárias. O resto é silêncio.

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